Os acontecimentos desta semana na Grécia lembram aqueles de uma situação pré-revolucionária. Na quarta-feira (05/05), cerca de 100.000 pessoas tomaram as ruas de Atenas entrando em choques com a polícia, diversos bancos e prédios públicos foram incendiados. A multidão armada com paus, barras de ferro e coquetéis molotov enfrentou bravamente a repressão. Ocorreu a tentativa de invasão do Parlamento, só contida com bombas de gás lacrimogêneo e a ação violenta das forças policiais. Dezenas de feridos e 3 mortos foram o saldo dos combates.
Os manifestantes protestavam contra o governo grego que se submetia às exigências do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da União Européia. Em troca de um empréstimo de 110 bilhões de euros, obrigaram o país a se ajoelhar. Foram exigidas medidas de austeridade que nada mais são do que ataques aos trabalhadores e aposentados. Rebaixamento dos salários, corte do décimo terceiro, aumento da idade de aposentadoria, aumento de impostos, redução dos gastos públicos, estão entre as medidas a serem tomadas pelo governo grego para receber a ajuda da União Européia e FMI.
Apesar da resistência heróica da população, o Parlamento grego aprovou as medidas. Entre 296 deputados, 172 votaram a favor, 121 contra e 3 se abstiveram. Na verdade, mesmo os setores que votaram contra, entre eles o Partido Comunista, não se apresentam como uma direção revolucionária capaz de conduzir a luta do proletariado grego. Ao contrário, como já ocorrera no final de 1944, quando os trabalhadores do país tinham praticamente o poder ao alcance da mão, mais uma vez os gregos sentem a falta de uma direção revolucionária que os conduza a um processo transitório para o socialismo.
No entanto, a crise grega, européia e mundial não terminará tão cedo como anunciam os governos capitalistas. Calcula-se que a dívida dos países europeus deverá continuar subindo. Conforme a própria Comissão Européia, já em 2011, o endividamento geral deve chegar a 88,5% do PIB (Produto Interno Bruto) da Europa. Depois da Grécia, devem entrar em situação similar a Espanha, Portugal, Irlanda e Islândia. Certamente, como na Grécia, a dívida pública se manifestará também nesses países com certos níveis graves de crise política e social.
No caso da Espanha, por exemplo, fala-se falsamente de uma recuperação da economia. Ora, para isso se apresenta o resultado do primeiro trimestre de 2010, que apontou um crescimento de 0,1%. Os falsos otimistas não contam que tal resultado é consequência de uma série de medidas artificiais. Tratam-se de incentivos governamentais que não poderão ser mantidos. Avalia-se que em 2010, em taxa anualizada, a economia espanhola deve ainda recuar pelo menos 0,6%. Junte-se a isso que o desemprego oficial no país está no índice de 20%. Portanto, deve continuar aumentando durante o ano de 2010.
Mas, o problema do endividamento público atinge potencialmente todas as economias capitalistas avançadas. Mesmo aquelas da Inglaterra e dos EUA. Calcula-se que nos próximos anos mesmo essas economias chegarão a uma dívida pública que em média girará em torno de 100% do PIB. Porém, não devemos jamais esquecer as observações de Marx em O capital: a dívida pública, ou seja, a alienação do Estado, imprime seu selo na era capitalista e é a única parte da chamada riqueza nacional da qual participa de forma coletiva a população de um país. Na verdade, é um dos processos fundamentais de apropriação de mais-valia da classe trabalhadora.
Quando é posto o agravamento do problema da dívida pública, como no caso agora da Grécia e de boa parte da economia capitalista mundial, procura-se uma solução. Vem então as soluções de sempre: o corte dos gastos públicos na previdência, o corte das aposentadorias, o rebaixamento dos salários, o aumento dos impostos. Outra saída já utilizada é a inflação. Mas, a inflação nada mais é do que uma transferência de capital, ou transferência de uma certa quantidade de mais-valia. Em geral, essa transferência se dá pelo aumento principalmente dos gêneros de primeira necessidade, atingindo assim grande parte dos assalariados. Evidentemente, outra solução é simplesmente o não pagamento da dívida pública, ou seja, o calote.
De fato, esta última solução é aquela que caberia no caso do Estado grego, caso ele representasse os trabalhadores do país e não o grande capital europeu que utiliza do Estado grego para apropriação de mais-valia. A própria União Européia, apesar de criar uma moeda única e um mercado comum, não elimina os Estados Nacionais. Por que? Porque justamente é do interesse privado do grande capital a não superação total das fronteiras.
Entre os 16 países que formam a União Européia, alguns poucos se beneficiaram com essa união e outros foram prejudicados, terminando como a Grécia. Na verdade, manifesta-se um processo imperialista no interior da própria comunidade européia. Comentam os economistas que os Estados Nacionais mais fortes foram os grandes beneficiados na criação da União Européia. Esse é o caso, particularmente, da Alemanha que com uma maior competitividade das suas exportações foi minando, pouco a pouco, a economia dos seus parceiros, tais como os gregos.
A chamada economia globalizada também repete em escala ampliada, aproximadamente, o mesmo esquema da União Européia. O grande capital não tem pátria, mas utiliza dos diversos Estados Nacionais no seu processo de apropriação de mais-valia. Neste caso do empréstimo à Grécia, como se viu, o Brasil contribuiu com 286 milhões de dólares. Mas, além disso, a crise européia deve provocar o estreitamento do mercado para as exportações brasileiras, aumentar o desemprego e já está provocando uma relativa fuga de capitais. Junto a esse processo, ressurge a inflação sobretudo nos gêneros alimentícios e produtos de primeira necessidade em geral. Como se vê, indiretamente, até os trabalhadores brasileiros estão pagando a dívida pública da Grécia e dos países europeus.
Somente um programa internacional comum em defesa do emprego, dos salários e contra a inflação, pode proteger os trabalhadores da crise capitalista mundial que se aprofunda. As dívidas dos bancos, as dívidas públicas, as dívidas dos Estados Nacionais, não devem ser mais pagas pelos trabalhadores.
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