Recentemente, em entrevista ao programa Canal Livre, da rede Bandeirantes, Delfim Netto, o economista da Ditadura Militar e atual “companheiro” do lulismo, prevê momentos difíceis para a economia europeia e reconhece que não há possibilidade de saída da crise econômica senão pela superação relativa das estreitezas nacionais do continente.
Em determinado momento, respondendo à questão “o que será da Europa se terminar o euro?”, diz: “Será uma desorganização social. Vai ter uma ruptura, vai ter uma recessão profunda. A Alemanha vai ter uma recessão do tipo de 1929. Então, você acha que a Alemanha, com todas as suas virtudes, vai continuar num regime democrático, ou vai aparecer o napoleãozinho lá, dizendo 'deixa comigo que eu resolvo'?” E segue: “Na França vai ser igual, na Itália vai ser igual, ou seja, o que ia ser uma federação vai produzir dezessete napoleãozinhos, cada um dizendo 'o outro é que é culpado!'”
Diante dessa possibilidade catastrófica, é obrigado a reconhecer: “A lógica manda acreditar num acerto federativo. Senão as consequências serão muito mais graves. O que se destruiu na Europa na guerra franco-alemã de 1870, na I Guerra Mundial e na II Guerra Mundial... O que você vai perder de PIB nesta fusão é um infinitésimo diante disso. E com certeza o seguinte: se desmontar o euro em 20 anos está em guerra lá. Porque é pra onde vai naturalmente. Quando você põe o napoleãozinho no lugar, todo o trabalho dele é se preparar para fazer guerra ao outro napoleãozinho”.
Esse prospecto, especialmente vindo de um economista comprometido com a ordem capitalista, é esclarecedor. De quebra, revela a impotência dos lacaios do capital, a necessária contradição entre seus discursos e o rumo da realidade. Como vimos durante todo o ano de 2011, dificilmente um mês se passou sem grandes reuniões ou encontros de políticos europeus buscando “salvar o euro”. A crise da moeda, no entanto, se aprofundou. Foi criado o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, que na última semana teve seu rating rebaixado pela S&P, fazendo o euro perder mais valor ante o dólar); foram comprados títulos de governos pelo Banco Central Europeu; medidas drásticas de austeridade foram implementadas por todo o continente; foi formada a troika supranacional do Banco Central Europeu+FMI+Comissão Europeia para fiscalizar os países; governos foram mudados em Portugal, na Grécia, na Itália, na Espanha... E os “mercados”, como seres com vida própria, continuam em pânico.
Nesta semana novos relatórios do Banco Mundial foram publicados, gerando mais tensão. Apontam que, a partir de agosto de 2011, houve uma significativa piora na economia mundial, com a crise contagiando de forma mais grave os chamados “países emergentes”, para os quais o fluxo de capital diminuiu. “Ao total, o fluxo bruto do capital para os países em desenvolvimento caiu para US$ 170 bilhões no segundo semestre de 2011, apenas 55% dos US$ 309 bilhões do mesmo período de 2010”, aponta. E segue: “A economia mundial entrou num período perigoso” graças ao contágio da “turbulência econômica” europeia.
Todas essas informações nos levam a crer que a “lógica” e a “razão” defendidas por Delfim Netto não estão se impondo. Tudo nos leva a crer que, como desde o começo do século XX, o sistema capitalista avança irracionalmente para a catástrofe econômica e militar. Na verdade, comprova-se que a burguesia é incapaz de superar as contradições que ela mesma cria. As forças produtivas criadas pelo capitalismo chocam-se violentamente contra o sistema de Estado-nação criado pela própria burguesia, do qual ela não pode se desvencilhar.
Superar o Estado-nação, na verdade, é superar o próprio capitalismo, pois essa forma de Estado está na própria origem do capitalismo. Nele a burguesia teve uma de suas principais armas (ou “alavancas”, como diria Marx) contra a sociedade feudal. É conhecida a passagem do capítulo XXIV d'O Capital: “Os diferentes momentos da acumulação primitiva repartem-se, então, mais ou menos de forma cronológica, a saber, pela Espanha, Portugal, Holanda, França e Inglaterra. Na Inglaterra, em fins do século XVII, são reunidos sistematicamente no sistema colonial, no sistema da dívida pública, no moderno sistema tributário e no sistema protecionista”.
Ou seja, o processo de formação do capitalismo pode, em certo sentido, ser repartido temporalmente pela preponderância de uma ou outra nação, e isso somente porque o grande capital, sendo internacional desde o princípio, se valeu dos sistemas de Estado-nação, migrando entre os diferentes países para valorizar-se. E isso não é algo do passado. O capital ainda depende dessa forma de acumulação, migra o mundo usufruindo da dívida pública, do sistema tributário, do protecionismo e da opressão imperialista.
No entanto, a manutenção disso tudo é impensável se avança, por pouco que seja, no caminho da superação das estreitezas nacionais, via unidade econômica e política. As forças produtivas assim criadas se tornam maiores, colocando num novo patamar sua contradição com o invólucro capitalista. É um caminho perigoso para o capital. Portanto, é preciso que tudo se mantenha, apesar dos diversos discursos sobre “globalização”, difundidos inclusive por boa parte da esquerda, e apesar de todo o falatório dos últimos anos envolvendo a criação da União Europeia.
A única saída que o capitalismo pode encontrar, diante disso, é a destruição de forças produtivas. Tudo se dá da melhor forma e no melhor dos mundos possíveis quando vemos que uma das indústrias mais lucrativas no capitalismo é a indústria bélica. Basta pensar na Guerra do Iraque, na do Afeganistão, nos diversos conflitos localizados e permanentes no Oriente Médio e na África. A indústria bélica é também responsável por grande parte do endividamento dos Estados nacionais. Basta pensar que o orçamento do Departamento de Defesa norte-americano, hoje, no governo do presidente Obama (que ganhou o Prêmio Nobel da Paz!), é maior que aquele do governo Bush, ultrapassando os US$ 687 bilhões.
Curiosamente, o capital, muitas vezes, se insere em regiões com questões nacionais ou democráticas não resolvidas, se valendo delas como uma cortina de fumaça para esconder seus verdadeiros interesses. Veja-se, por exemplo, o histórico conflito entre palestinos e israelenses. Diversas vezes, nos últimos anos, os EUA realizaram sanções (ou se valeram para isso de organismos internacionais) contra grandes fábricas de armas russas, alegando que boa parte dessas armas iam parar nas mãos de “organizações terroristas”, como o Hamas. Na realidade, por trás do conflito religioso se esconde um conflito entre grandes setores capitalistas envolvidos com a indústria bélica, que buscam expropriar um ao outro. O mesmo se dá agora, de forma ainda mais preocupante, no caso das sanções ao Irã, à China e à Coréia do Norte.“A única coisa que constrói é o terror”, afirmou também Delfim Netto na entrevista.
Retornando à solução encontrada pelo ex-ministro da Ditadura, podemos pensar que contra a mera federação que propõe para a Europa, mero artifício para a criação de entidades de controle fiscal supranacionais que, sem mexer na propriedade do capital, somente ajudariam a melhor implementar ataques à classe trabalhadora, é preciso levantar a associação internacional dos trabalhadores, a União das Repúblicas Socialistas da Europa!
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