MOVIMENTO NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 
BUSCA OK
~~!
MNN

“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS EDITORIAL VER CAPA DA EDIÇÃO #112

NORDESTE

O sertão e o mar (de lama) da política nacional

Conselho Editorial

28/06/2010
O sertão e o mar (de lama) da política nacional

Cidades condenadas a desaparecer, povoados destruídos em questão de horas, bairros divididos por leitos d’água surgidos da noite para o dia, ferrovias, casas, fábricas, pontes e ruas completamente arrasadas, pessoas salvando-se agarradas em árvores, milhares de desabrigados e uma centena de desparecidos. Aí está o resultado das chuvas que atingiram o Nordeste do Brasil – sobretudo os estados de Alagoas e Pernambuco – nos últimos 10 dias.

Conforme noticiou a Folha on line, na semana passada, o estado de Alagoas chegou a divulgar um levantamento parcial em que apontava que os prejuízos causados pelas chuvas já totalizavam cerca de R$ 740 milhões. Desse valor, R$ 575 milhões correspondem aos prejuízos relacionados a danos em casas, que já totalizam mais de 19 mil destruídas.

Ainda segundo a mesma fonte, os danos em estradas e pontes provocaram um prejuízo de R$ 137 milhões, seguido pelos problemas causados ao sistema de água (R$ 12 milhões) e a pavimentação urbana (R$ 8 milhões).

“Sem explicação”

Trata-se de incidente "que não tem explicação", com estas palavras pronunciou-se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo após a quarta-feira, dia 23 de junho, quando os primeiros relatos do impacto das chuvas eram anunciados pela grande imprensa. Como em abril deste ano, quando foram necessários apenas três dias de chuvas para que os municípios do Rio de Janeiro e Niterói quase entrassem em colapso, o presidente Lula também veio a público e rogou a Deus “que fizesse a chuva cessar”.

Mas será mesmo que se trata de um incidente "que não tem explicação"? Será mesmo que, em um país altamente urbanizado, uma potência latino-americana, cidades podem simplesmente desaparecer da noite para o dia diante de chuvas torrenciais? Será que resta apenas rogarmos aos céus por um pouco de paz?

O descaso dos políticos e a barbárie do capital

Após dois dias do início das chuvas, uma série de reportagens já desmentia o presidente Lula. Não-investimentos em obras de prevenção, desvios de verba, ocupações irregulares de terra, loteamentos clandestinos, uso eleitoreiro dos recursos, tais eram algumas das causas “vindas dos céus” para elucidar o enorme impacto das chuvas.

De acordo com reportagem do portal de notícias UOL, entre 2003 e junho deste ano, foram liberados R$ 5,8 bilhões para ações pós-tragédias, enquanto que apenas R$ 1,1 bilhão para prevenir enchentes como as que arrasaram os estados de Alagoas e de Pernambuco. Mais do que isso, relatórios divulgados demonstravam que, apenas neste ano, mais da metade dos recursos do governo federal de prevenção contra chuvas e enchentes foi para a Bahia, estado do ex-ministro da Integração Geddel Vieira Lima, que deixou a pasta para disputar o governo do estado.

Como afirmava outro relatório que veio a público nesta semana, "a falta de investimento na prevenção tem relação direta com o aumento de gastos na resposta aos desastres, que cada vez mais afetam comunidades localizadas em áreas de risco e cada vez mais causam prejuízos aos municípios que sofrem com a seca intensa".

Lula volta atrás

Diante da realidade dos fatos, até o presidente Lula foi obrigado a achar responsáveis de carne e osso para os efeitos das chuvas. "Foi irresponsabilidade, no passado, deixar as pessoas morarem na beira do rio" disse o presidente, após visita às áreas atingidas.

Lula ainda cobrou, segundo reportagem de O Estado de S. Paulo, que os prefeitos da região tomem medidas para evitar a especulação fundiária, já que haverá necessidade de comprar áreas para construir novas moradias para os desabrigados. "É preciso arrumar terreno longe do rio e perto da cidade e não permitir que haja especulação fundiária com terreno".

Deus e o Diabo nordestinos

Como se vê, em questão de poucos dias, o presidente Lula não só voltou atrás, achou responsáveis, cobrou dos prefeitos soluções imediatas, como também soube explicar as causas “terrenas” da destruição proporcionada pelas chuvas e enchentes atacando até a especulação fundiária.

E o presidente Lula tem razão quando condena a especulação fundiária, ele está coberto de razão quando diz que as várzeas não podem ser ocupadas. O que Lula não diz, no entanto, é que essas “irresponsabilidades” são características da política das oligarquias nordestinas, do chamado coronelismo de políticos como Renan Calheiros, José Sarney, Fernando Collor e Jader Barbalho, entre outros que estão há 30, 40 anos no poder.

Uma política por meio da qual açudes são desviados para fazendas particulares; por meio da qual  obras, às vezes elementares, de contenção das margens dos rios são substituídas por obras faraônicas, museus e fundações culturais fantasmas; ou então por meio da qual investimentos para o desenho de um desenvolvimento urbano menos predatório dão lugar a esquemas de desvio, corrupção e obras que nunca saem do papel.

O presidente Lula não se refere nominalmente aos políticos “responsáveis” pois tem, hoje, entre seus principais aliados esta oligarquia corrupta de Collors e Sarneys. E quanto mais Lula apóia-se nestes senhores, mais a eles se assemelha. Após a tragédia, visitou as áreas atingidas, cobrou ações, chorou, lamentou e, finalmente, como um grande pai-dos-pobres, liberou recursos federais para as obras de reconstrução.

Com sua cena, o presidente Lula não só agrada às populações desabrigadas, aos políticos que criticou, quando usarão de sua imagem nas próximas eleições, como também ao grande capital que se beneficia diretamente da irracionalidade do sistema. Destruição, ruínas e catástrofes naturais também podem ser, como demonstrou Marx, para o regime capitalista em agonia, um grande negócio.