MOVIMENTO NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 
BUSCA OK
~~!
MNN

“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

IP TEXTOS HISTÓRICOS

ECONOMIA POLÍTICA

O "socialismo em um só país" e os debates econômicos soviéticos da década de 1920 — Parte 2

Nick Beams, do wsws.org

19/05/2009

O camarada Nick Beams, secretário nacional do Partido da Igualdade Socialista (Socialist Equality Party — SEP) da Austrália e membro da Comissão Editorial Internacional do WSWS, ministrou duas palestras na escola de verão do SEP em Ann Arbor, Michigan, agosto de 2007. A palestra lida com alguns dos conflitos cruciais em torno da política econômica da União Soviética durante os anos da década de 1920. Uma das motivações para as palestras era responder às distorções avançadas pelo acadêmico britânico Geoffrey Swain em seu livro Trotsky, publicado em 2006. Mais material pode ser encontrado em Leon Trotsky & the Post-Soviet School of Historical Falsification, por David North.

Afinal a Oposição foi derrotada e Trotsky exilado. As raízes da derrota estavam, em última análise, nos demais golpes contra a revolução internacional, agora preparados pelas políticas do próprio aparato stalinista, causando o refluxo das massas. Enquanto as facções dominantes precisavam somente da passividade das massas, a oposição precisava do seu ânimo e envolvimento ativo. Isso não era esperado diante do impacto de maiores derrotas, especialmente a derrota da Revolução Chinesa em 1926-27.

Embora Trotsky fosse a figura proeminente da Oposição, Evgeny Preobrazhensky teve um papel significativo na esfera da política econômica. Preobrazhensky iria capitular ao regime de Stalin. Mas sua análise, e as concepções teóricas nela contidas, que o fizeram se retratar, contêm questões importantes que não perderam em nada sua relevância.

Preobrazhensky nasceu em 15 de fevereiro de 1886 em Bolkhov, uma pequena cidade na Rússia central estabelecida no século XIII, e foi morto no expurgo feito por Stalin em 1937. Filho de um padre ortodoxo professor da Bíblia, Preobrazhensky depois afirmou que seu radicalismo de juventude se desenvolveu em oposição a “toda falácia religiosa” que via ao seu redor. No colegial ele emergiu como um militante e fundou um jornal político. Juntou-se aos social-democratas russos em 1903 com 17 anos de idade, e foi preso durante seu primeiro ano como estudante do Departamento de Direito da Universidade de Moscou.

Ele tomou parte na Revolução de 1905, e, após sua supressão, foi aos Urais para comparecer à conferência partidária russa de 1907 na Finlândia, onde conheceu Lenin. Preobrazhensky foi repetidamente preso por suas atividades políticas e em setembro de 1909 foi enviado ao exílio interno. Quando a Revolução de Fevereiro explodiu ele não apoiou o Governo Provisório, e foi um dos primeiros a aceitar as Teses de Abril de Lenin.

Durante as negociações de Brest-Litovsk em 1918, Preobrazhensky estava entre os opositores do acordo e se alinhava com Bukharin. Eleito como um membro alternativo do Comitê Central em 1917, ele se tornou um membro integral em 1920. Preobrazhensky era um dos que durante o período do Comunismo de Guerra procuraram desenvolver um sistema de planejamento centralizado. Ele foi um crítico da NEP desde seu início e já em dezembro de 1921 criticava Lenin por caracterizar o Comunismo de Guerra como um erro.

Preobrazhensky foi um proeminente signatário da Declaração dos 46 em 1923, e, após a introdução da NEP, combateu acirrada e continuamente as teorias de Bukharin, principal porta-voz da direita. Em 1929, depois que a oposição foi esmagada, Preobrazhensky foi um dos primeiros a romper com Trotsky sobre a base de que o regime Stalin havia se voltado para a esquerda e estava implementando medidas de industrialização exigidas pela Oposição.

Ele foi expulso novamente do partido em 1931 após a publicação de seu livro O Declínio do Capitalismo, que expressava diferenças significativas em relação ao economista-chefe de Stalin, Varga. Readmitido em 1932 ele fez uma fala de retratação no assim-chamado Congresso dos Vitoriosos em 1934, na qual atacou Trotsky. Após ser encarcerado em 1935 ele serviu como testemunha da acusação no julgamento de Zinoviev em 1936. Preso novamente em 1936, teve seu julgamento agendado, mas não apareceu e foi fuzilado em 1937, após recusar-se a confessar.

