Neste último mês, alguns fatos ocorridos em três campi da UNESP no interior de São Paulo – a saber em Araçatuba, Bauru e Araraquara –, evidenciam um grave avanço da repressão, uma ofensiva da burocracia universitária contra os estudantes e são, por isso mesmo, um sinal para a juventude de todo o estado.
Na mesma medida, a resposta em um campus deixa de ser algo isolado e se torna parte da resistência geral, passa a fazer a ponte que unifica a luta dos estudantes da UNESP. Publicamos abaixo, nesse sentido, para fazer essa ponte, três cartas de estudantes de cada uma dessas universidades.
Araçatuba: “Bonés, chinelos, shorts, mini-saia e mini-blusa” estão proibidos
Passadas as férias, a diretoria do campus de Veterinária e Odontologia da Unesp de Araçatuba expediu uma portaria estabelecendo uniformes (!!!) para a permanência nas salas de aula e laboratórios.
O documento, que foi enviado aos estudantes em tom de normalidade, estende-se longamente relatando as normas das vestimentas, como o uso de avental nas clínicas, que são, na verdade, hábitos comuns em cursos de ciências biológicas. Mas, toda essa enrolação era só para esconder a proibição real, que viria entre os últimos parágrafos do documento. Como diz o texto: "Nas dependências das salas de aula e laboratórios será vedado o uso de bonés, chinelos, shorts, mini-saia e mini-blusa". E o artigo 14 não dispensa que “deverá sempre ser observada, em quaisquer horários, a apresentação conveniente e adequada a todos”.
Uma clara repressão moral que – como as câmeras (presentes em todas as salas de aula no campus de Araraquara) e as catracas (já existentes em Araçatuba para entrada na faculdade) – avança. Como a PM, que entrou pela terceira vez na universidade (na última para reprimir uma festa na Unesp Bauru), pode-se prever o avanço de proibições como a de Araçatuba para os demais campus da Unesp. Ou seja, essa proibição abre um grave precedente. Não se pode esquecer que na Unesp, fragmentada como é, toda forma de repressão é testada em um campus e depois avança para os outros.
Estudantes são perseguidos por organizar festa
No dia 9 de agosto foi emitida uma portaria pelo diretor do campus da Unesp de Bauru, Roberto Deganutti (diretor da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação), para iniciar processo administrativo contra os seguintes alunos: Diego (Dacel), Carmen (CAPSI), Henrique (estudante da pós e ex-CAPSI) e um ex-aluno de Física participante da pós-graduação, cujo nome não foi declarado. A justificativa para o processo administrativo foi a festa ocorrida no mês de junho deste ano, que protestava contra a recente proibição de cartazes por uma portaria do próprio Roberto Deganutti, além de defender a permanência estudantil e apoiar a greve dos funcionários.
Pela burocracia da Unesp, uma portaria é necessária para conduzir um processo administrativo contra o que se julga um “problema" para o campus. Tal portaria pode resultar em sindicância, a qual pode resultar desde suspensão até a expulsão. Para conduzir tal processo administrativo, são convocados para a comissão professores (burocratas) e funcionários. Ou seja, não há estudantes!
A festa, o motivo do processo administrativo, havia sido proibida por uma portaria anterior, que não permite a permanência no campus depois das 24h (regra que curiosamente não é utilizada contra os professores que pesquisam à noite e é praticada, em relação aos estudantes, desde as 23h, ou seja, uma hora antes de seu período limite, contrariando a si própria). A festa foi cercada por três viaturas da PM desde as 22h30 enquanto outras três circulavam pelo campus e havia mais duas rondando por fora da Unesp. As atitudes da própria direção infringiram a portaria, pois se utilizaram da polícia para restringir a passagem e fechar os portões muito antes da hora esperada.
As atitudes do diretor mostram muito bem sua disposição para o diálogo com os estudantes e para fazer regras “justas”, que nem ele e sua corporação de burocratas seguem.
Araraquara: festas serão proibidas nas moradias
Um novo regimento está sendo discutido para as moradias estudantis dos vários campi da Unesp. Em Araraquara será discutido em Congregação no dia 23 de agosto. Em uma Congregação anterior isto já resultou em sugestões para esse novo regimento, que não só proibiam festas, mas sujeitavam à expulsão seus organizadores, além de estabelecer normas para a organização em assembléia.
Fica claro que um novo conjunto de normas, discutido internamente, não irá significar qualquer avanço na autonomia dos estudantes, mas maior interferência da burocracia na organização estudantil nas moradias. Mas quem manda na moradia é quem mora nela, são os estudantes! A moradia é um Território Livre!