MOVIMENTO NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 
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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS EDITORIAL VER CAPA DA EDIÇÃO #181

A USP E O MUNDO

Para além dos muros da USP

A.S.

20/11/2011
Para além dos muros da USP

"come ananás,mastiga perdiz,
teu dia está prestes
burguês!"

Maiakovsky

No dia seguinte à invasão da Reitoria pelo aparato de 400 homens do batalhão de choque da PM, o reitor João Grandino Rodas afirmou que a "sociedade está farta de invasões". Nessa frase, com ares de xerife, Rodas procurou mostrar como ele se orgulhava de sua ação e como via nela um exemplo a ser aplaudido pela opinião pública burguesa.

A este pronunciamento, somam-se alguns outros, não menos assustadores, do magnífico reitor, como aquele em que chamou a USP de terra de ninguém, ou então quando comparou a USP aos morros cariocas. Esta última comparação sugere que a base móvel da PM na USP seja um simulacro de UPP, uma unidade de segurança avançada que vai "pacificar" o campus universitário como as bases do exército instaladas nas entradas dos morros cariocas.

De todo modo, seus comentários são antidemocráticos e tem contornos fascistas. Sabemos que a pacificação proposta por Rodas se volta contra o livre pensamento, o livre direito de organização estudantil e a liberdade de expressão - aqui cabe lembrar que entre os indiciados nas sindicâncias da reitoria, há o caso do estudante que foi autuado por distribuir panfletos!

Sabemos também que Rodas e a burocracia que o apoia quer culpar os movimentos, correntes e partidos que atuam no interior do movimento estudantil como os responsáveis pela resposta às suas ações. Esta questão em especial merece ser debatida. A mobilização - talvez a maior e mais enraizada dos últimos quinze anos, por si só, desmonta mais esse argumento de Rodas, porém, isso não é tudo.

Muitas vezes as organizações políticas estão na retaguarda das massas estudantis, muitas vezes neste processo de luta, os estudantes organizados em assembleias e reuniões públicas apontam com muito mais clareza o caminho de luta. As organizações políticas, por sua vez, demoram para responder aos fatos presas a interesses partidários. O mesmo se pode dizer sobre os centros acadêmicos e DCE, entidades eleitas em um momento de desmobilização, por urna, reunindo direções que neste momento já não expressam a vontade da maioria mobilizada.

A partir deste processo de luta concreto uma nova vanguarda se forma e que encontra, por exemplo, no comando de greve eleito por representantes nos cursos uma expressão mais consciente do processo geral. Hoje, uma reunião do comando reúne cerca de 130 delegados, na proporção de 1 para 20, ou seja, que representam em torno de 2600 estudantes mobilizados. Assim, mais da metade do quórum da assembleia geral é composta por estudantes de alguma forma mobilizados.

Trata-se de uma tomada de consciência sem precedentes recentes. Uma aula de democracia, se quisermos parafrasear ironicamente o governador Geraldo Alckmin. Uma aula de democracia direta em que as decisões são tomadas pela maioria das mãos levantadas. Sim, uma grande aula, neste país em que a política representativa dominada pelos partidos burgueses se afunda num pântano de escândalos de corrupção.

Mas o que move os estudantes da USP? Sem dúvida, o fato concreto do convênio assinado por Rodas com a PM e a ação da tropa de choque na Reitoria foram decisivas. Porém, assim como Rodas procura apoio, com suas declarações, em setores reacionários externos à USP, o movimento grevista é impulsionado por uma conjuntura externa à USP.

Em todo o mundo, os sinais de que a crise econômica não se resolverá já revelam um futuro sombrio que se coloca à frente de todos nós. Existe uma inquietação que toma de assalto a juventude e os trabalhadores. No dia em que a USP lotava o salão caramelo da Faculdade de Arquitetura - reeditando a imagem-símbolo de 1977 - manifestantes marchavam contra a desocupação do acampamento de 2 meses em Wall Street, jovens italianos tomavam as ruas de Milão e Roma contra os cortes anunciados pelo novo governo daquele país, enquanto que, na Grécia, milhares entravam em choque contra a polícia em Atenas.

Os governos burgueses não conseguem apresentar soluções para a crise, recorrendo unicamente a dois caminhos: cortes nos salários, demissões e retiradas dos direitos, por um lado, e, por outro, aumento da repressão. Assim, vemos milhões sendo lançados na miséria enquanto a União Europeia se desfaz, assim vemos o exército invadir os morros cariocas enquanto políticos corruptos roubam mais e mais.

Em todo o mundo, cresce uma consciência de que este sistema está prestes a colapsar. Porém, cresce também a mobilização e a consciência de que é possível lutar contra este estado de coisas. Todas as barreiras, imposições e restrições assim como os governos e seus aparatos autoritários são postos em xeque, revelando fissuras que, tão logo exploradas, abrem-se em meandros que, por sua vez, desaguam em uma enorme torrente de conflitos e protestos envolvendo milhares de jovens e trabalhadores. Não, não senhor reitor, a sociedade não está farta de invasões, está farta, isto sim, deste sistema em agonia.  

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