A principal contribuição de Preobrazhensky ao debate da política econômica se centrava no que ele chamou de lei da acumulação socialista primitiva, elaborada em artigos e em seu livro The New Economics, publicado no ano de 1926.

Na economia soviética do NEP, ele mantinha, havia um conflito entre a lei do valor, através da qual o mercado capitalista era regulado, e a lei da acumulação socialista primitiva. O equilíbrio da economia soviética era estabelecido com “base no conflito [dessas] duas leis antagônicas.” [24]

O conceito de acumulação primitiva foi desenhado a partir da análise de Marx do desenvolvimento histórico do capitalismo. Antes que o capitalismo se desenvolvesse ao estágio em que podia varrer todos os modos de produção anteriores através da operação espontânea do mercado, precisou estabelecer uma acumulação inicial de riqueza. Essa acumulação primitiva foi obtida por meios de política colonial, a pilhagem da produção camponesa, o uso de impostos e, acima de tudo, o uso de força pelo Estado.

A produção socialismo em seu desenvolvimento plano atingiria a superioridade sobre o capitalismo. Mas naquele momento, na economia atrasada da União Soviética, ele estava muito atrás. Com o passar do tempo, seria possível ir adiante com a acumulação socialista pela construção de meios de produção a partir dos recursos criados dentro da economia socialista. Mas esse estágio ainda não havia sido alcançado. Era necessário engajar na “acumulação socialista primitiva.” Isso envolvia “acumulação nas mãos do Estado de recursos materiais principalmente ou parcialmente de fontes externas ao complexo da economia estatal. Essa acumulação precisa ter um papel crucial num país campesino atrasado, acelerando em grande medida a chegada do momento no qual a reconstrução técnica e científica da economia estatal começa, e o momento no qual essa economia alcança superioridade puramente econômica sobre o capitalismo.” [25]

Preobrazhensky rejeitou as afirmações de seus oponentes de direita, que diziam que ele propunha o tipo de medidas severas contra o campesinato que haviam acompanhado a acumulação primitiva sob o capitalismo. O processo de acumulação, ele insistiu, teria lugar através do mecanismo do preço.

Ele explicou as questões com o seguinte exemplo.

Indústria

Agricultura

100 horas de trabalho

150 horas de trabalho

100 unidades

100 unidades

100 rublos

100 rublos

Os produtos da indústria e da agricultura têm o mesmo preço. A desigualdade está no fato de que o grão, incorporando 150 horas de trabalho agrícola, foi trocado por mercadorias industriais que incorporam apenas 100 horas de trabalho industrial. Na economia mundial poderia ser assumido que o grão, incorporando 150 horas de trabalho agrícola, poderia ser trocado por uma maior quantidade de mercadorias industriais. Mas isso é impedido pelo monopólio do comércio exterior. A troca desigual fornece a base de acumulação para o setor industrial socialista na forma de novos equipamentos e maquinaria, o que levanta a produtividade do trabalho, levando a uma mudança nas relações de troca.

Indústria

Agricultura

100 horas de trabalho

150 horas de trabalho

120 unidades

100 unidades

100 rublos

100 rublos

Num segundo estágio a troca ainda é desigual, mas a posição do campesinato melhorou. Agora recebe 120 unidades de mercadorias industriais, em comparação com as 100 unidades anteriores. Preobrazhensky reconheceu que a apropriação de excedentes vindos do campesinato iria "dar sustentação a um certo descontentamento." Mas ao mesmo tempo tal política começaria a criar condições para superar esse descontentamento expandindo a produção industrial e abaixando os preços, assim atenuando a exploração dos camponeses pelos comerciantes, e também recrutando novos trabalhadores do campo. Por outro lado, continuar com a subacumulação levaria à continuidade da "penúria dos bens" e de um crescente descontentamento dos camponeses "de modo que essa pressão do campo ameaça nosso sistema de protecionismo e monopólio do comércio exterior." [26]

Preobrazhensky não estava satisfeito em descrever os mecanismos desses processos. Ele procurou descobrir as leis objetivas que o governavam. A economia era movida pela luta para aumentar os meios de produção pertencentes ao Estado e isso significava primar pela máxima acumulação socialista primitiva.

