“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.” –Marx, O capital. Livro I Cap. XXIV, 1867.

Por que Temer foi absolvido?

De joelhos, mas não derrotado — eis a imagem do governo Temer hoje. Todavia, ilude-se quem acha que o filme de terror da quarta-feira passada foi uma demonstração de força do governo. Temer foi absolvido no covil brasiliense não porque é forte, mas porque é fraco. Temer foi absolvido não porque “soube negociar o que Dilma não sabia”, mas simplesmente porque não há oposição real a ele.

Não há oposição por um motivo bastante revelador: com exceção do Ministério Público, ninguém acha Temer perigoso. Esse “ninguém”, é claro, diz respeito sobretudo às oposições burguesas. PSDB e PT não querem derrubar Temer pois ele não tem qualquer projeto próprio, só pensa em salvar a própria pele, e, se se mantiver até 2018 como governo tampão, fazendo miseráveis reformas, tanto melhor para os grandes partidos burgueses (PT e PSDB). Assim como Temer, os principais líderes desses partidos burgueses — Lula e Aécio — estão sobretudo preocupados em salvar a própria pele. É a solidariedade dos bandidos burgueses, ou melhor: o conluio da canalha (da grande coligação PT-PMDB-PSDB).

Manter a ordem e as aparências para se salvarem, fazer cada qual seu teatrinho para que se dê em 2018 a velha polarização tucano-petista, tão costumeira quanto falsa — eis a preocupação central desses senhores.

Entretanto, há alguém que é oposição a Temer e acha ele perigoso. É um oposicionista ainda passivo. Esse alguém é o “povo”, ou melhor, a classe trabalhadora, a esmagadora maioria da população do país, que contém uma revolta abundante. Tragicamente, esse alguém não se mexe de forma consequente, pelo simples fato de que não há organização política à altura no Brasil para por em movimento a classe trabalhadora. A esquerda radical, a quem caberia essa tarefa, paga hoje um alto preço pelas vacilações do passado — por ter errado ou traído a classe trabalhadora durante décadas, em sua “construção” ao redor do projeto reformista-traidor do PT; ou por simplesmente não ter erguido qualquer projeto sério quando esquentou as ruas há alguns anos (no caso da esquerda dita “autonomista” que ajudou a desatar junho de 2013).

Temer ainda não caiu porque o PT não quer (e, não-querendo, amarrou a suposta “esquerda” radical em torno de si) e porque a dita “direita” não quer (MBL, Vem Pra Rua e outros). É tão simples quanto isso desde o primeiro dia de vazamento da delação de Joesley Batista. Aliás, falamos na semana desse referido vazamento que o PT não quereria derrubar Temer e as massas ficariam órfãs da “esquerda” e da “direita”, sem conseguir ir às ruas. Fomos taxados de loucos, mas quantas pessoas havia na frente do congresso na última quarta-feira?

Nenhum setor burguês quer derrubar Temer e, tragicamente, não existe esquerda revolucionária no país para dirigir a classe trabalhadora.

Numa situação assim, para onde a burguesia quer nos levar?

Enquanto tudo isso acontece, para onde caminha a ordem burguesa? Ora, para o mesmo lugar de sempre: ninguém sabe. Tudo o que é sólido desmancha no ar, ou melhor, nas mãos dos melhores representantes políticos e intelectuais da burguesia brasileira: Temer, Sarney, Lula, Aécio, Collor, FHC, Maluf, Dilma e outras tantas extravagâncias produzidas abundantemente neste país. Gênios da raça (burguesa)! O mais novo candidato ao Panteão é o “deputado da tatuagem”. Ontem foi o “homem da mala”. E por aí vai.

Como um Rei Midas às avessas, tudo o que essa canalha toca transforma-se em estrume. É o caminho da barbárie. Tudo se dilui na geleia geral brasileira. Há poucos meses vimos, por exemplo — e contrariando o que fala a “esquerda” petista — a politização do judiciário. Foi no caso da absolvição da chapa DilmaTemer no TSE. Revelou-se — a quem tinha dúvidas — que quem manda no judiciário é o lobby dos canalhas. Agora, depois de enfraquecer a instituição jurídica do Estado burguês — e depois de já ter enlameado os poderes executivo e legislativo —, a canalha dissolve até a instituição militar. Tanto melhor para a classe trabalhadora.

Temer chamou o exército para ocupar o Rio de Janeiro. Sim, a situação nos morros cariocas — do ponto de vista burguês — é catastrófica. Não há dia — insiste a mídia burguesa — sem no mínimo 10 roubos de carga nas rodovias de acesso à cidade maravilhosa. Ora, por que raios isso justificaria o uso do exército? Na verdade, apesar do aumento gritante da chamada “criminalidade” (vulgo para miséria da classe trabalhadora); apesar da relativa instabilidade nas forças de segurança pública cariocas (PM e Civil, ainda sem receber o 13o salário de 2016 nem as horas-extras trabalhadas nas Olimpíadas); apesar de tudo isso, não há justificativa burguesa evidente para o uso do exército hoje no Rio de Janeiro. Não é como foi na Copa, nas Olimpíadas, na greve dos policiais/bombeiros, no leilão do Campo de Libra, etc.

Temer faz uso político das Forças Armadas. Basta ver sua declaração oportunista no domingo após a entrada do exército no RJ. Temer usou as FFAA para desviar a atenção de seu governo em crise, para tentar demonstrar à burguesia que tem pulso firme, e para tentar — dado que seu governo já não tem mais qualquer popularidade — surfar na onda de popularidade relativa e momentânea das forças armadas. Agindo assim, Temer e a canalha (PT-PSDB-PMDB) atuam para dissolver, na geleia geral da política falida brasileira, mais um pilar de sustentação da ordem burguesa. Tanto melhor para a classe trabalhadora, pois toda essa nefasta violência burguesa terá uma resposta em determinado momento.

As instituições burguesas falem com a falência histórica deste regime de dominação democrático-burguês, todavia está à espreita uma crise/explosão econômico-social de grandes proporções que abrirá possibilidades históricas à classe trabalhadora ou reafirmará a ordem social degenerada da burguesia. Ou seja, a questão ainda é saber qual flor nascerá do asfalto, ou melhor, do estrume produzido pela canalha. Será o passado piorado ou o futuro? A barbárie ou o socialismo? O príncipe do lumpem-proletariado — Lula2018, reinando graças à e sobre a miséria crescente —, ou uma aurora verdadeira?

Não sabemos. A única coisa que sabemos é o nosso dever. Hoje, quando um medíocre Temer escapa justamente por ser medíocre, quando os figurões burgueses preocupam-se mais em se salvar, quando a ordem burguesa caminha para a instabilidade e a explosão, boa parte da esquerda dita radical ou revolucionária/socialista pretende parodiar a história menchevista do PT. Ora, está mais do que provado que o caminho não é por aí. Não cabe sermos apêndices da canalha. O sol que despontará no horizonte não será o amarelado da pequena-burguesia, mas o vermelho-fogo da classe operária. Camaradas revolucionários, sigamos nosso curso!