Não tenho amantes. Foi esse o grande comentário que disse Indio da Costa em sua primeira conversa ao telefone com o presidenciável José Serra, no dia seguinte à sua indicação como vice na chapa do candidato tucano. Sua breve e inexpressiva carreira política (três mandatos como vereador, atualmente deputado) se deve a Cesar Maia, líder carioca do DEM, e por isso mesmo sua indicação surpreendeu a todos, inclusive ao próprio Indio. Mas o que estaria por trás de sua indicação? Qual seria o “projeto” do PSDB e do DEM ao comporem sua chapa com Serra e Indio?
O maior argumento a favor do nome de Indio da Costa é que ele foi o relator do projeto Ficha Limpa, que supostamente tornaria inelegíveis políticos envolvidos em escândalos de corrupção. Seria, assim, uma resposta à imagem do DEM corrupto, sinalizando uma pseudo renovação, tão desejada após a enxurrada de escândalos recentes envolvendo José Arruda, ex-governador do Distrito Federal pelo DEM.
No entanto, um punhado de denúncias e suspeitas se acumulam na breve ficha política do vice ficha “limpa”. Indio é primo do dono do Banco Cruzeiro do Sul e teria negociado – sem êxito –, segundo apurou a Folha de SP, para que o Banco Cruzeiro do Sul fosse recredenciado no Senado, pois o banco perdeu seu credenciamento após aparecer envolvido nas denúncias que eclodiram no ano passado contra o ex-diretor do Senado, João Carlos Zoghbi (Recursos Humanos).
Mais grave é a denúncia de desvio de milhões de reais da Prefeitura do Rio, na época em que Indio ainda era Secretário de Administração Municipal do Rio. Alvo da CPI da Merenda na Câmara Municipal, foi acusado de favorecer uma empresa na compra de lanche para estudantes, em um esquema milionário.
A escolha de Indio da Costa como vice na chapa de Serra foi o desfecho de uma longa disputa entre DEM e PSDB. Dois dias antes da indicação de Indio, o PSDB anunciara o senador tucano pelo Paraná, Álvaro Dias, como vice de Serra. Mas a escolha de Dias não vingou, pois estava condicionada a alianças locais que não deram certo. Como noticiou a imprensa, diante da desistência de Dias, a equipe de José Serra “não tinha plano B ou C”. A única certeza era que José Serra queria distância de um vice indicado pelo DEM, temeroso de que o escândalo dos panetones, envolvendo José Arruda, ex-governador do DF pelo DEM, fossem usados pelo PT contra sua campanha.
Mas a direção nacional do DEM bateu o pé, deflagrando uma severa crise no interior da chapa de Serra. Reuniões madrugada afora, com a presença de nomes como o ex-presidente FHC e Aécio Neves, foram realizadas até que se chegasse ao nome de Indio da Costa, contornando o mal-estar e afastando a ameaça de ruptura da aliança de longa data entre PSDB e DEM.
Na verdade, a definição de Indio da Costa é mais uma cena da longa crise que vive o projeto político do PSDB e do DEM, e que certamente está longe de um ponto final. Esses dois partidos governaram juntos o Brasil por 8 anos, durante a presidência de FHC. Como escrevemos em diversas oportunidades, o projeto político de FHC era aquele de realizar uma grande revolução burguesa no Brasil – nas palavras de Francisco Weffort, que deixou a secretaria-geral do PT para assumir o ministério da Cultura de FHC.
Mas o projeto de FHC ruiu como um castelo de cartas, frente às suas alianças com a velha oligarquia nordestina (ACM, Jader Barbalho, José Sarney), frente à crise dos mercados asiáticos. Confirmava-se assim a teoria da Revolução Permanente: o capitalismo, em sua fase de agonia, não pode mais cumprir qualquer tarefa progressista.
O fracasso de FHC não só representou um enorme golpe na construção da “nação burguesa” brasileira, como também demarcou um aprofundamento das contradições na luta de classes, levando a burguesia a adotar o seu último recurso para manter sua dominação de classe: conduzir a casta petista ao poder.
Hoje, com o esfacelamento do projeto da “revolução burguesa”, o PSDB não tem mais projeto, não tem o que defender. É este o fundo da crise que se traduz em sucessivos zigue-zagues, como a escolha do vice Indio da Costa. Indio, do alto de sua “grandeza” política, quis se apresentar como um jovem que “não tem amantes”, já que era mais prudente silenciar sobre sua trajetória política.
Mas seria diferente a chapa de Dilma Rousseff, candidata de Lula? Michel Temer do PMDB, presidente da Camara dos Deputados foi escolhido como vice em sua chapa. Deve sua indicação diretamente aos caciques José Sarney e Renan Calheiros. Como os seus padrinhos políticos, a grande arte de Temer é equilibrar-se em meio a escândalos que envolvem o seu nome.
Como relata o Estado de SP, o então presidente da Câmara dos Deputados e hoje vice de Dilma, Michel Temer, tinha envolvimento com as denúncias de recebimento de propina no Distrito Federal. Em vídeos divulgados pelo Congresso em Foco, o ex-secretário de Relações Institucionais do DF, Durval Barbosa, aparece conversando com o empresário Alcir Collaço. No diálogo, Collaço afirma que Temer receberia R$ 100 mil por mês do governador do DF, José Arruda do DEM, em troca de apoio político.
Na mesma época, fim de 2009, Temer também foi acusado de receber recursos ilegais da construtora Camargo Corrêa. O nome de Temer aparece, segundo a mesma reportagem, no arquivo secreto da Construtora Camargo Corrêa – um documento com 54 planilhas que sugerem contabilidade paralela da empreiteira. Temer é citado 21 vezes, entre 9 de outubro de 1996 e 28 de dezembro de 1998, ao lado de quantias que somam US$ 345 mil.
Nem Serra, nem Dilma escapam às denúncias e investigações que pesam sobre os ombros de seus respectivos vices. Entram em disputa nesta eleição, também, à sombra de Lula, querendo e sonhando cada qual a seu modo fazer como ele, isto é, governar acima dos escândalos de corrupção, sem projeto, apenas garantindo exploração e repressão nas ruas, fábricas, escolas e universidades deste país.
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