Publicado originalmente em 9 de julho de 2010, no WSWS
Dezenas de milhares de trabalhadores gregos protestaram na quinta-feira, durante a sexta greve geral deste ano. A Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos (GSEE) e a Confederação dos Servidores Públicos (ADEDY) chamaram a ação para protestar contra as medidas de austeridade do primeiro ministro Papandreou e seu partido, o Movimento Socialista Pan-helênico (PASOK).
O governo está implementando os ataques para garantir um empréstimo de € 110 bilhões para os próximos três anos, vindo da União Européia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O PASOK está comprometido em, até 2014, cortar o déficit orçamentário, da atual marca de 13,6% para menos de 3% do produto interno bruto. As medidas de austeridade implicam a destruição de centenas de milhares de empregos, o estrangulamento das pensões e serviços sociais e cortes salariais na ordem de 20% ou mais.
Os protestos foram organizados para coincidir com uma votação parlamentar agendada para o final do dia. O projeto de lei impõe novas medidas de austeridade, incluindo ataques draconianos contra as pensões. Além disso, aumenta a idade de aposentadoria dos atuais 61,4 para 63,5 anos até 2015, pune os trabalhadores que se aposentam mais cedo, e sobe a idade de aposentadoria precoce para 60 anos. Em alguns casos, mulheres que antes podiam se aposentar com 50 anos agora terão que trabalhar até os 65. Os fundos de pensão deverão ser integrados e o número de profissões “pesadas” que qualificam para a aposentadoria precoce deve ser reduzido.
A nova legislação também facilita a demissão de trabalhadores e diminui o piso salarial.
De acordo com o governo, as pensões serão cortadas em cerca de 7%. Uma pesquisa do GSEE refutou este número, mostrando que na realidade elas serão reduzidas em 12%.
Na quarta-feira, o parlamento votou, por maioria de 159 a 137, pela aprovação das primeiras leituras do projeto de lei. O projeto foi aprovado na noite de quinta-feira sem qualquer oposição por parte dos 157 deputados do PASOK – a casa tem 300 cadeiras. Relatos feitos durante a votação sugeriam que ela poderia ser atrasada devido a uma greve do setor administrativo do parlamento, cujas pensões também estão prestes a ser cortadas.
O governo só foi capaz de implementar ataques tão pesados devido à burocracia sindical. Os sindicatos chamaram seis greves gerais em sete meses. Estas ações de protesto foram usadas como uma forma de controle social – deixam o vapor sair da panela, enquanto o PASOK avança com seus ataques.
Um líder do GSEE, Stathis Anestis, declarou antes da greve: “Os trabalhadores não querem entrar em greve toda semana, mas também não podem ficar parados, olhando seus direitos fundamentais serem destruídos”.
Mas é precisamente isto o que os sindicatos fizeram ao permitirem que o governo aprovasse uma lei atrás da outra,despedaçando os padrões de vida dos trabalhadores e os ganhos sociais conquistados durante décadas. A cada passo os sindicatos trabalharam em estreita colaboração com o governo, cuja eleição eles apoiaram, para garantir que o programa de austeridade fosse posto em prática.
Na véspera da votação de quarta-feira, Anestis procurou conferir às medidas de austeridade uma fachada democrática. “Também é mais democrático que todo o projeto de lei seja debatido no parlamento, em vez de empurrá-lo como um decreto presidencial”, ele disse.
Uma indicação da escala dos ataques contidos na legislação está no comentário que apareceu no Eleftheros Typos. “Esta é a Quarta-Feira Negra. A partir de amanhã, tudo será diferente. A Grécia está se transformando, e afundando num período de trevas medievais para os trabalhadores”, declarava.
Os dois sindicatos organizaram passeatas separadas na capital Atenas, e uma terceira foi organizada pela PAME, a federação sindical afiliada ao Partido Comunista da Grécia (KKE). De acordo com os organizadores, cerca de 20 mil pessoas participaram das marchas em Atenas. Na cidade setentrional de Thessaloniki, cerca de 5 mil pessoas aderiram às movimentações.