"Todo o agregado de tendências, tanto conscientes quanto semi-conscientes, dirigidas ao máximo desenvolvimento da acumulação socialista primitiva, é também a necessidade econômica, a lei compulsória da existência e desenvolvimento de todo o sistema, a constante pressão na consciência da coletiva dos produtores da economia estatal, que os leva de novo e de novo a repetir ações cuja finalidade é a obtenção da acumulação ideal em uma dada situação." [27]

A ênfase no caráter objetivo da lei da acumulação socialista primitiva, que pressiona a consciência, se torna significativa quando consideramos as razões da capitulação de Preobrazhensky a Stalin.

Preobrazhensky insistiu que não era suficiente simplesmente falar da luta entre o princípio do planejamento socialista e a espontaneidade da economia de mercado porque isso não dizia nada sobre a fase específica daquela luta e as condições sob as quais ela estava se desenvolvendo.

Mais que isso, ele manteve que a lei da acumulação socialista primitiva se baseava em tendências interiores ao desenvolvimento do próprio capitalismo e que minavam a operação da lei do valor. Pelo fato dessa análise ter formado a base de sua eventual ruptura com a Oposição de Esquerda e Trotsky, é necessário elaborar as questões fundamentais de política econômica marxista, em particular a lei do valor, que estão envolvidas.

Em O capital, volume 1, Marx mostra que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário incorporado a ela. Numa sociedade de mercado simples — uma abstração teórica empregada por Marx — as mercadorias são trocadas no mercado a seus valores. Com base nessa análise, Marx demonstra como o mais-valor surge da compra e uso da mercadoria força de trabalho que o trabalhador vende ao capitalista no contrato salarial. Marx mostra que o mais-valor surge das próprias leis que governam a troca de mercadorias e emerge assim que a compra e venda da força de trabalho tem lugar. A origem do mais-valor está no fato de que a força de trabalho é uma mercadoria especial na medida que sua aplicação no processo produtivo faz surgir mais valor do que ela própria incorpora.

O método de análise de Marx envolve um movimento contínuo do abstrato ao concreto. Em O capital, Volume 3, não mais temos a troca de mercadorias simples, os produtos do trabalho de produtores individuais. As mercadorias que agora despontam no mercado são produtos de firmas capitalistas, nas quais a proporção de meios de produção [capital constante] para trabalho vivo difere ao longo da gama de indústrias.

O preço de uma mercadoria, agora não mais o produto de um produtor individual, mas de uma firma capitalista, não será determinado diretamente pela quantidade de novo trabalho que incorpora, mas será de tal forma que retorna para o capital total que a produziu uma taxa média de lucro. Essa taxa média é determinada na sociedade como um todo pela relação do mais-valor total extraído da classe trabalhadora e o capital total empregado.

Com base nessa análise Marx demonstra que a competição é a forma assumida pela luta entre os diferentes setores do capital pela apropriação de suas respectivas parcelas da massa de mais-valor disponível. Se os preços em um setor da economia estão em um nível que retorna ao capital desse setor um lucro maior que a taxa média, então o capital de outros setores se dirigirá para lá, aumentará a produção, e diminuirá o preço até que as taxas de lucro alcancem os níveis médios novamente. Mas se as firmas já naquele setor forem capazes de impedir a entrada de novos capitais, isto é, por qualquer razão, sejam capazes de exercer o controle monopolista, então os lucros naquele setor permanecerão numa taxa maior que a taxa média. A massa total de mais-valor não terá aumentado, mas será distribuída de outra forma. Os setores monopolizados da indústria capitalista terão se beneficiado à custa dos setores mais competitivos.

Preobrazhensky acreditava que a análise de Marx do impacto do monopólio na operação da lei do valor tinha relevância imediata para a economia soviética, onde o setor estatal operava como um truste gigante, ou monopólio, face a face com os produtores campesinos que competiam no mercado doméstico. Além disso, a economia soviética em seu todo funcionava como monopólio, em um mercado mundial cada vez mais dominado por trustes gigantes e corporações monopolistas.

