A revista TIME desta semana traz estampada em sua capa a personalidade do ano. Não foi eleito o general que coordenou a operação de captura e morte de Bin Laden, nem a duquesa Kate Middleton, não. Na capa um desenho apresenta a personalidade do ano como um jovem com o rosto coberto, cujos trajes, em um primeiro momento, parecem ser de um árabe, mas que logo se revelam como um gorro e uma camiseta usados como máscara. Quem é este que carrega sua identidade oculta? Sobre o desenho, a resposta: "the protester" (o manifestante).
A personalidade do ano da TIME é um arquétipo que tomou as praças e ruas de todo o mundo neste ano de 2011: o manifestante. No texto, a revista busca traçar o que há de comum em todas estas manifestações que se estendem desde o Cairo, até Santiago do Chile, passando por Trípoli, Marrocos, Atenas, Lisboa, Madrid, Nova Iorque, Moscou e tantas outras cidades.
Diz o texto que em todos os lugares, as vanguardas dos protestos têm algo em comum. Tratam-se de jovens que se levantam de maneira espontânea, geralmente recusando os partidos e as tradicionais lideranças políticas. A matéria diz ainda que os manifestantes compartilham da "crença de que os sistemas políticos e as economias de seus países se tornaram desfuncionais e corruptos – falsas democracias fraudadas para favorecer os ricos e poderosos e evitar mudanças significativas".
Vitórias ou derrotas neste 2011?
Para além de todo o recorte ideológico da revista, é significativo que o periódico-chefe da grande imprensa burguesa internacional se curve diante dos milhões que ocuparam as ruas e praças em 2011 para protestar contra regimes autoritários, cortes nos salários, demissões em massa e a bancarrota de todo um continente. Porém, é significativo também a conclusão da matéria: "eles mudaram o mundo".
Tal afirmação não é verdadeira. O mais lastimável exemplo é a Grécia, vanguarda do movimento, após centenas de manifestações e greves, vê a sua classe trabalhadora dia-a-dia sendo arrastada para a miséria, enquanto a juventude é privada de qualquer perspectiva de futuro. Quadro que se repete nos demais países europeus assolados pela crise econômica: na Espanha, milhares ocuparam a praça 'Puerta del Sol em Madrid, mas a direita nacionalista venceu as eleições, em Portugal os cortes e demissões apenas aumentam tornando as greves gerais inócuas e assim por diante. Em Wall Street, o movimento nascido no coração do capital financeiro nada conquistou. No Oriente Médio, o caso do Egito é também exemplar, lá milhares foram às ruas, derrubaram Mubarak, mas até o momento somente conseguiram que uma junta de militares aliados ao antigo ditador conduza a transição política que pode cair nas mãos de um partido fundamentalista.
Talvez as palavras da revista Time sobre a mudança do mundo busquem freiar o que pode vir pela frente, uma eventual e provável radicalização dos protestos, mas hoje a única certeza é que os movimentos ainda não conquistaram as vitórias anunciadas e tão sonhadas. Nesse sentido, cabe perguntar: por que mesmo com milhões às ruas, as vitórias se concretizaram?
Forças e limitações dos "protesters"
Em primeiro lugar, na maioria dos protestos, como aponta a própria revista, a grande massa não é composta pela classe trabalhadora, mas por jovens que estão nas escolas, universidades ou que têm agora o primeiro contato com o mercado de trabalho. Do ponto de vista da luta de classes, essa composição social expõe uma das fraquezas dos "protester": podem ser milhares, milhões, mas não podem substituir a classe trabalhadora, já que esta atua diretamente no processo produtivo. Em outras palavras, se os movimentos não avançarem de forma determinante para o interior das fabricas, entrando no oculto processo de produção capitalista, o sistema não vai parar.
A vanguarda das manifestações ser a juventude revela, por outro lado, um aspecto muito importante do movimento. Trata-se de uma nova geração que se lança à luta. Trotsky comenta que, nos momentos de ascenso, a juventude é sempre aquela primeira a se levantar, funcionando como uma espécie de barômetro da luta de classes. É muito significativo também que as velhas direções e partidos sejam recusados. Isso expressa, por um lado, certa confusão política, mas por outro, revela um rechaço pelas direções e partidos que há décadas estão à frente dos sindicatos e organizações estudantis levando a classe trabalhadora e os jovens a derrotas atrás de derrotas.
Nesse sentido, poderíamos explicar essa movimentação espontânea de 2011, como um acirramento da luta de classes a nível mundial resultado de um sistema de produção em agonia que marcha de crise em crise sem conseguir apresentar um saída que não seja aquela que recaia sobre os ombros da juventude e da classe trabalhadora. Retomando Trotsky, poderíamos dizer que as condições objetivas, isto é, históricas, sociais e econômicas, para um levante internacional estão mais do que maduras, já começam a apodrecer.
A construção de uma nova direção
Entretanto, como explica Trotsky, não bastam as condições objetivas para que ocorra um levante vitorioso, são também necessárias as condições subjetivas, isto é, aquelas relacionadas à construção de uma direção revolucionária - uma vanguarda política consciente. Em 2011, os protestos rechaçaram as antigas direções, mas não foram capazes de forjar novas. Nesse vazio, as massas repetem o que foi o maio de 1968 francês, em que milhões marcharam em Paris, o governo de Gaulle se retirou do país, mas não havia quem dirigisse a tomada do poder, levando o movimento à derrota.
A crise da humanidade, dizia Trotsky nos anos 30, resume-se na crise da direção revolucionária. Nesta formulação-síntese está a chave para o avanço ou não dos "protesters" de todo o mundo. Em 2012, os ataques à condições de vida mais elementares da classe trabalhadora e da juventude somente se aprofundarão. As velhas direções, acomodadas e burocráticas, sentir-se-ão ameaçadas e buscarão aliança nos governos burgueses corruptos ao lado dos grandes industriais e da burguesia financeira, cabendo à juventude e ao proletariado o desafio de construir novas direções à altura dos novos desafios que estão pela frente, sob pena dos "protesters" continuarem sem um rosto por baixo da máscara de luta.
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