MOVIMENTO NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 
BUSCA OK
~~!
MNN

“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS CULTURA VER CAPA DA EDIÇÃO #100

Teatro

Para além dos castelos de vidro do capital

Alexandre Benoit

04/04/2010
Para além dos castelos de vidro do capital

Esteve em cartaz em São Paulo, por uma breve temporada, a peça o Kastelo, a mais recente montagem do Teatro da Vertigem, grupo que se notabilizou por peças em locais não-convencionais, que fugiam da “caixa-preta” da sala de teatro. Os locais de suas intervenções iam desde um antigo abatedouro até o rio Pinheiros e sua várzea, sempre alimentados por temas e abordagens polêmicas.

Em o Kastelo, o grupo parte do romance homônimo do escritor Franz Kafka (1883- 1924) para falar das relações de trabalho hoje. Se no livro de Kafka, um agrimensor recém-chegado à cidade não consegue de modo algum atingir o seu objetivo que é entrar no castelo e realizar o seu ofício, na montagem do Teatro da Vertigem, os funcionários de uma grande corporação nos contam a história do lado de fora do “castelo de vidro”, literalmente pendurados por cordas nos vidros do quarto andar do Sesc da avenida Paulista, enquanto o público assiste a tudo do lado de dentro do edifício envidraçado.

A metáfora da reificação das relações de trabalho na sociedade capitalista é clara: o mundo das corporações e multinacionais cria uma realidade estranha a nós, um realidade asfixiante, de vidros impenetráveis e espelhos, em que, como robôs e máquinas, os funcionários equilibram-se para manter os seus empregos. Motoboys, arquivistas, ascensoristas e secretárias vão nos contando – amparados por poderosos microfones, canhões de luz e balancins que sobem e descem – como as suas atividades cotidianas são enfadonhas e sem vida, dominadas pela opressão, o medo do supervisor, a alienação e a ameaça da loucura ou do desemprego.

Mas, hoje, após os profundos abalos sofridos pela economia capitalista, para além da esfera dos castelos de vidro, da acepiscia de seus escritórios e salas de reuniões, não há mais como esquecer a esfera da produção! Anacronismo marxista? Sim, diriam os críticos burgueses, não fossem os fatos da crise econômica provarem o contrário.

Desde que a bolha hipotecária estourou nos EUA, revelando um rombo no sistema capitalista. Não foram somente os bancos atingidos – ainda que estes tenham sido os primeiros. Os bancos e seguradoras – a mais perfeita tradução para os catelos envidraçados do séc XXI – revelaram seu lastro material e economico, antes oculto: milhões de trabalhadores em todo o mundo movimentando as engrenagens do capital.

E podemos assistir a um espetáculo maior que a queda das torres gêmeas: a ruína da indústria automobilística norte-americana e a falência, de uma só vez, de países inteiros, como a Finlândia e a Grécia.

No aprofundamento da crise, a esfera da produção, aquela oculta pela economia política burguesa, aquela que foi decretada como extinta pelos ideólogos burgueses, hoje reaparece com toda a intensidade na cena da luta de classes mundial.

A fragilidade que esta esfera espelhada atravessa hoje – ameaçada de ruir como um castelo de cartas – faz das relações de trabalho apresentadas na peça uma simplificação excessiva que não dá conta da realidade. Arquivistas, ascensoristas e motoboys, não são eles que saem das fábricas e marcham pelas ruas da Grécia enfrentando a polícia, causando temor nas potências européias.

De fato, a inspiração kafkiana também impõe limites, que, talvez, seriam contornandos somente com uma abordagem glauberina, ou então através do teatro-agitação que Erwin Piscator defendia – caminhos que poderiam cruzar a pesquisa do Vertigem.

Por outro lado, se entendermos o teatro não como a mera declamação de um texto, mas sim como ato, os limites conceituais do texto do Vertigem, não invalidam a grandeza daquele ato teatral nestes dias de pouca criatividade artística.

Nesse sentido, ao nos colocar, enquanto espectadores, dentro do castelo, em posição contemplativa, o Vertigem acaba por lançar nosso olhar de dentro para fora e nos faz enxergar com outros olhos, o que vemos todos os dias maquinalmente: aquela avenida luminosa e movimentada expressão de uma cidade carregada de contradições, possível palco de grandes atos futuros.