A economia estatal do proletariado, ele escreveu, havia surgido historicamente com base no capitalismo monopolista. Isso levou à criação de preços de monopólio no mercado doméstico da indústria nacional, à exploração da pequena produção e à expropriação do mais-lucro. Essa situação formava a base para a política de preços do período da acumulação socialista primitiva. O avanço da concentração da indústria nas mãos de um único truste estatal controlado pelo Estado dos trabalhadores "aumenta consideravelmente a possibilidade de levar adiante com base no monopólio uma política de preços que será apenas outra forma de taxação da economia privada." [28]

Mas Preobrazhensky foi mais além, insistindo que com o desenvolvimento do capitalismo monopolista a lei do valor havia ao menos sido "parcialmente abolida junto com todas as outras leis da produção de mercadorias que estão conectadas com ela." [29]

A livre competição não só estava sendo eliminada dentro dos mercados nacionais mas crescentemente também no mercado mundial, onde trustes gigantes, em particular aqueles surgidos dos Estados Unidos, se tornavam dominantes. A equalização da taxa de lucro — o mecanismo pelo qual a lei do valor opera — foi quase impossibilitada de ocorrer entre os ramos da produção dominados por trustes, que haviam se "transformado em mundos fechados, nos reinos feudais de organizações capitalistas particulares." [30]

Podemos começar a ver aqui as diferenças entre a abordagem de Preobrazhensky e aquela de Trotsky. Em suas "Notas sobre Questões Econômicas," preparadas em maio de 1926, Trotsky apontou para alguns dos perigos contidos na análise de Preobrazhensky.

"A análise de nossa economia do ponto de vista da interação (tanto conflituosa quanto harmoniosa) entre lei do valor e lei da acumulação socialista primitiva é em princípio uma abordagem extremamente frutífera — mais precisamente, a única abordagem correta," ele escreveu. "Tal análise precisa começar no quadro da economia soviética fechada. Mas agora há um perigo crescente de que essa abordagem metodológica seja transformada em uma perspectiva econômica acabada visando ao `desenvolvimento do socialismo em um só país.` Há uma razão para esperar, e temer, que os apoiadores dessa filosofia, que se basearam até agora na má compreensão de uma citação de Lenin, tentarão adaptar a análise de Preobrazhensky convertendo sua abordagem metodológica em uma generalização para um processo aparentemente automático. É essencial, a todo custo, extirpar esse tipo de plágio e falsificação. A interação entre a lei do valor e a lei da acumulação primitiva socialista precisa ser colocada no contexto da economia mundial. Então ficará claro que a lei do valor que opera dentro do quadro limitado da NEP é complementada pela crescente pressão exterior da lei do valor que domina o mercado mundial e está se tornando cada vez mais poderosa." [31]

Trotsky retornou a esse ponto em janeiro de 1927: "Somos parte da economia mundial e nos encontramos circunscritos pelo capitalismo. Isso significa que o duelo de `nossa` lei da acumulação socialista com `nossa` lei do valor é abarcado pela lei global do valor, o que ... altera seriamente a relação de forças entre as duas leis." [32]

Trotsky sustentava que a indústria na União Soviética precisava se desenvolver em acordo com a divisão internacional do trabalho. Isto é, não havia um "abismo" entre a estrutura da economia na União Soviética e aquela que iria se desenvolver quando a classe trabalhadora tomasse o poder na Europa. Preobrazhensky tinha uma concepção diferente. Se a revolução proletária triunfasse na Europa, então não apenas o princípio do planejamento triunfaria como método de organização da economia, "mas as proporções e distribuição do trabalho e meios de produção seriam substancialmente diferentes." [33]

As diferenças também se estendiam ao tipo de indústria que deveria ser desenvolvida. Em muitas ocasiões Trotsky apontou para o fato de que no período pré-guerra quase dois terços do equipamento técnico da Rússia era importado, enquanto apenas um terço era fabricado domesticamente; mesmo esse terço era composto pelas máquinas mais simples. As máquinas importantes e complexas eram trazidas do exterior. Em outras palavras, a política econômica deveria levar em consideração a divisão internacional do trabalho do pré-guerra.

