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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS EDITORIAL VER CAPA DA EDIÇÃO #183

PROGRAMA ÚNICO MUNDIAL

Crise abre caminho para um programa de todos os trabalhadores do mundo

A.K.

04/12/2011
Crise abre caminho para um programa de todos os trabalhadores do mundo

“A crise econômica mundial está se aprofundando cada vez mais e deve persistir ainda por muito tempo”.

Esse é o prognóstico consensual entre os principais analistas burgueses de todo o mundo. Os sinais de alarme são vários e se sucedem semana após semana. Um deles é a situação dos bancos europeus, que tem demonstrado o mesmo fenômeno anunciado antes da quebra do banco Lehman Brothers, que desencadeou a crise em 2008.

O fenômeno é denominado de “credit crunch”, também conhecido como “credit crisis”, que significa uma forte retração do crédito ocasionado pela crise de confiança nas instituições financeiras e nos governos. Nenhum investidor se arrisca a comprar títulos de instituições que se encontram em situação duvidosa. Em consequência disso, os bancos e governos que já se encontram em dificuldade não conseguem captar recursos, aprofundando, assim, a crise.

Várias agências têm apontado o aprofundamento da crise. A Standard & Poor's, por exemplo, rebaixou a nota de 37 grandes bancos, como o Bank of America, o Citigroup, o Goldman Sachs e o Morgan Stanley. Em apenas 6 meses, o risco de bancos dos EUA e da Europa triplicou, ultrapassando o nível do momento que até agora tinha sido o mais grave da crise mundial, aquele ocorrido alguns meses após a quebra do Lehman Brothers.

Outro sinal de alarme é a projeção do PIB mundial. O Morgan Stanley rebaixou as previsões de crescimento da economia mundial para 3,5% em 2012, apenas três meses e meio após tê-las reduzido de 4,5% para 3,8%. Mas os sinais da catástrofe não param aí. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicou a possibilidade de toda a zona do euro entrar em recessão no ano que vem. A ONU é ainda mais pessimista, reduzindo o PIB mundial de 3,6% para 2,6%, e alerta para os riscos de uma nova recessão não apenas na Europa, mas em escala mundial.

Fazendo coro às agências e à ONU, os ministros das finanças da zona do euro afirmam que, apesar do Banco Central Europeu já ter emprestado muito dinheiro a bancos frágeis, apesar de ter gasto bilhões de euros comprando títulos da dívida de governos semiquebrados, a situação na Europa e no mundo piorou significativamente nas últimas semanas. Os ministros indicam um risco crescente de ruptura desordenada da zona do euro.

Mas talvez o mais claro sinal do agravamento da crise econômica mundial seja a retração da indústria chinesa. Como se sabe, a China é a segunda maior economia do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, tendo sido nos últimos anos o principal motor da economia mundial, além de ser o maior país exportador do mundo. A importância do papel da China no mercado mundial pode ser observada por meio do seu extraordinário avanço nos últimos anos. Em apenas seis anos, a participação da China no PIB mundial dobrou, passando de 4,96% em 2005 para 9,98% em 2011.

Nesse sentido, a retração da economia chinesa é um importante indício de agravamento da crise econômica mundial. O índice PMI, baseado no nível dos estoques, na produção, nos empregos e nos pedidos, cuja pontuação vai de zero a 100, caiu para 49 pontos em novembro de 2011, nível semelhante ao de julho de 2008 (48,4), meses antes da erupção da crise. Segundo o governo chinês, a queda do PMI abaixo de 50 significa que a economia iniciou um processo recessivo.

O Brasil acompanha a onda recessiva mundial. Segundo o IBGE, a produção industrial brasileira está em queda ininterrupta desde agosto. Dos 27 setores pesquisados pelo instituto, 20 registraram queda em outubro. Há, também nesse caso, mais um dado que lembra a situação posterior à quebra do Lehman Brothers. A retração do mês outubro de 2011 (de 0,6%) é comparável somente àquela ocorrida em outubro de 2009, quando o Brasil sofria o impacto do mergulho da crise mundial.

O governo Dilma vem reagindo aos sinais da crise, reduzindo o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) da produção de carros, em setembro, e da linha branca (geladeiras, fogões e máquinas de lavar) nesta última semana. No entanto, os analistas são unânimes em afirmar que os efeitos destas medidas são paliativos e não serão suficientes para evitar o aprofundamento da crise no Brasil, por se restringir a setores isolados, sem dar contra da economia como um todo.

A preocupação com os sinais da crise no Brasil também pode ser observada na decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de reduzir em 0,5% a Taxa Selic (índice que baliza as taxas de juro cobradas no Brasil), de 11,5% para 11%. Mas esta redução é insignificante, pois as altas taxas de juro cobradas no Brasil bloqueiam a produção e o consumo, dificultando o acesso ao crédito e transferindo os investimentos para a especulação financeira. O Brasil é ainda o país que paga o maior juro real do mundo. Somente em 2011, o Governo Federal já pagou R$ 216 bilhões em juros da dívida pública.

Como se vê, a receita dos governos é a mesma em todo o mundo: transferir recursos públicos para o capital financeiro, que para Lênin, corresponde à fusão do capital bancário com o capital industrial. E os trabalhadores, afinal, que ajuda recebem dos governos?

Ao mesmo tempo em que ampara o capital, os governos atacam as condições de vida da classe trabalhadora. No Reino Unido, 710 mil funcionários públicos serão demitidos em apenas cinco anos, de acordo com o pacote anunciado no dia 30 de novembro pelo Ministro das Finanças, George Osborne. Aqueles que permanecerem empregados também serão atingidos, pois terão seus salários congelados até 2013. Nos dois anos seguintes, os salários terão reajustes anuais de apenas 1% frente a uma inflação que hoje ronda os 5%. É uma extraordinária transferência de renda dos trabalhadores aos capitalistas, realizada por intermédio do Estado.

A situação dos trabalhadores britânicos expressa a realidade da imensa maioria dos trabalhadores de todo o mundo. Quando escapam do desemprego e da miséria, os trabalhadores não conseguem escapar da degradação de suas condições de vida, por meio do rebaixamento dos salários e do aumento da jornada de trabalho.

Os trabalhadores britânicos reagiram ao ataque organizando nesta quinta-feira (01/12) a maior greve dos últimos 30 anos, com cerca de 3 milhões de trabalhadores paralisados.

Na zona do euro a situação dos trabalhadores é cada vez mais grave. O desemprego continua crescendo, tendo atingido a cifra de 10,3% em outubro, que representa 16,3 milhões de pessoas. E os ataques continuam. O governo grego, por exemplo, já demitiu 170 mil funcionários públicos e anuncia que até 2015 a meta é cortar 300 mil servidores.

No Brasil, a situação dos trabalhadores e suas famílias não é diferente. Contrariando a propaganda governamental, o Relatório do Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) mostrou nessa semana que o percentual de adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos que vivem em famílias de extrema pobreza cresceu entre 2004 e 2009, período que engloba parte do primeiro e do segundo mandatos do governo Lula. Nesse período, o percentual de adolescentes submetidos à miséria passou de 16,3% para 17,6%, que representa 3,7 milhões de jovens. Segundo os critérios da Unicef são consideradas extremamente pobres aquelas famílias cuja renda individual não ultrapassa R$ 136,25 (25% do salário mínimo).

Em fevereiro deste ano a Unicef havia divulgado dados relativos a todos os jovens abaixo de 18 anos, o que dá uma ideia mais clara da dimensão da miséria no Brasil. Segundo a entidade, dos 191 milhões de brasileiros, 21 milhões têm menos de 18 anos. Nessa faixa etária mais ampla, o percentual de pobres é ainda maior. Estima-se que 38% – que equivale a 8 milhões de jovens – vivem em situação de pobreza.

Como se vê, esperar que as condições de vida da classe trabalhadora melhorem é uma ilusão. Os capitalistas e os governos, preocupados em salvar o capitalismo e a si próprios, sequer conseguem manter as condições de vida atuais dos trabalhadores.

Essa incapacidade absoluta do capitalismo fica ainda mais evidente com a crise econômica mundial. Abre-se assim a possibilidade de uma luta comum de todo o proletariado mundial pela simples manutenção de suas condições de vida.

DESEMPREGO ZERO! FRENTES PÚBLICAS DE TRABALHO!

DEMISSÃO ZERO! ESCALA MÓVEL DE HORAS DE TRABALHO!

PERDA SALARIAL ZERO! ESCALA MÓVEL DE SALÁRIOS!
 

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