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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS CULTURA VER CAPA DA EDIÇÃO #104

Brasília: 50 anos

Entre ruínas, a memória de um futuro (im)possível

Alexandre Benoit

02/05/2010
Entre ruínas, a memória de um futuro (im)possível

No ano de 1959, portanto, às vésperas da inauguração de Brasília, Mário Pedrosa redige a ata de um congresso internacional cujo tema era a nova capital. Pedrosa, citando Bruno Zevi, escreve que Brasília seria “fruto dos mais audaciosos da cultural ocidental” sendo que “seu fracasso seria em parte um fracasso dessa cultura”.

Outros intelectuais seguiriam o caminho de Zevi ao inscrever a construção de Brasília nas páginas da história do Ocidente, deixando para trás as interpretações recorrentes que explicavam Brasília a partir apenas do projeto político de JK. O escritor francês André Malraux diria que “o elemento arquitetural mais importante desde as colunas gregas seriam as colunas do Palácio da Alvorada”. E se Zevi já falava no possível fracasso de Brasília como o fracasso da civilização Ocidental, Malraux depositava naquela cidade a redenção do Ocidente, nomeando- a capital da esperança em seu livro Antimemórias.

Porém, hoje 50 anos depois, a força daquela imagem parece ofuscar-se, a capital da esperança parece desintegrar- se em ruínas povoadas de escândalos de corrupção dignos do Brasil oswaldiano descrito em O Rei da Vela. Assim, neste momento em que a cidade completa 50 anos, é oportuno refazer os questionamentos sobre seu significado. Qual o sentido daquelas formas e espaços?

De imediato, responderiam alguns críticos da chamada esquerda que Brasília e os edifícios monumentais de Oscar Niemeyer são um fiel retrato do Brasil, país que se modernizou “pelo alto”, cujas “idéias fora do lugar”(conforme R. Schwartz) conduziram ao sonho falido do país “fadado ao moderno”. Ou então diriam mais alguns, como Sérgio Ferro, supostamente a desvelar o fundo falso das formas de Niemeyer, que os canteiros de Brasília revelam as marcas essenciais da irracionalidade técnica que interessa ao capital e que dilacera o trabalho dos operários. Há também aqueles que denunciam essa arquitetura como aquela dos altos custos, distante dos problemas sociais, das favelas, do país “subdesenvolvido” que requer soluções mais “realistas”. Seja como for, para a maioria dos críticos Brasília foi um grande equívoco.

Em sentido contrário, Niemeyer sempre argumentou que a arquitetura deveria demonstrar as possibilidades técnicas e construtivas inscritas no desenvolvimento das forças produtivas, criando uma nova poética de formas livres e surpreendentes, à altura de nosso tempo e capaz de erguer uma cidade. Recusou, porém, a técnica como redentora da sociedade capitalista, superando, assim, o entendimento que as vanguardas européias do início do séc. XX tinham da questão. Tratou-se, entretanto, de uma superação dialética que não nega abstratamente, por exemplo, o legado originário do mestre franco-suíço, Le Corbusier, nega, sem dúvida, a obsessão da reforma social através da arquitetura e do urbanismo.

Desde os riscos originais de Lucio Costa, Brasília guarda uma poética das forças produtivas, do que elas são capazes de realizar. Tal poética é a poética de um futuro em que a cidade e os espaços sejam novamente adequados à escala dos homens, em que a arte seja fundida à vida, em que a propriedade do solo urbano seja abolida, em que seja restabelecida uma relação harmônica entre o mundo urbano e a natureza,em que se configure uma verdadeira associação de homens livres.

AS CURVAS DE BRASÍLIA E A AMÉRICA

Assim como Marx acreditava que o continente americano dava as condições para o pleno desenvolvimento das forças produtivas, Brasília demonstrou como a América abrigava as condições objetivas para realizar o audacioso projeto das vanguardas que, no velho continente, nunca saiu da prancheta. Coube a Oscar Niemeyer encabeçar uma geração de artistas e intelectuais que diante de condições materiais e produtivas para tal feito, ousou realizar os sonhos de além-mar. Sobre isso escreveu Niemeyer: “como é fácil para nós, brasileiros, invadir o mundo da imaginação e da fantasia”, pois “nosso passado é modesto e tudo nos permite realizar [e] como deve ser difícil para vocês [do velho continente] realizarem coisa nova, a circularem a vida inteira entre monumentos!”, concluindo que “nossa tarefa é outra: criar hoje o passado de amanhã”.

Esse conteúdo está presente nas formas e espaços de Brasília como anunciador de um futuro socialista ofuscante, uma nova alvorada que surge no meio do sertão brasileiro. E como negar que, no momento da construção daquela cidade, não houvesse condições efetivas para realizar a revolução? Não havia, isso sim, um partido que desse expressão política às contradições latentes. E não há até hoje, como se vê através do fracasso do PT e dos diversos agrupamentos socialistas e ditos “trotskistas” que surgiram após o PCB.

Mas os críticos não viram nada disso. Em suas análises chamaram Brasília de “projeção mental indispensável sem os requisitos materiais para tanto”. E tão logo as contradições da luta de classes no Brasil se aprofundaram, mais se condenou Brasília como se ela pudesse responder pela ausência de uma direção histórica do proletariado brasileiro. Sérgio Ferro, por exemplo, denunciou os canteiros de Brasília. Ora, nada mais fez do que atribuir à construção de Brasília as contradições próprias da produção no interior do sistema capitalista. Contradições que nunca foram negadas por Niemeyer e Lucio Costa. Mais do que isso, a posição de Ferro conduz invariavelmente ou à paralisia (e ao abandono da profissão) ou então, o que é pior, a experiências da habitação popular sob o pretexto de que ali haveria alguma forma de transição para o trabalho livre.

Na verdade, até hoje o que se viu sobre esse infeliz caminho alternativo foi o que o próprio Niemeyer já dizia, repetindo Engels: um caminho paternalista, de cooptação de setores da classe trabalhadora. Esse caminho das habitações populares e suas variantes (como os mutirões) conduziram ao urbanismo petista, ou seja, a um conformismo com as favelas e as ruínas da cidade capitalista sem revolução.

De qualquer forma, as curvas, as formas livres e os espaços de Brasília permanecem e permanecerão, como as imagens do cinema de Glauber, apreendendo as potencialidades revolucionárias jogadas fora pelos falsos partidos de esquerda, pela intelectualidade cética. À espera de uma direção revolucionária à altura da genialidade de Niemeyer e Lucio Costa, enquanto esse momento não chega, sonhemos, como dizia Lênin.

Sonhemos a percorrer os espaços de Brasília que nos alheiam “ainda que por instantes, dos problemas difíceis, às vezes invencíveis, com que a vida a todos aflige”.