MOVIMENTO NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 
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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

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tropicália

Oiticica e a idéia de uma “imagética brasileira”

Conselho de Redação

11/04/2010

Neste ano de 2010, faz 30 anos da morte do artista de vanguarda Hélio Oiticica que se notabilizou pela antiarte, rompendo a barreira contemplativa que separava a obra de arte do público. Grande parte de suas produções dependiam diretamente da participação do público, como os chamados penetráveis ou então os famosos parangolés.

Oiticica também foi um dos intelectuais que se envolveu na formulação do movimento tropicalista brasileiro, cujo nome é atribuído a ele. A seguir, reproduzimos um de seus textos sobre a Tropicália, em que ele afirma a importância de Oswald de Andrade e das manifestações estudantis da época para o surgimento do movimento.

Tropicália: o problema da imagem superado pelo problema de uma síntese

Paris, 31 de maio de 1969

O significado do que chamo de síntese da Tropicália chegou a mim em etapas, níveis de significações, que foram evoluindo. A idéia de uma "imagética brasileira" —evocar os elementos da imagem para tal— era importante, mas muito mais importante era superá-los: a informação visual brasileira no cotidiano é muito rica: invenção-comunicação-visual muito desenvolvida, como a americana numa escala maior, claro. Então, para mim, como urgência cultural, era da maior importância pegar todas as raízes brasileiras na imagem, compará-la com a influência americana e subverter o domínio dessa influência absorvendo-a dentro de si —assim, a imagética Carmem Miranda foi repensada, por exemplo: todas as coisas que tinham sido deixadas de lado pela ostentação burguesa brasileira, que suspirava pela elegância européia: abacaxis, flores de plástico,papagaios, araras, os adereços do samba etc. ( e não só isso —essas eram as mais superficiais— mas elas dão nova forma a coisas mais profundas: a pesquisa das razões de tamanha riqueza visual, as relações com os processos de formação cultural, a redescoberta da Antropofagia de Oswald de Andrade, a consciência crítica & política que surgiu com ela —as manifestações estudantis que aumentavam (antes da feroz repressão de dezembro): para mim, o limite dessa síntese é variável: a consciência dela não pode ficar presa dentro de fronteiras estáticas), e não só para mim: a Tropicália não é um movimento artístico, e sim a constatação de uma síntese onde se reúnem propósitos gerais: cinema, teatro, artes plásticas, música popular, porque as fronteiras entre essas divisões formais tendem a se dissolver dentro de algo maior (é com isso que a vanguarda no Brasil, principalmente São Paulo e Rio, sempre se preocupou). Essa etapa da imagem foi a primeira, e podemos prever infinitas etapas; infinitas no sentido de que ela está aberta a todas as propostas individuais e possibilidades imponderáveis. O falso argumento que a acusa de ser um "retorno ao folclore" cai totalmente por terra: o folclore para todos os criadores da Tropicália é reacionário —mas isso não significa que todos os elementos folclóricos sejam reacionários: depende por que, por quem ou para que esse elemento é evocado. Os elementos que eu ponho nas idéias dos Parangolés, que Glauber Rocha põe em seus filmes, que José Celso Corrêa põe no Rei da Vela, que Gilberto Gil põe na sua música etc., que podem ter relações com raízes populares brasileiras, têm essa relação de uma nova maneira, porque é a maneira de dar forma a uma idéia criativa que dá uma nova forma à cena geral. É o exato contrário do conformismo folclórico reacionário estático, e qualquer argumento que possa sugerir essa atitude deve ser considerado unilateral, preconceituoso, tentando intencionalmente desacreditar a eficácia revolucionária dessas obras: portanto, é reacionário por ser uma desinformação.

Escrito em inglês em 1969. Traduzido por Denise Bottmann a partir de fac-símile do Projeto Hélio Oiticica: