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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

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Brasil, 2014

Futebol e corrupção

Conselho Editorial

11/07/2010
Futebol e corrupção

A seleção brasileira não passou das quartas-de-final, mas a CBF tem o que comemorar, afinal a entidade arrebatou em patrocínios cerca de R$ 200 milhões neste ano de 2010. Muito pouco, se comparado com o faturamento esperado para estes próximos 4 anos até a Copa de 2014, a ser realizada no Brasil, sob organização da CBF, em parceria com a FIFA.

O Brasil tem uma longa tradição nos bastidores dessas duas entidades, FIFA e CBF, tradição esta repleta de casos de corrupção e desvios de recursos. Para o jornalista britânico, Andrew Jennings, colaborador da BBC, a FIFA acumula nestes últimos vinte anos, algo em torno de US$ 100 milhões em pagamentos de propinas e negociatas. Ainda segundo Jennings, o brasileiro João Havelange, presidente da entidade de 1974 a 1998, é personagem principal nos esquemas de corrupção.

Não por acaso, seu genro, Ricardo Teixeira, ocupa a presidência da CBF desde 1989. Ao longo desse período, Ricardo Teixeira enfrentou diversos escândalos de corrupção que resultaram em investigações e CPIs, como a da CBF-NIKE, em 1998, em que Teixeira foi acusado de realizar “contratos lesivos para o futebol brasileiro, em especial com a fabricante de artigos esportivos Nike” conforme matéria da revista Istoé.

Na primeira década do século XXI, por ocasião da CPI  Corinthians/MSI, Teixeira mostrou que sua influência chegava até os corredores do Congresso Nacional.  Valendo-se do argumento de que a CPI poderia influenciar negativamente na escolha da sede da Copa de 2014, a CBF conseguiu, de última hora, impedir a abertura da CPI  Corinthians/MSI. Conforme relata o Estado de São Paulo,  71 parlamentares retiraram suas assinaturas para abertura da CPI, apenas 3 se justificaram.

O caso não só mostrava os laços estreitos entre os esquemas ilícitos da CBF e a cena política nacional, como impressionava pela extensão do poder de Teixeira. Os 71 parlamentares eram dos mais variados partidos, do PT ao PSDB, passando pelo PPS, PC do B e PV. Sobre o episódio, o jornalista Juca Kfouri escreveu: “momento trágico: nada mais repulsivo que a campanha do presidente da CBF contra a CPMI Corinthians/MSI, e nada mais revelador de quem são alguns parlamentares de todos, rigorosamente todos, os grandes partidos”.

Com o fim da Copa da África do Sul, todos os holofotes se voltam para a Copa de 2014 no Brasil. O presidente Lula, que esperava lucrar politicamente neste momento, fez coincidir sua viagem pelo continente africano com o jogo final da Copa. Diante da fraca campanha da seleção de Dunga, que acabou por frustrar seus planos, Lula deu declarações contrárias a Teixeira e à sua longa carreira à frente da CBF. Lula disse que se a CBF adotasse o que eu adotei quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, a cada oito anos a gente trocava a direção da CBF.

Claro que as críticas de Lula a Teixeira são motivadas por interesses econômicos e políticos diversos entre eles. Desde a escolha das cidades sedes para a Copa de 2014, passando agora pela seleção dos estádios – o que envolve a construção de novos e caríssimos estádios – até as grandes obras de infra-estrutura – como o trem Rio-São Paulo, aeroportos e rodovias –, tem-se em jogo um grande negócio que pode definir alianças políticas e gerar lucros astronômicos nos próximos 4 anos.

Assim a imagem dessa próxima Copa do Mundo já começa a ser traçada como tão ou mais corrupta que esta da África do Sul. Ironicamente, o logotipo oficial para a Copa de 2014, apresentado por Lula durante sua viagem ao continente Africano, – escolhido por um júri composto entre outros, por Paulo Coelho e Ivete Sangalo –  é a imagem de três mãos agarrando a taça. Será uma referência à roubalheira que se espera?

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