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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS EDITORIAL VER CAPA DA EDIÇÃO #109

UM PROGRAMA ÚNICO

Contra a crise do capital: do Brasil à Hungria, construir a unidade internacional dos trabalhadores de todo o mundo!

Grund e A.N.K.

06/06/2010
Contra a crise do capital: do Brasil à Hungria, construir a unidade internacional dos trabalhadores de todo o mundo!

Conforme noticiou a imprensa esta semana, verdadeiros “serviços secretos”, para fazer acusações contra a oposição, teriam sido contratados pela equipe de Dilma Rousseff. Um dos eixos principais desses serviços duvidosos teria como tarefa fazer a elaboração de um levantamento a respeito do candidato José Serra. Tal fato, tornado público, abriu caminho para o desenvolvimento de uma nova crise interna no interior do comitê de campanha da candidata petista à Presidência da República.

Segundo matéria do jornal O Estado de São Paulo (05/06), Luiz Lanzetta, da empresa responsável por fazer a assessoria da campanha de Dilma, vinha desconfiando de que seu trabalho estaria sendo sabotado por gente do próprio PT. Foi então que, em nome do coordenador da campanha, o amigo pessoal de Dilma e ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, teria contratado os ex-agentes (vulgos “arapongas”)  Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, sargento da reserva recém-saído da Cisa (serviço secreto da Aeronáutica), e o delegado aposentado da Polícia Federal, Onésimo de Souza, indicado por Dadá. Na reunião realizada no restaurante Fritz, na Asa Sul de Brasília, os arapongas pediram 200 mil reais por mês pelo serviço, que, segundo eles, exigiria uma equipe de 12 pessoas. Segundo O Estado, Pimentel aceitou pagar 60 mil reais pelas espionagens, tanto a interna (no próprio PT), quanto aquela voltada para atingir o PSDB.

Quando estourou a denúncia do dossiê sobre Serra, Pimentel acusou, nos bastidores, o grupo petista do ex-ministro Antonio Palocci e do deputado paulista Rui Falcão, que atualmente coordena o comitê de comunicação de Dilma, de ser o responsável pelo vazamento das informações à imprensa, com o objetivo de enfraquecer e derrubar Pimentel da cúpula da campanha. Esse fato, por si só, revela a luta de poder impiedosa que existe no interior das próprias fileiras do PT. Um petista acusa ao outro e um petista denuncia o outro. Ora, esses fatos já comprovam uma coisa: o grau de luta pelo poder, luta quase mortal, que existe no interior do próprio PT. Esses fatos comprovam ainda o elevadíssimo grau de degeneração da burocracia petista. Suas contradições internas manifestam, ao mesmo tempo, o alto nível da crise da dominação burguesa no Brasil enquanto marcando, como sempre repetimos, o fim de um longo ciclo histórico.

Esta grave crise interna aberta no comitê de campanha de Dilma não é, no entanto, a única crise que assombra o PT. Ao contrário, ela seria muito mais a superfície de uma luta econômica que ocorre no interior do Estado brasileiro. Dentro do governo Lula se manifestou, nesta semana, um indício de profundas contradições de diversos ministérios em relação às diretivas orçamentárias estabelecidas pelo Ministério do Planejamento. Conforme comentamos em edições anteriores, o Ministro da Economia, Guido Mantega, anunciou que já havia cortado, somente neste ano, R$ 31,8 bilhões do orçamento governamental (vide editorial do dia 16/05). Indicávamos naquele editorial que o motivo que levava o governo a tomar medidas impopulares, como a de cortar o orçamento nas áreas sociais (saúde, educação, previdência, desenvolvimento social, trabalho etc.), num ano eleitoral, seria a extrema preocupação com os efeitos da crise econômica mundial no Brasil e, particularmente, aquela que hoje assusta toda a Europa.

