Publicamos abaixo poema e carta que nos foram enviados por leitor do site, Cláudio Laureatti, poeta de São Paulo. O poema foi escrito quando houve a invasão da PM na USP em 2009, agredindo estudantes, funcionários e professores. Agora, em 2010, Cláudio retoma o poema contra a intransigência do Reitor da USP, Rodas, e em apoio à luta travada pelos funcionários durante o primeiro semestre.
Poema Manifesto
Cláudio Laureatti
PM persegue estudantes
Estudar não é coisa de delinqüentes
Polícia
Repressão
Estão passando por cima
Do Elogio à loucura
Do Livre arbítrio
Em meio ao conflito, reunião
E o Direito à Preguiça?
Choque/contenção: Mentira!
Jogam no lixo universidade e democracia
Você tem direito a um telefonema
dois tapas na cara, estilhaços de granadas
A assembléia está encerrada
Essa é a borracha que apaga
o debate da educação no Brasil
Diálogo assim nunca se viu
A flor e a náusea dos gases de pimenta
no caminho com Maiakovsky
Bouquet de rosas arremessado derruba o cap do Coronel
Fumaça sob fazendo um véu
Florbela Espanca Educação pela pedra
Escola de Facas Fuzil
Para tanta violência haja violetas
teatros mágicos coros de carcarás
Brigadas do riso pra não chorar
Ai, ai, ai ...
Foge-nos pouco e pouco a curta vida universitária
Vai-nos o ensino de qualidade e gratuito
E porque não dissemos nada
Já não podemos dizer nada
E agora reitor(a)? A festa acabou
Viva à vaia à tropa de choque no campus
Tem que ter microfone megafone: é tudo no nosso nome
Cláudio Laureatti
Nove de Junho/2009: 1 ano do confronto na USP, o dia em que a PM invadiu a Cidade Universitária e feriu estudantes, funcionários e professores, e mais do que isso, reabriu feridas de um país, periférico no capitalismo mundial, que busca aprender e ensinar como construir uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais igualitária onde a educação não seja tratada como caso de polícia, porém enquanto oportunidade para se pensar e realizar sociedades menos violentas, menos inseguras, menos corruptas. Humildemente caminhemos nesta direção, pois a natureza está com estafa do efeito estufa e de muitas outras mazelas humanas, demasiadamente humanas.
Violência é a fome causada pelo corte de salário dos trabalhadores, que têm em média os menores rendimentos da universidade, por exercerem constitucionalmente o direito de greve, mas é também, e talvez sobretudo, a negação aos filhos destas mesmas pessoas ao acesso aos capitais culturais e benesses intelectuais que esta mesma instituição mantém aberradoramente apartados, criando frustração, ódio e humilhação nas cabeças tantas e muitas vezes cansadas das tarefas diárias, entre outras, de limpar os ambientes, cortar grama, conduzir ônibus, servir refeições e zelar pela segurança.
E para a permanência dos poucos estudantes de baixa renda em uma das universidades públicas mais elitistas do país tornou-se ponto pacífico que este grupo estatisticamente em menor número dentro do campus aproprie-se de auxílios tais quais alimentação e moradias. Colocar em prática ações extremistas como são as ocupações, dentro e fora do campus, sinaliza que o problema não é só passar no vestibular. Aliás, não concordamos com o vestibular. Seria melhor estatizar as demais universidades e o problema de vagas pode ser repensado, desconstruído e outras conformações poderiam ser propostas, enfim, propostas, propostas, propostas.
Direito de greve, direitos humanos e condições necessárias para que estudantes de graduação e pós-graduação oriundos da classe baixa possam ter plenas condições de permanência nesta universidade e, é claro, para além dos muros, não se propaguem preconceitos nem ressentimentos, porém cidadania e arte. Cidadania é arte. É isso.
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