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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS CONTRAMÃO VER CAPA DA EDIÇÃO #76

CARTEIROS

Trabalhadores dos Correios enfrentam o governo Lula

Conselho de Redação

20/09/2009

Os trabalhadores dos Correios da maioria dos estados brasileiros deflagraram greve por tempo indeterminado na última terça-feira (15/09). Segundo o sindicato, essa é a maior adesão inicial de todas as últimas greves. Os trabalhadores reivindicam um aumento real de 300 reais de forma linear para todos, independentemente do salário. A empresa propunha, antes da greve, 4,5% de reposição das perdas salariais.

A greve forçou a empresa a apresentar uma nova proposta. Na quinta-feira (17/09) ela propôs um reajuste salarial de 9% e 100 reais de aumento real, além dos reajustes nos tickets, desde que o acordo passasse a valer por dois anos. A intenção do governo é clara: dilatar o prazo entre as campanhas salariais nos Correios, para diminuir a possibilidade de greves, principalmente em anos eleitorais. Assim como a proposta anterior, essa também foi rejeitada pela maioria dos estados (apenas em 5 estados os trabalhadores aceitaram a proposta e encerraram a greve).

LULA AMEAÇA DESCONTAR OS DIAS PARADOS

Na última sexta-feira (18/09), em evento no Rio Grande do Sul, o presidente Lula ameaçou descontar os dias parados dos trabalhadores grevistas. Disse que “na hora que começar a descontar os dias, as pessoas vão perceber que às vezes o sonho de querer tudo termina não tendo nada”. O tom patronal e autoritário do discurso de Lula arrancou aplausos da burguesia e dos burocratas presentes no evento.

A atitude patronal de Lula não é apenas retórica. Ao mesmo tempo em que Lula ameaçava os trabalhadores do alto da tribuna, a direção da empresa lançava um comunicado interno afirmando que irá descontar os dias parados, ajuizar Dissídio Coletivo no TST (Tribunal Superior do Trabalho) e implantar de imediato a sua proposta baseada num Acordo de dois anos.

LULA DESQUALIFICA A DECISÃO DOS TRABALHADORES

Em seu discurso, Lula continuou atacando os trabalhadores, ao tentar desqualificar a decisão de rejeitar a proposta da empresa e dar continuidade à greve. Ele disse que “a assembléia que definiu a continuidade da greve não tinha mais do que 100 pessoas lá em Brasília”. Ora, que dizer das assembléias realizadas na Praça da Sé, no centro de São Paulo, nas quais chegou a ter mais de 3.000 trabalhadores?

Lula continua seu discurso atacando as direções sindicais: “Eu conheço essa história. Eu conheço lideranças covardes que tem coragem de gritar greve e não tem coragem de dizer que tá na hora da gente voltar a trabalhar”.

Isso também não vale para o maior sindicato de trabalhadores dos Correios do país, o Sindicato de São Paulo. Se dependesse da direção do sindicato, a greve já teria terminado. Desde o primeiro dia de greve, a direção do sindicato de São Paulo procurou dificultar a realização das assembléias. Essa direção, ligada ao PCdoB, base de apoio do governo Lula, propôs transferir as assembléias da Praça da Sé para um local de difícil acesso, distante do centro da cidade, cercado com alambrados, o que garante aos sindicalistas o controle de quem participa da assembléia. Essa manobra foi amplamente rechaçada pelos trabalhadores, impondo a primeira derrota aos burocratas ligados a Lula. Como se vê, no que diz respeito à direção do Sindicato de São Paulo, não se trata da falta de coragem de acabar com a greve, mas da completa impossibilidade de quebrá-la, diante da radicalidade dos trabalhadores.

A insatisfação dos trabalhadores em relação à proposta da empresa fica evidente nas entrevistas feitas pelo Contramão com os carteiros. Um deles dizia: “como vou fixar um reajuste agora se não sei se a inflação vai subir no ano que vem?” Um outro afirmava, no mesmo sentido: “Não posso correr o risco assinando um acordo para dois anos. É muito tempo. Muita coisa pode acontecer!” Todo trabalhador sabe que aceitar uma proposta para dois anos é assumir o risco de contrair enormes perdas salariais caso a inflação suba.

Ao contrário do que afirma Lula, a greve não está sendo mantida artificialmente pela vanguarda. A “dita” vanguarda, que na verdade é em sua maioria filiada à CUT, aguarda ansiosa que a empresa apresente uma proposta minimamente aceitável para defender o fim da greve. O que conduziu os trabalhadores à greve e os faz dar continuidade a ela é a intransigência desse governo de patrões.

OS TRABALHADORES ENSINAM A LULA E A TODOS OS PELEGOS

Lula afirmou, dirigindo-se para Paulo Paim e Olívio Dutra, ex-dirigentes sindicais presentes no evento, que “a nossa geração de sindicalistas deveria ter ensinado alguma coisa para a geração atual”. Talvez, em sentido contrário, as greves dos trabalhadores dos Correios ocorridas em 2007 e 2008, quando a empresa tentou cortar o adicional de risco dos carteiros, deveriam ter ensinado a Lula e aos pelegos de todas as gerações que chegou o fim de um longo ciclo histórico, chegou o fim da época na qual os trabalhadores se submetiam à “dita” vanguarda petista e cutista, chegou o momento em que os trabalhadores iniciam sua libertação das amarras criadas pela burocracia que os dominou durante quase de 30 anos.