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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS CULTURA VER CAPA DA EDIÇÃO #96

TEATRO

O Percevejo nas ruas de São Paulo

A. B.

07/03/2010
<em>O Percevejo</em> nas ruas de São Paulo

“O teatro é uma lente de aumento”

Vladimir Maiakóvski

Escrita por Vladimir Maiakóvski no final de 1928, portanto a menos de um ano do suicídio do poeta, a peça O Percevejo é um ataque direto aos rumos que a revolução vinha tomando desde a ascensão de Stalin. Ainda que Maiakóvski não estivesse plenamente alinhado com a Oposição de Esquerda de Trotsky, o poeta percebia a degeneração da revolução e a combatia com suas armas.

Na trama de O Percevejo, um jovem boêmio, Prissípkin, é congelado nos anos iniciais da revolução e, após 50 anos, quando descongelado – acompanhado de um percevejo que pousara em seu casaco –, vê seus hábitos mais prosaicos como tocar, cantar, beber e fumar serem um escândalo que choca uma sociedade completamente vigiada, em que os seres humanos mais se assemelham a frios robôs sem emoções, nem vontades próprias.

Enquanto o inseto percevejo é o parasita que vive do sangue roubado do homem que o abriga, Prissípkin é um parasita que vive às custas da sociedade que o cerca. Tidos como uma ameaça, Prissípkin e o percevejo são presos e mantidos enjaulados no Zoológico para que “os corações e almas da nossa juventude se fortaleçam vendo estes maus exemplos!” Excursões – descritas como os quadros do realismo socialista stalinista – são, então, organizadas para visitar os parasitas enjaulados. Ao ver a massa de expectadores, em vão Prissípkin – como o poeta – pergunta:

“De onde vocês vieram? Vocês são tantos. Quando vocês foram descongelados?”

Passados 82 anos, do outro lado do mundo, aqui no Brasil, o texto permanece espantosamente atual. Se em 1928, Prissípkin era um ataque à burocracia stalinista e ao que viria a se transformar a sociedade soviética, hoje, Prissípkin causa horror nos burocratas das universidades e nos aparatos repressores desta sociedade burguesa decadente. Foi por isso que decidi levar para o grupo Coro de Carcarás a proposta da montagem de uma das cenas da peça, a de número 9, para percorrermos as universidades de São Paulo neste início de ano.

A escolha mostrou-se acertada. Algumas alterações foram necessárias. A montagem de Maiakóvski e Meyerhold era uma montagem em um teatro convencional, com grandes cenários desenhados por Rodtchenko. Em nossa montagem transfiguramos a peça em um agit-prop de rua. A trama foi reduzida a seus elementos essenciais. Sem cenários, a intervenção teatral apóia-se apenas em uma pequena jaula para uma pessoa. Os atuadores entram em cena vestidos de preto e vermelho, aos moldes do teatro-agitação. O conceito geral foi mantido e amplificado para a rua: placas, estandartes, os atuadores em linha, repetições, canções e percussão do coro de tambores.

O diretor do zoológico passa a ser o burocrata da universidade que vem exibir um “bixo enjaulado”, para servir como anti-exemplo para os demais calouros e estudantes. Não estamos na sala de aula, ou num teatro fechado, mas estamos num pátio aberto, num estacionamento da universidade ou então em uma praça do centro de São Paulo, por isso a massa que nos assiste, reage à cena, reage e protesta, xinga, aplaude. Alguns interrogam: “por que ele está na jaula?”.

Amplificado para a rua, Prissípkin sai da jaula três vezes, representado por 3 atuadores distintos. A cada saída, um ato de “transgressão”, fumar, beber e beijar, cantar. Tais atos, de tão triviais, fazem o público se perguntar: “qual o mal nisso? Ele está preso por isso?”, mas logo o próprio público responde, dirigindo-se ao senhor diretor, “fora burocrata!” e “abaixo a jaula!”.

Um dos Prissípkins pergunta: “por que vocês estão presos fora da jaula?”. E a pergunta parece ecoar, uma vez que, ao interagirem com o público, oferecendo-lhes um gole de vinho, uma tragada de cigarro ou então roubando um beijo, os Prissípkins põem a nu o conservadorismo em que essa juventude ainda está presa. A jaula está fora, em cada um daqueles que assiste a essa realidade absurda de escândalos de corrupção, desemprego, exploração e repressão nesta Rússia tropical.

A jaula está fora, em cada um daqueles que ainda assiste a tudo e se cala.

Ao final, o coro de tambores avança sobre a arena e a desmancha, enquanto o público vira coro, o vinho é repartido e um parangolé-estandarte é aberto com os versos do poeta:

Dai-nos, camaradas,

uma nova arte

nova

que arranque a república da escória!

***

Essa ida às ruas demonstrou que o Coro de Carcarás pode desenvolver grandes experimentos que vão criando a base de algo novo e contestador.

Mas o tempo é curto!

As portas estão abertas a todos aqueles que queiram partilhar dessa aventura e dividir os riscos, enfrentar os desafios para ascender das catacumbas líricas às barricadas poéticas!