Para evitar a quebra da economia da Grécia, o governo daquele país promoveu cortes nos gastos públicos e uma considerável redução na atividade econômica local. O resultado esperado é o de uma contração de 10% a 20% do PIB para "enxugar" a dívida pública grega em um período de até 4 anos.
Os cortes, sobretudo nos chamados gastos públicos, miram os direitos dos trabalhadores gregos, por meio de medidas como o aumento da idade para aposentadoria, aumentos dos impostos e congelamento parcial dos salários em certas categorias.
A "tragédia" grega agora ameaça, segundo os próprios economistas burgueses, outros países europeus, como Espanha, Irlanda e Itália. Já há indícios suficientes, como comentamos em diversos editoriais, para se crer que essa situação se generalizará a nível mundial, reforçando a compreensão de que a crise grega seja um aprofundamento da crise que se manifestou primeiro nos EUA, ainda em 2008, por meio da quebradeira do mercado imobiliário.
Não seria demais recordar que, à época da crise imobiliária norte-americana, no momento em que ela evoluía para o setor bancário, Wall Sreet e, depois, para o setor produtivo --vide a quase falência da GM--, afirmou-se categoricamente que se tratava da maior crise do capitalismo mundial desde o crash de 1929.
Se a crise de 1929 desembocou na "grande depressão" da década de 1930, somente foi solucionada por meio da 2ª Guerra Mundial, que acabou por representar um enorme fôlego para o capitalismo, primeiro, graças à indústria bélica, depois, graças à indústria da reconstrução.
Hoje, a grande imprensa e os ideólogos burgueses escamoteiam, dia após dia, as reais proporções da crise de 2010, mas, olhando para trás, para aqueles anos de 1930, concluímos, sem grandes esforços, o quão distante estão estas analises otimistas e reducionistas da realidade.
Considerando, como mostram os exemplos norte-americano e europeu, que os trabalhadores são os principais atingidos pela crise e pela tentativa dos governos burgueses para salvar este sistema em agonia, e que as semelhanças com os anos 30 são bastante assombrosas, abre-se uma grande avenida para a construção de novas direções, direções compostas por operários, estudantes e todos os oprimidos pelo capital, direções capazes de conduzir toda a classe a superar as velhas direções, há muito desacreditadas, sobretudo, pelo seu atrelamento explícito aos governos e aos patrões responsáveis pelo rebaixamento dos salários e pelos ataques ao emprego e direitos dos trabalhadores.
Mas não se ruma para lugar algum sem um norte, sem uma bandeira, ainda mais em um momento de crise. Algumas organizações da chamada esquerda brasileira, pressentindo este momento de grave crise, aproveitando o debate eleitoral, buscam na palavra de ordem do "Não-pagamento da dívida externa" o eixo programático unificador, a bandeira a ser levantada.
Ao "Não-pagamento da dívida externa", soma-se a palavra-de-ordem "Estatização dos Bancos e Empresas atingidas pela crise". São essas as reivindicações similares àquelas do Partido Comunista Grego --uma das velhas direções que não são capazes de conduzir o proletariado grego a vitórias neste momento bastante propício.
O não-pagamento da dívida assume também um duvidoso caráter classista, sugerindo uma luta nacional --fala-se até em uma "segunda independência do país", agradando setores pequeno-burgueses, como o MST-- e sugerindo que seja uma tarefa da classe trabalhadora, neste momento, defender a soberania da nação brasileira.
A proposta de não pagamento da dívida externa pode aparecer para os trabalhadores como algo duvidoso, que poderá produzir conseqüências negativas e perigosas, como isolamento internacional etc.
O revolucionário russo Leon Trotsky sintetiza, em resposta ao impacto da crise de 1929, durante o final da década de 1930, uma outra resposta para a crise mundial, a ser levantada pela classe trabalhadora.
Diz Trotsky que as massas "são obrigadas a defender seu pedaço de pão, mesmo se não podem aumentá-lo ou melhorá-lo", ou seja, que neste momento o caráter defensivo é, aos olhos da classe trabalhadora, essencial. Não há necessidade, continua Trotsky, "de enumerar aqui as diversas reivindicações parciais que surgem", mas sim que "dois males econômicos fundamentais" exigem "palavras de ordem e métodos de luta generalizados".
E quais são tais males? O desemprego e a carestia da vida, ou seja, o encarecimento do custo de vida. Para Trotsky, seria verdadeiramente revolucionário, num momento de agonia do capitalismo, exigir "TRABALHO e EXISTÊNCIA DIGNA para todos", pois o operário não pode tolerar "sob pena de degenerar, "a transformação de uma parte crescente dos operários em desempregados crônicos, em miseráveis vivendo das migalhas de uma sociedade em decomposição".
É deste raciocínio que formula-se a defesa das escalas móveis (ver, no link abaixo, editorial anterior a respeito) e toda noção de um processo transitório que brota das próprias contradições objetivas, das necessidades mais imediatas, simples e cotidianas dos trabalhadores.
Essas reivindicações, sustenta Trotsky, são transitórias porque o capitalismo é incapaz sequer de manter as condições atuais de vida dos trabalhadores. O capitalismo somente subsiste se degradar permanentemente a vida do trabalhador. Por isso, aquilo que aparece como mínimo para o trabalhador --a manutenção da sua vida-- é, na verdade, máximo, impossível de ser realizado no capitalismo.
Tão logo cessem os pesados subsídios mantidos pelo governo Lula, tão logo passe a eleição presidencial, o impacto da crise econômica mundial no Brasil será, certamente, igual ou maior àquele que se manifesta na Europa e nos Estados Unidos. Neste momento, o debate a respeito do programa, de qual bandeira levantar, deixará para trás as páginas dos jornais da esquerda, para ocupar o lugar decisivo nos protestos de rua da classe trabalhadora. Então, que a tragédia grega não se repita.
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