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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS EDITORIAL VER CAPA DA EDIÇÃO #186

PSOL e PSTU NA USP

2012: Novo Rumo

A.S.

08/01/2012
2012: Novo Rumo

É conhecida a ponderação de Trotsky sobre a Alemanha dos anos 20. Os comunistas alemães, dizia o líder bolchevique, comemoram o crescimento de sua votação na última eleição, sem perceber que seus adversários crescem, proporcionalmente, no mesmo pleito, três vezes mais. Seus adversários, no caso, eram os nacional-socialistas.

O comentário serve para ilustrar como a esquerda pode seguir com uma política errada, fora de lugar, iludindo-se com resultados que, isoladamente, parecem vitoriosos, mas que, postos em relação, revelam o verdadeiro fracasso. A ponderação serve também para refletirmos sobre a atual luta dos estudantes na USP.

Lá as direções tradicionais voltaram as costas para as sucessivas advertências sobre a questão da repressão aos estudantes. O DCE, composto pelo PSOL, com representantes da esquerda da UNE, recusou-se o ano todo a chamar assembleias e tratar abertamente do tema. O PSTU, corrente majoritária da ANEL (entidade estudantil nacional recém-fundada com o propósito de ser uma alternativa à UNE), passou o ano ocupado com a campanha de 10% do PIB para a educação. Fechavam os olhos para as declarações do reitor sobre o campus como "terra de ninguém" e suas comparações fascistas com os "morros cariocas", ao passo que Rodas intensificava o ataque sobre os espaços estudantis e aumentava o número de estudantes perseguidos e fichados.

A crescente gravidade dos fatos, acelerada pela assinatura do Convênio USP-PM, em setembro deste ano, levou os estudantes da USP a desconhecer as velhas direções e tomar para si a tarefa de lutar contra os ataques de Rodas. A ocupação da sede administrativa da FFLCH e depois a da reitoria foram manifestações espontâneas que demonstrava como os estudantes exigiam uma luta concreta contra a repressão e os ataques de Rodas.

E o que fizeram essas direções? O PSOL, por meio do DCE, soltou uma nota enganosa sobre a ocupação da reitoria que desorientou os estudantes enquanto armou, em grande medida, as versões caluniosas reproduzidas a exaustão por grandes setores da imprensa burguesa. O PSTU, por sua vez, condenou, em seu jornal da juventude, o método da ocupação "neste caso", considerando que "neste caso" fazia-se o jogo da Reitoria, pois "neste caso" a ocupação isolava o movimento estudantil.

A assembleia pós-invasão, reunindo 5 mil estudantes na História, foi a resposta dos estudantes a essas direções: não se tratava de um movimento isolado, guiados pelos grupos radicais (MNN, Ler-qi, PCO), "minorias extremistas anacrônicas" etc, não, tratava-se de um movimento que se massificava dia-a-dia na luta concreta contra a repressão no campus.

Com a greve deflagrada, o coro dos estudantes em luta clamou por "unidade". E o que se viu até o presente momento? Uma unidade bastante frágil, uma unidade bastante questionável. Por quê? Porque unidade se faz na luta e não no discurso. A verdade é que as antigas direções foram literalmente arrastadas e obrigadas a entrar em greve. Empurradas a entrar em movimento, as direções tradicionais, pelo menos, em parte, mantêm uma posição dúbia, de ora apoiar, ora desmobilizar e enfraquecer a greve. Quem não se lembra da defesa sobre abertura de negociações na assembleia geral da FAU? Por que negociar sem nenhuma nova proposta do reitor? Porque, dizia o PSOL, o movimento segue de derrota em derrota, de derrota em derrota. E o que fez a assembleia? Rechaçou o acordão por contraste!

Veja-se o caso do PSTU. Pautou o ano por uma reivindicação legítima, porém abstrata, de 10% do PIB para a educação, não percebendo o avanço da repressão na USP. Ora, argumentaria um simpatizante do PSTU, mas a campanha por mais verbas era nacional! E a repressão é uma bandeira exclusiva para a USP? Claro que não! A repressão que ocorre na USP se reproduz em todas as universidades do país e também nas escolas, assim como, em graus muito maiores, nas ruas das grandes cidades, nas periferias e no interior das fábricas. Nos primeiros dias do ano já vemos estudantes espancados em Teresina, enquanto desempregados e sem-tetos da região da Luz, em São Paulo, são perseguidos como bandidos.

A repressão, conjuntamente com a retirada dos direitos, arrocho salarial e demissões em massa, compõe o arsenal da burguesia nos momentos de intensificação de crise econômica. Não por acaso, os levantes em todo o mundo clamam por liberdade, emprego e condições dignas de vida. Assim a luta contra a repressão na USP não é de modo algum exclusiva à USP, ou ao Brasil, é uma bandeira que tende a ser cada vez mais ampla e atual, no Brasil e no mundo.

A USP, neste momento, ainda que as direções tradicionais do movimento estudantil não vejam, faz história. Curiosamente, a extrema-direita brasileira parece dar claros sinais de perceber a importância e a gravidade da luta na USP. Em artigo do dia 21.12 no Estado de S. Paulo, o jornalista José Nêumanne diz com todas as palavras que a USP faz história. Diz ele que "os estudantes e sindicalistas de extrema esquerda que se rebelaram contra a presença da Polícia Militar (PM) no campus da Universidade de São Paulo (USP), sem querer, e o reitor da instituição, João Grandino Rodas, no pleno e voluntário exercício da autoridade de que foi investido, estão fazendo história".

Faltou ao jornalista dizer que os estudantes, à revelia das antigas direções, quase por instinto, "sem querer" fazem história, enquanto o aparato repressivo da burocracia universitária, por meio do reitor João Grandino Rodas, atua de forma consciente para restaurar "a autoridade da administração" da USP. Mas o que leva a luta travada na USP a fazer história é exatamente o seu caráter para além dos muros. "A punição a quem cabulou aulas e destruiu equipamentos na USP", continua o jornalista do Estadão, "deveria servir de ponto de partida para atitudes semelhantes no exercício da política e na gestão pública", ou seja, deveria servir de exemplo para qualquer rebelião contra o sistema.

Os últimos episódios - a expulsão de seis estudantes-moradores do CRUSP e o fechamento do espaço do DCE - somente confirmam o acirramento das contradições no interior da Universidade de São Paulo. Rodas, ciente de seu papel, declara guerra, para ele pouco importa os furtos e roubos no campus, já que seu objetivo é exterminar as vozes dissonantes. Os estudantes, por sua vez, são lançados à luta em defesa de seus direitos elementares, e, sobretudo, em defesa de sua liberdade.

Os funcionários, acuados, aguardam. Os professores, temerosos, aguardam. As velhas direções, vacilam. Rodas, decidido, avança. Poderíamos dizer que, assim como no episódio da Alemanha dos anos de 1920, a extrema direita parece assumir com muito maior consciência o significado histórico dos fatos em questão. Ainda é tempo de PSOL e PSTU buscarem um novo rumo, construindo não apenas em palavras, mas também em ações, a luta contra Rodas e a repressão na USP.  

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