Em Atenas, os manifestantes carregavam estandartes que diziam: “Tirem as mãos das garantias sociais e das pensões” e “Basta! Juntos podemos derrotar o plano de austeridade”.
Em outros lia-se: “Devolvam o dinheiro que vocês roubaram” e “Não choramos, não ficamos com medo, vamos barrar suas medidas”.
Como em protestos anteriores, a tropa de choque ficou de prontidão em pontos-chave do centro da cidade, com ônibus policiais fechando as ruas em torno do prédio do parlamento.
A Reuters citou uma trabalhadora de 54 anos que disse que ia se aposentar imediatamente para evitar que as medidas cortassem sua pensão. “É horrível, nós pagamos todas as contribuições, pagamos os nossos impostos, e não vamos receber nada”, ela disse. “Eles estão destruindo tudo.”
O GSEE afirma em uma declaração que a participação dos trabalhadores na greve ultrapassou 80% em muitas empresas. As redes de transporte foram afetadas em toda a Grécia.
Uma greve de quatro horas dos controladores de tráfego aéreo, ocorrida entre as 10h e 14h, resultou em dezenas de vôos cancelados no Aeroporto Internacional de Atenas. Mais de 50 vôos internacionais foram cancelados. Em Atenas, trens, ônibus e trólebus, assim como a ferrovia elétrica urbana de Piraeus-Kifissia, foram parados. Trabalhadores do transporte ferroviário empregados pela Organização Helênica de Ferrovias pararam, e o transporte via balsa para muitas das ilhas gregas foi afetado pela ação da Federação Pan-helênica de Marinheiros.
Os serviços públicos foram afetados em todo o país, com escritórios governamentais centrais e locais fechando, e outras companhias do setor público sendo forçadas a operar com níveis esqueléticos de força-de-trabalho. As greves atingiram os hospitais, e somente casos de emergência receberam atendimento. Advogados, funcionários do tribunal, e alguns lojistas apoiaram a greve.
Membros do Sindicato Ateniense dos Jornalistas, empregados pelas transmissoras estatais ANA e MPA, também aderiram.
Durante a semana a União Européia reafirmou seu apoio às medidas de austeridade, declarando que elas estavam “em geral, no caminho certo”. Na quarta-feira, porém, a UE emitiu um aviso de que o desemprego deve piorar, depois de atingir em fevereiro o recorde decenal de 12,1%.
Um flexível instrumento do capital financeiro internacional e da burguesia grega, o PASOK impôs todos os ataques exigidos pela UE, FMI e Banco Europeu. Assim, o ministro das finanças George Papaconstantinou pôde anunciar durante a semana que, neste ano, o déficit grego caiu em 42%.
De acordo com dados do Banco Central da Grécia, o déficit orçamentário estatal era de € 11,5 bilhões na primeira metade do ano, caindo em relação aos € 19 bilhões do ano anterior. O déficit ficou em 4,9% do PIB durante os seis primeiros meses de 2010, permanecendo dentro da meta de 5,8% estabelecida pelo FMI.
Apesar do papel traidor da burocracia sindical e suas tentativas de desmobilizar a classe trabalhadora, a oposição ao programa de austeridade continua ampla. Uma pesquisa publicada durante a semana pelo diário ateniense To Vima revelou que o apoio ao PASOK caiu para apenas 23,4% da população, comparado com 43,9% dos votos populares nas eleições gerais de outubro passado. O apoio ao partido conservador de oposição Nova Democracia também caiu drasticamente, para 15,6%, de 33,4% nas eleições. Na mesma pesquisa, 29,6% disseram que o último projeto de lei deveria ser retirado, e 19% descreveram como “catastróficas” as medidas que ele contém.
[traduzido por movimentonn.org]
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