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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS O CORNETA VER CAPA DA EDIÇÃO #132

METALÚRGICOS

Sob ataques dos patrões, trabalhadores batem recorde de produção

Ritmo de trabalho intenso e diminuição do piso salarial atingem trabalhadores das montadoras

Magá

14/11/2010

Os metalúrgicos das montadoras bateram novo recorde e produziram a melhor marca para os dez primeiros meses do ano desde 2008. Com a produção de 3,043 milhões de unidades, de janeiro a outubro deste ano, a quantidade de veículos fabricados é 15,3% maior que em igual período de 2009. Em outubro, foram produzidos 300,7 mil automóveis e veículos leves, quantidade 5,5% maior em relação ao mês anterior.

Graças ao exaustivo ritmo de trabalho dos 135.253 metalúrgicos das montadoras, o setor de fabricação deve fechar o ano em 3,6 milhões de unidades ante os 3,4 milhões previstos recentemente. Para expandir a produção automobilística sem o aumento do custo da produção, as montadoras estão contratando os trabalhadores mais novos pagando piso salarial menor que os funcionários antigos e dificultando o acesso ao teto salarial. A artimanha tem sido denunciada pelos trabalhadores, enquanto os sindicatos permanecem calados.

Rebaixamento salarial na Scania e VW

Na Scania, os metalúrgicos estão sendo contratados por R$ 1.600 e com tabela salarial que só permite que o teto seja alcançado em 8 anos. “Isso chega a ser humilhante, já que os efetivos (antigos) ganham 3 vezes mais para fazer a mesma coisa, e o teto deles foi alcançado em 2 anos”, revela trabalhador da Scania de São Bernardo do Campo em mensagem anônima enviada para O Corneta. “Os diretores brasileiros querem, contratando a molecada e jogando só as qualidades da Scania dentro da cabeça deles. Esses moleques pensam em ter uma família ou sonhos, mas como conquistá-los com esse salário?”

Na Volkswagen, também em São Bernardo, os trabalhadores estão sendo contratados por cerca de R$ 1.500. “os caras novos terão que trabalhar 9,5 anos pra alcançar o teto que a gente ganha hoje. Antes a gente alcançava o teto em no máximo 5 anos. Só pra ter uma ideia, o teto de grau 6 está em torno de R$ 3.500. E o trabalhador tá entrando lá ganhando cerca de R$ 8,50 por hora, o que dá aproximadamente R$ 1.470”, conta um metalúrgico que preferiu não se identificar. Segundo ele, há especulação na fábrica de que sindicato e montadora estão negociando um PDV (Plano de Demissão Voluntária) para despedir os mais antigos com maiores salários.

Patrões querem maior produtividade por trabalhador

De acordo com a Anfavea (a associação das montadoras), o número de empregos no setor alcançou os postos de trabalho perdidos em 2008 e 2009. Em outubro de 2008, existiam 131,7 mil metalúrgicos no setor; em junho de 2009, 119,5 mil. A recuperação do nível de emprego, entretanto, só foi conquistada a partir dos recordes consecutivos da produção, que exigiram o máximo de trabalho do metalúrgico.

Na Scania, apenas 74 dos 200 contratados temporários foram efetivados em janeiro. Apesar de alegar não poder regularizar, ainda este ano, todos contratos precários, os dados mostram que o faturamento cresceu. Em dez meses, a empresa vendeu 121.577 caminhões pesados, aumento de 106% em comparação a 2009, o que representa 28% do mercado nacional. A venda de ônibus e peças de reposição também aumentou 36% e 23%, respectivamente, em relação ao mesmo período do último ano.

Para o setor patronal, essas contradições não são levadas em conta. Pelo contrário, a exigência é de maior produtividade por trabalhador. Durante a apresentação da 26ª edição do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, o presidente da General Motors (GM) na América do Sul, Jaime Ardila, reclamou que enquanto os salários foram reajustados em torno de 3% a 5% acima da inflação oficial, o aumento da produtividade por trabalhador foi de 2% a 2,5%.

O importante nas contas dos patrões é obrigar o trabalhador a usar o máximo de sua energia para produzir o máximo de riqueza possível. E que esse valor seja dividido da forma mais desigual possível entre trabalhador e patrão. Segundo estimativas de analistas, o setor automobilístico no Brasil movimenta anualmente em torno de R$ 150 bilhões com a venda de automóveis, comerciais leves, ônibus e caminhões. Quanto dessa fortuna fica com o trabalhador, inclusive com o pessoal das autopeças, que são a maior parte da categoria (2,4 milhões de companheiros)?