A análise de Preobrazhensky ia para outra direção. A lei do valor, ele sustentava, exercia a menor influência na esfera da produção dos meios de produção quando o Estado é tanto o comprador monopolista quanto o produtor. "Isso significa que a indústria pesada é o elo mais socialista no sistema de nossa economia socialista, o elo onde o maior progresso foi feito no processo de substituição das relações de mercado por um sistema de prioridades firmes, planejadas e preços firmes com o organismo unificado da economia estatal." [34]

De fato, a lei do valor e a divisão internacional do trabalho não podiam ser ignoradas nesse esfera ou em qualquer outra. A produção dos meios de produção, indústria pesada, significava amarrar grandes montantes de capital por um longo período de tempo, consequentemente retirando recursos de outras áreas da economia — indústria leve e a produção de têxteis, por exemplo. O aumento da produção nessas áreas, se tivesse sido levado adiante, poderia ter resultado em um fluxo maior de grãos para o mercado conforme os camponeses encontrassem mais mercadorias que desejassem comprar.

Isso por sua vez permitiria ao Estado que vendesse mais grãos no mercado mundial e com a renda de exportações aumentada comprasse os bens de capital necessários a um custo menor e melhor qualidade do que no caso em que os bens fossem produzidos domesticamente. Em outras palavras, a decisão de ir ou não adiante com a produção de certa peça de equipamento de capital não dependia apenas das relações dentro de certa indústria, mas daquelas que prevaleciam na economia soviética como um todo e mais generalizadamente no mercado mundial.

As mesmas diferenças emergiram em relação à política de concessões — abrir a economia soviética ao investimento privado internacional. Preobrazhensky avisou dos perigos das concessões enquanto Trotsky advogou um relaxamento da política existente. No período revolucionário inicial as autoridades soviéticas foram extremamente cautelosas, cautelosas demais, pode-se dizer, disse Trotsky a uma delegação de trabalhadores alemães em julho de 1925:

"Éramos demasiado pobres e frágeis. Nossa indústria e toda nossa economia estavam demasiado arruinadas e estávamos com medo de que a introdução de capital estrangeiro minasse as ainda fracas fundações da indústria socialista. ... Ainda somos muito atrasados num sentido técnico. Estamos interessados em usar de todos os meios possíveis para acelerar nosso progresso técnico. Concessões são uma forma de fazer isso. Apesar de nossa consolidação econômica, ou mais precisamente, devido a nossa consolidação econômica, agora estamos mais inclinados que há alguns anos atrás a pagar aos capitalistas estrangeir os somas significativas por ... sua participação no desenvolvimento de nossas forças produtivas." [35]

O que é melhor, Trotsky perguntou em certo ponto: a produção independente de uma turbina precária e cara ou a produção dependente de uma turbina superior?

Quando a liderança Stalin fez uma curva em direção ao planejamento e industrialização no final de 1928, principalmente em resposta à crise do suprimento de grãos que suas próprias políticas haviam produzido, Preobrazhensky foi um dos primeiros e se afastar da Oposição. Em abril de 1929 ele declarou: "É preciso fazer a conclusão geral e fundamental de que a política do partido não tendeu à direita após o Décimo-quinto Congresso, como a Oposição afirmou ... mas ao contrário, em certos pontos substanciais ela foi adiante pelo caminho correto." [36]

Fazendo uma retrospectiva das posições contrastantes de Trotsky e Preobrazhensky pode ser dito que para Preobrazhensky o problema fundamental era o planejamento e o desenvolvimento industrial da União Soviética. Para Trotsky, porém, esses problemas eram parte de uma perspectiva mais ampla — a do desenvolvimento da revolução socialista mundial. Nesse sentido, a "guinada para a esquerda" da burocracia não podia ser separada das políticas desastrosas que havia implementado através do Comintern, levando à derrota na China, ou do regime do partido.

