Em 1962, na onda da recém-criada Brasília, uma cidade cujo projeto original previa a abolição da propriedade privada do solo, arquitetos paulistas projetavam os edifícios das humanidades para a Universidade de São Paulo no então novo campus Butantã.
Os edifícios eram audaciosos, não tinham portas, abrigavam grandes espaços –diretamente concebidos para manifestações políticas e culturais– e se interligavam através de um caminho único. Assim surgiu o “Corredor das Humanas”. Dos seis projetos originais (História/Geografia, Letras, Geologia, Filosofia/Sociologia, Arquitetura e Matemática) apenas dois foram construídos em função do golpe de 1964.
Mantidos engavetados pela burocracia universitária por quase 50 anos, esses projetos foram recuperados por estudantes da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura da USP) que os reuniram na publicação “Corredor das humanas: a poesia que poderia ter sido e que não foi". Em quase 100 páginas gigantes (formato emprestado da Revista Contravento), a publicação reúne os seis projetos e um dossiê de entrevistas (dois autores dos projetos –Paulo Mendes da Rocha e Pedro Paulo de Melo Saraiva– e um professor da FAU –Alexandre Delijaicov).
O Transição ouviu os estudantes autores da publicação. Veja a seguir trechos da entrevista:
1. Por que resgatar o projeto original não-construído da USP?
Face aos puxadinhos e a forma bárbara como a USP é construída hoje, os edifícios provisórios que se tornaram permanentes, frente às tentativas de retirada dos espaços estudantis, esse projeto de grande ousadia nos veio como contraponto a esta realidade. Podemos identificar esse contraponto como uma oposição entre uma arquitetura e proposta de sociedade libertária contra uma universidade fragmentada e permeada de saletas privadas.
2. Nas conversas com os arquitetos vocês procuram aproximar esse resgate da situação atual da universidade, não?
Sim, a contradição entre os projetos libertários e a realidade de hoje era um aspecto fundamental, ainda mais com o acirramento do processo de repressão na universidade este ano, marcado pela entrada da tropa de choque no campus para reprimir os funcionários e estudantes.
3. Durante a produção editorial da publicação, qual foi a maior descoberta?
A generosidade espacial de todos os edifícios, seus auditórios e espaços de convívio entre os estudantes, alguns prédios como o da Letras contavam até com teatro de arena para 400 pessoas.
Além disso, o modo violento pelo qual se deu o abandono dos projetos, de forma abrupta. Em alguns casos, as fundações para construir os edifícios estavam feitas e foram abandonados com o ascenso dos militares ao poder.
4. Como foi a recepção dos demais estudantes?
A recepção foi ótima. O debate realizado no lançamento da publicação atraiu grande número de estudantes, cerca de 300.
5. Estudantes de outras áreas que não a arquitetura se interessam pelo tema?
Sim, os estudantes da FFLCH e de outras unidades de modo geral estão recebendo com muito entusiasmo a publicação, vendo como seria a faculdade na qual estudam se tivesse sido construída sobre outros princípios políticos, de relações humanas e sociais. E nossa abordagem mais política dos projetos permite que esses estudantes de outras áreas se interessem pelo tema.
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