Foi certamente essa preocupação que levou o Ministério do Planejamento a cortar, no dia 30 de abril, mais R$ 7,5 bilhões (totalizando R$ 39,3 bilhões). A diferença é que, enquanto nos cortes orçamentários anteriores, os ministros das pastas afetadas se resignavam a lamentar e indicar os programas que seriam atingidos, desta vez, ao contrário, vários afirmaram que não irão enxugar mais seus orçamentos. Num vale-tudo eleitoral, os ministros do governo Lula se rebelaram contra o próprio Ministro do Planejamento de Lula, Paulo Bernardo!

É o caso do Ministro da Educação, Fernando Haddad, o mais atingido por este último corte. Menos de uma semana depois de anunciada a medida, Haddad afirmou categoricamente que “não haverá cortes”. Nesse mesmo sentido, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tentou isentar seu ministério dos cortes, alegando que “os gastos da pasta são protegidos pela Constituição”. Todos esperam que um suposto aumento da arrecadação no segundo semestre possa desbloquear recursos que viriam compensar os cortes.

Como se vê, os Ministros de Lula, de olho nas suas carreiras políticas, no jogo deslavado de caça de votos e de favores eleitoreiros, não desperdiçam a oportunidade de utilizar o dinheiro público para os fins privados de candidatos e candidaturas que vivem esse “final de festa” petista. Preparam-se, assim, para fechar as portas de seus gabinetes ministeriais e aproveitar, até o último momento, a fanfarra governamental, ocupar os últimos vagões do trem da alegria, comendo as últimas porções de caviar e bebendo as derradeiras gotas de champagne.

Mas as últimas fanfarronices e arapongagens do PT e do governo Lula apenas preparam o abismo que está à nossa frente. Conforme se denunciou, na Europa, após a catástrofe grega e um pouco menor da Espanha, agora chegou a vez da Hungria. O novo governo da Hungria, empossado há uma semana, declarou que o governo anterior daquele país teria falsificado os dados sobre a economia da nação e conduzido, assim, a economia daquele país a uma situação terrível de insolvência. Na sexta-feira (05/06), Peter Szijjarto, porta-voz do novo Primeiro Ministro Viktor Orban, admitiu que “a economia está numa situação muito grave”. Szijjarto comparou a situação húngara à grega: “na Grécia, eles também falsificaram dados”. E concluiu o porta-voz, preocupado: “Na Grécia o momento da verdade já chegou. A Hungria ainda não chegou lá, mas não é exagero falar que o país está próximo da falência”.

Depois da Grécia, das medidas de austeridade na Espanha e em Portugal, a Hungria é, agora, a bola da vez. Pelas primeiras notícias que chegaram, a gravidade da economia húngara a colocaria em situação igual ou pior que aquela da Grécia. Não é possível prever, com exatidão, qual será o próximo país a falir. A verdade é que a Europa cai em frangalhos, pouco a pouco, como um todo. Enquanto isso os sinais de recuperação em alguns países são ínfimos ou apenas propaganda da imprensa burguesa para criar um falso otimismo.

Porém, mais importante do que isso é perceber que os trabalhadores de todos os países já estão enfrentando as conseqüências dessa crise mundial, por meio do rebaixamento dos salários e do aumento do desemprego. O mais importante é aproveitar a identidade cada vez maior das condições de vida da classe trabalhadora em todo o mundo. Diziam, até há pouco tempo, teóricos como István Mészáros, filósofo húngaro (Cf. Para além do capital), que era impossível a construção de uma internacional, pois, havia muitas diferenças entre a classe operária dos diversos países. Isto, hoje, mais do que nunca, é uma falsa concepção desmentida pela história e pela prática.

É possível hoje, mais do que nunca, agitar e propagandear um programa defensivo único para todos os trabalhadores do mundo. Não aceitar, de forma alguma, qualquer demissão! Não aceitar nenhuma redução dos salários! Não aceitar a retirada de qualquer direito adquirido! Que os capitalistas falidos paguem a sua própria crise! Construir a unidade e organização INTERNACIONAL dos trabalhadores de todo o mundo!

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