Para Trotsky a questão do regime do partido era inseparável da questão da industrialização e desenvolvimento socialista. Não era possível, ele insistiu em junho de 1925, construir o socialismo pelo caminho burocrático e através de ordens administrativas, mas apenas através da iniciativa, vontade e opinião das massas. "É por conta disso que o burocratismo é um inimigo mortal do socialismo. ... A construção do socialismo só é possível com o crescimento de uma genuína democracia revolucionária." [37]

Embora Trotsky se referisse por vezes à "lei" da acumulação socialista, o termo significava algo diferente para Preobrazhensky. A lei do valor na sociedade capitalista opera como uma tendência objetiva do desenvolvimento sob condições onde a organização econômica da sociedade não é levada adiante conscientemente. Mas o mesmo não pode ser dito da "lei" da acumulação socialista — ela não simplesmente se impõe sobre os que estão dirigindo as políticas econômicas do Estado. Certamente existem conexões objetivas e relações sobre as quais as decisões precisam ser baseadas, mas resultados muito diferentes surgirão dependendo das decisões tomadas.

Assim que foram libertadas das constrições do feudalismo, as relações de mercado burguesas se desenvolveram espontaneamente, erodindo e minando outras formações sociais. É um tanto o contrário nas relações socialistas. Elas tiveram de ser desenvolvidas conscientemente sob condições onde é possível, se as políticas incorretas forem seguidas, que ocorra uma reversão.

O regime stalinista fez sua "curva para a esquerda" porque se sentiu ameaçado pela crise na economia — as condições objetivas o forçaram a agir. Mas as medidas que implementou — coletivização forçada e virtual guerra civil no campo — criaram condições onde, se não tivessem outras preocupações, as potências imperialistas poderiam facilmente ter virado o jogo.

As diferenças entre Trotsky e Preobrazhensky não são de modo algum mero interesse histórico. Um exame dessa questão ajuda tanto a iluminar os motivos subjacentes do colapso da União Soviética quanto a esclarecer a perspectiva socialista para o futuro.

Preobrazhensky, como vimos, baseou sua análise no impacto do capitalismo monopolista sobre a lei do valor. A economia estatal estabelecida na União Soviética, ele escreveu, era "historicamente a continuação e aprofundamento das tendências monopolistas do capitalismo, assim como a continuação dessas tendências na direção de uma maior decadência da economia de mercado e a maior liquidação da lei do valor. Se já no período do capitalismo monopolista a economia de mercado estava, na expressão de Lenin, `minada,` então em que medida ela e suas leis — e consequentemente, também sua lei básica do valor —  foram minadas no sistema econômico da URSS?" [38]

Em outras palavras, Preobrazhensky sustentou sua perspectiva em uma certa forma histórica do desenvolvimento capitalista — o ascenso de monopólios e trustes de base nacional.

Trotsky, porém, se baseou em processos mais fundamentais. Acima de tudo, na tendência inerente das forças produtivas de pular por cima ou atropelar o confinamento dos Estados-nação burgueses. Internacionalismo para Trotsky não era um princípio abstrato mas, como Richard Day corretamente enfatiza, a "reflexão subjetiva do curso objetivo da história econômica." [39]

As tendências que Preobrazhensky havia identificado, porém, operaram por um período considerável de tempo a ponto da economia mundial passar a ser dominada por corporações monopolistas de base nacional, com a União Soviética funcionando como um truste econômico gigante que com o programa do socialismo em um só país foi capaz de conquistar um certo grau de estabilidade. Já foi dito, e não sem justificativa, que nada lembra mais as operações da União Soviética do que as operações internas da General Motors quando ela funcionava como um "campeão nacional" dos EUA durante o boom do pós-guerra.

Os processos que levaram ao desenvolvimento do capitalismo monopolista com bases nacionais foram muito poderosos. Mas a lei do valor não havia dito sua última palavra. Como sabemos, a lei do valor determina, em última análise, a taxa média de lucro. O capitalismo monopolista com bases nacionais — o regime dos campeões nacionais — poderia continuar a funcionar desde que a taxa de lucro não caísse. Mas em meados da década de 1970 a taxa de lucro havia caído bruscamente. Isso levou a uma fundamental reorganização do modo capitalista de produção a escala mundial. Os processos de globalização baseados na desagregação da produção através das fronteiras e limites nacionais levaram a uma nova divisão internacional do trabalho. Eles tornaram inviável as economias estatais de base nacional na URSS e outros regimes stalinistas. Preobrazhensky mantinha que a economia estatal da URSS era a continuação das tendências do capitalismo monopolista. Mas essas tendências provaram ser historicamente limitadas.

