Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, teve um de seus intentos frustrados há poucas semanas. Dentro da Catedral da Sé, no dia do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro, ensaiou foto para ganhar destaque na imprensa nacional: contorceu a perna, de forma a ficar com os pés invertidos e reeditar uma imagem histórica de Jânio Quadros em 1964 (poucos meses antes de ser derrubado pelos militares). A farsa estava montada.
No entanto, frustrou-se porque a Polícia Militar falou mais alto. No dia seguinte, todos os jornais estamparam o rosto de um manifestante ferido pela repressão policial do lado de fora da Sé, num protesto justamente contra Kassab e Geraldo Alckmin e em defesa dos moradores do Pinheirinho, desocupados violentamente de suas casas em São José dos Campos.
Mesmo assim, é importante refletir a respeito daquela primeira imagem, pois revela traços mais profundos da conjuntura brasileira. Quando os fantasmas do passado rondam o presente, nunca é demais relembrar Marx. Buscando tornar suas ações grandiosas, "os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada".
Kassab parece ter predileção por essa conduta, afinal, seu recém-criado partido copia o nome daquele fundado por Getúlio Vargas em 1945: Partido Social Democrático, PSD, sigla que elegeu Juscelino Kubitschek presidente, em meio ao ufanismo da década de 1950. Mas quem é Kassab, se comparado a Getúlio Vargas, JK ou Jânio?
O prefeito paulistano nunca foi uma figura proeminente, sempre pertenceu ao segundo escalão da política estadual e foi alçado ao cargo atual em 2006 por ser vice na chapa de José Serra (carente de opções). Fundou em 2011 um partido "sem ideologia", o PSD, que, conforme afirmou na época, "não será de direita, de centro, nem de esquerda", um partido cuja única característica é o oportunismo, o interesse pelas grandiosas somas de dinheiro que circulam no Estado.
E, incrivelmente, o PSD se tornou em poucos meses o terceiro maior partido político do país, contribuindo decisivamente na desagregação da oposição de direita ao lulismo!
A situação política nacional seria cômica, não fosse trágica. Na mesma semana em que cai Mário Negromonte (o oitavo ministro de Dilma Rousseff em apenas um ano de governo!), Gilberto Carvalho, secretário-geral da presidência, afirma que Dilma escolhe com “um rigor muito grande” os seus ministros...
Somente tempos de completa mediocridade política podem gerar fenômenos como esses. Somente o profundo esgotamento de uma forma de dominação da burguesia poderia abrir caminho para tamanha degeneração. Trata-se do fim da forma de dominação iniciada com as greves do ABC no final da década de 70, com o fim da ditadura militar e com a criação do PT e da CUT nos anos 80.
Em 2002, com a chegada de Lula ao poder e, particularmente, com o escândalo do mensalão em 2005, esgotou-se um longo ciclo de dominação da burguesia cujo protagonista foi o PT. Diante de tamanha degeneração, diante de figuras medíocres como Kassab, Alckmin, Sarney, Renan, Collor, diante dos governos corruptos de Lula e Dilma, os trabalhadores e a juventude brasileiros veem com descaso cada vez maior a forma burguesa de fazer política.
Assim, o projeto defendido pelo PT desde a sua origem está chegando ao fim, aquele projeto ilusório que propunha transformar o país por meio das eleições. Esse projeto se esgotou completamente, abrindo o caminho para a retomada da construção independente e revolucionária de um legítimo programa da classe trabalhadora, aquele programa, já comprovado pela história, baseado na construção de uma dualidade de poder a partir das fábricas, projeto que o PT e a CUT cumpriram o papel de bloquear.
A revolução social do século XXI, diferentemente dos fantasmas citados acima, ao mesmo tempo em que seguirá a tradição histórica da classe operária, tirará a sua poesia do futuro.
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