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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

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Satyrianas

78 horas de agitação cultural no centro de SP

Conselho de Redação

08/11/2009
78 horas de agitação cultural no centro de SP

Grupos de teatro, dança, música e outras manifestações culturais ocuparam a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, durante a 10ª edição da “Satyrianas – Uma Saudação à Primavera”, que reuniu cerca de 300 apresentações em 78 horas ininterruptas, de 30 de outubro a 2 de novembro. A festa também comemorou os 20 anos da Cia. Os Satyros, se complementando com programações voltadas para cinema, HQs, circo, performances, artes plásticas etc.

Um dos fundadores da Cia. Os Satyros, Rodolfo García Vazquez, conta que o projeto, desde o início, era fazer uma homenagem ao teatro e à cidade gratuitamente. “A gente achava que as pessoas tinham que ter direito a assistir os nossos espetáculos pelo menos uma vez por ano de graça ou que pagassem quanto pudessem e quisessem. O que todos os grupos têm em comum aqui na Satyrianas é o grande prazer de fazer arte, independente do dinheiro. Foi começando muito pequena, com umas 50 pessoas só, mas nas últimas duas o público já era de 30 mil pessoas”.

A proposta da festa, no entanto, vai além de uma simples oferta de arte grátis à população. “Não só o teatro, mas as artes em geral, tudo está comercializado, tudo é uma relação de mercadoria. E a gente não queria fazer mercadoria. A gente queria fazer uma festa pra cidade”.

Desde sua fundação em 1989, por Ivam Cabral e Vazquez, Os Satyros já traziam ousadia e radicalidade com um teatro experimental. “O grande projeto nosso não era chocar, mas sim atiçar sensações nas pessoas. Mas acho que todo ser humano quer sair do estado de torpor, parar de pensar com cabeça de comercial de margarina e começar a pensar com a própria cabeça. Pra você fazer essa transição, precisa da provocação”, afirma Vazquez.

Em 2000, quando se instalaram na Praça Roosevelt, começaram a formar um ponto de agitação cultural na região que, até então, era uma das mais perigosas da cidade. A arte foi contaminando o entorno e atraindo cada vez mais pessoas.

“A gente achava que era um lugar muito central em São Paulo e muito abandonado, de fácil acesso pra todas as regiões da cidade. Independente da criminalidade que existia. Continua com problemas, mas é o único lugar do centro de São Paulo onde as pessoas ficam à vontade pra andar na rua”, diz Vazquez.

Carcarás tomam as ruas na Satyrianas!

Durante a abertura das Satyrianas, na 6f, dia 30/10, pudemos ver grupos de percussão e teatro de rua tomarem a praça Roosevelt. Buscou-se com isso tornar evidente o caráter urbano das Satyrianas, o seu caráter de festa popular para a cidade.

Após a apresentação do grupo de percussão Ilú Obá De Min, foi a vez do grupo Coro de Carcarás. Pela primeira vez o Coro de Carcarás fez parte dessa grande festa, tomando o espaço com a intervenção “Vladimir” e os baques do maracatu, espalhando os contagiantes versos de Maiakóvski “Bebe e celebra! Desata/ nas veias a primavera!/ Coração, bate a combate!/ O peito - bronze de guerra”.

“Nos identificamos com as Satyrianas, porque, ao mesmo tempo que é uma celebração, é uma manifestação política. A festa torna a praça, em pleno centro de São Paulo, um espaço a ser celebrado como era a ágora da pólis grega. O espaço do coletivo, da democracia e da festa, sem barreiras, sem as fronteiras estreitas do shopping-center cultural de nossos dias”, afirma Amanda Antunes, atuadora do Coro de Carcarás.

Bebe e celebra! Desata/ nas veias a primavera!/ Coração, bate a combate!/ O peito - bronze de guerra” versos de Maiakóvski cantados pelo grupo Coro de Carcarás. Rodolfo Vázquez, fundador da Cia Satyros: “tudo está comercializado, tudo é uma relação de mercadoria. A gente não queria fazer mercadoria. A gente queria fazer uma festa pra cidade”

Satyros: 20 anos de criação a partir de Sade

O grupo dos Satyros se notabilizou por seus trabalhos em torno dos escritos do Marquês de Sade e de toda uma tradição maldita que envolve sua obra. Como se sabe, Marquês de Sade e seus escritos, além de darem origem ao termo sadismo, foram uma das grandes influências do surrealismo, juntamente com o Conde de Lautréamont, Freud e Marx.

Ao recuperar a obra de Sade, os Satyros fazem uma grande crítica à moral burguesa, à hipocrisia dos valores e da cultura burguesa. Atualmente em cartaz, a chamada Trilogia Libertina foi constituída a partir dos escritos de Sade e dá uma idéia bastante sintética do trabalho do grupo.

A primeira das peças, “A Filosofia na Alcova” foi montada pela primeira vez no início do grupo, em 1990, quando causou grande polêmica e chamou atenção da crítica. A última das peças, Justine, mostra como a virtude do caminho correto e justo, em uma sociedade degenerada e corrompida, só pode conduzir o indivíduo a uma vida desgraçada, ao passo que um indivíduo sem virtude, amoral, encontra nessa sociedade o sucesso, poder e fama. A outra peça da trilogia, “Os 120 Dias de Sodoma” é um clássico da literatura mundial. Como lembram os Satyros, o texto foi escrito em trinta e sete noites do ano de 1785, quando Sade tinha 45 anos. Nessa época, o autor se encontrava preso em uma cela da Bastilha, uma das prisões na qual viveu e que marcaram quase a metade de sua vida.