A nova divisão internacional do trabalho, determinada em última análise pela operação da lei do valor que Preobrazhensky afirmou ter sido superada, resultou numa crise na economia soviética. Temendo que essa crise levasse a um movimento de baixo para cima, a burocracia stalinista completou a jornada que havia começado com o ataque a Trotsky e a Oposição de Esquerda na década de 1920 e organizou a restauração do capitalismo.

Para a análise de Preobrazhensky a questão mais fundamental era o crescimento do monopólio — isto é, a mudança nas relações entre diferentes seções de capitalista conforme eles lutavam para se apropriar do mais-valor extraído da classe trabalhadora. Para Trotsky, a base das bases — mais fundamental que a propriedade ou a forma-mercado — era o movimento global das forças produtivas.

Aqui a análise de Trotsky tem uma significação imediata para o desenvolvimento da perspectiva do socialismo na presente época de produção globalizada. Será que essa nova estrutura da economia mundial significa que para a classe trabalhadora só será possível tomar o poder no mundo todo ao mesmo tempo, ou ao menos em vários países avançados ao mesmo tempo?

Se não, então a seguinte questão surge: dada a natureza desagregada da produção e o fato de que hoje a fabricação de praticamente qualquer mercadora envolve processos que atravessam continentes inteiros, fusos-horários e não mais são realizados no confinamento de um único Estado-nação, como será possível para a classe trabalhadora, havendo chegado ao poder em um país, sustentar a economia pelo período que leva a extensão da revolução socialista? Em outras palavras, se a globalização da produção deu o sinal da morte da regimes baseados no "socialismo em um só país," não tornou também impossível a tomada e manutenção do poder político?

Apenas se deixarmos de levar em consideração da significação objetiva da divisão internacional do trabalho. Como Trotsky enfatizou, isso se desdobra com base nas mudanças de rumo fundamentais das forças produtivas — a base das bases — independentemente de ideologia e formas de propriedade. A burguesia irá sem dúvida dar as boas vindas a uma revolução socialista mundial em qualquer parte do mundo com a mesma ferocidade com a qual encontrou a Revolução Russa.

Mas o caráter globalizado da produção significa que quaisquer tentativas de isolar ou bloquear um Estado dos trabalhadores estabelecido na era presente terá consequências amplas para a economia capitalista mundial. Basta considerar a relação entre China e Estados Unidos.

Além disso, a luta competitiva feroz por mercados e lucros, que tem sido uma força impulsionadora da globalização, fornecerá oportunidades para que um recém-estabelecido Estado dos trabalhadores manobre entre as potências capitalistas em conflito enquanto a revolução socialista se desenvolve internacionalmente.

E acima de tudo, a própria natureza da produção globalizada, que forjou a unidade objetiva da classe trabalhadora internacional em uma escala nunca antes vista, significa que a própria revolução socialista tomará a forma de um movimento político global, que, como as forças produtivas, rapidamente pulará por cima de fusos-horários, fronteiras nacionais e continentes.

Concluído.

[traduzido por movimentonn.org]

Notas

24. E. Preobrazhensky, The New Economics, Clarendon Press, 1965, p. 3.
25. Preobrazhensky, p. 84.
26. Preobrazhensky, The Crisis of Soviet Industrialisation, Donald A. Filtzer ed., p. 62.
27. Preobrazhensky, The New Economics, p. 58.
28. Preobrazhensky, The New Economics, p. 111.
29. Preobrazhensky, The New Economics, p. 140.
30. Preobrazhensky, The New Economics, p. 152.
31. Trotsky, Challenge of the Left Opposition 1926-27, pp. 57-58.
32. Day, p. 147.;
33. Preobrazhensky, The New Economics, p. 65.
34. Preobrazhensky, The New Economics, p. 178.
35. Day, p. 132.
36. Daniels, p. 374.
37. Day, p. 142.
38. Preobrazhensky, The New Economics, p. 141.
39. Day, “Trotsky and Preobrazhensky,” in: Studies in Comparative Communism, 1977.