MOVIMENTO NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 
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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

TS TERRITÓRIO LIVRE VER CAPA DA EDIÇÃO #181

GREVE NA USP

Negociações ou armadilhas?

J.M.

20/11/2011

Na última assembleia dos estudantes da USP (17/11), diretores do DCE encaminharam à mesa uma proposta de composição para uma comissão de negociação para se reunir com representantes da Reitoria.

A proposta foi uma resposta imediata à declaração do reitor João Grandino Rodas à imprensa, no dia anterior, de que não compareceria à audiência pública chamada pelo DCE mas poderia receber um grupo de estudantes.

A partir da declaração de Rodas, é possível deduzirmos, como a atual gestão do DCE, que ele está aberto a negociar com os estudantes. Sim, é possível – desde que finjamos não saber que haviam negociações abertas uma semana antes, e que elas foram fechadas pela truculenta invasão da tropa de choque na universidade! Mas o DCE sabe muito bem disso.

Os diretores do DCE sabem muito bem que foi Rodas quem fechou as negociações com o movimento durante a ocupação da Reitoria, e sabem muito bem qual era a “proposta” de Rodas para os estudantes. Mas, apesar de Rodas não ter feito nenhuma proposta nova, o DCE já está propondo “negociar” com Rodas. Por quê?

A primeira armadilha de Rodas

Para responder essa pergunta e preparar o movimento estudantil, pode ser últil lembrar a armadilha preparada por Rodas na negociação anterior, em conjunto com a Diretoria da FFLCH e setores do próprio movimento estudantil.

A proposta de Rodas nas duas reuniões de negociação durante a ocupação da Reitoria era criar grupos de trabalho para alterar o convênio USP-PM e para rever os processos administrativos contra estudantes e funcionários. Não à toa os estudantes não aceitaram a “proposta”: Rodas não se comprometia com absolutamente nada e, depois que a ocupação terminasse, poderia manter as coisas como bem entendesse.

Alguns dias antes da negociação entre estudantes e Reitoria, ainda durante a ocupação da Diretoria da FFLCH, a proposta de rever o convênio – e não revogá-lo, como querem os estudantes – já havia aparecido no comunicado de 31/10 da Congregação da FFLCH:

“A Congregação reconhece que os termos do convênio firmado entre a USP e a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo são vagos, imprecisos e não preenchem as expectativas da comunidade uspiana por segurança adequada”. E mais adiante: “… [a Congregação] se propõe a realizar gestões junto à superior administração visando reavaliação do protocolo entre a USP e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de S. Paulo.”

Coincidência? Parecia ser, até que, pouco depois da ocupação da Reitoria, foi divulgado um email do assessor técnico do Gabinete do reitor, José Clóvis de Medeiros Lima, direcionado ao próprio Rodas. No email entitulado “Relato da reunião realizada hoje com algumas lideranças estudantis na História”, Clóvis descreve uma reunião ocorrida em 28/10 – três dias antes da Congregação da FFLCH – entre professores e “setores organizados do movimento estudantil”.

O objetivo da reunião articulada por Rodas e outros professores seria “colocar fim à invasão do prédio da Administração da FFLCH”. A estratégia acordada entre os agentes diretos da Reitoria e as “lideranças estudantis” é resumida em três pontos: 1) “acuar os radicais” com críticas da Congregação da FFLCH à ocupação; 2) reformar o estatuto da universidade; e 3) criar um fórum sobre segurança.

Sobre o fórum de segurança, escreve Clóvis a Rodas: “A proposta deles é que o sr. revogue o convênio com a PM, porém discuti com eles que isso é pouco provável que ocorra (…). Uma proposta que acredito que a Congregação pode encaminhar e que eles acharam interessante é que um Fórum Permanente de Segurança possa ser constituído com a presença de representantes deles próprios, da PM, de ilustres professores da USP e representantes dos funcionários”.

Ou seja, a proposta de apenas rever o convênio veio do próprio assessor de Rodas! Eis a labiríntica manobra: uma proposta vinda do próprio reitor, plantada no movimento estudantil e defendida pela Congregação da FFLCH, aparece na negociação como uma “concessão do reitor aos estudantes”. Rodas assina o convênio, Rodas propõe alterar o convênio, Rodas aceita alterar o convênio. Quanto diálogo!

A próxima armadilha?

Se o ponto 3 da estratégia dos burocratas já ficou claro nas negociações anteriores, logo pode aparecer também o ponto 2, a reforma do estatuto. “Coincidentemente”, na última assembleia, além de defender a comissão de negociação, o DCE defendeu a inclusão de um novo ponto entre os eixos da greve estudantil: “por uma estatuinte universitária”.

Vejamos o que nos diz o senhor Clóvis:

“Eles falam numa estatuinte, mas acho que se o sr. propuser uma reforma no Estatuto que contemple a proporcionalidade prevista na LDB [participação estudantil ligeiramente maior] e que a eleições (sic) para Reitor e Diretores de Unidades ocorram em dois turnos, nos quais todos os Conselhos votem e os três mais votados componham a lista (sic). Isso eu acredito que eles topam”.

Poderíamos responder: caros senhores Clóvis, Rodas, e ilustríssimas “lideranças estudantis” que negociam pelas costas dos estudantes, não toparemos! A greve é pela derrubada do convênio, e não aceitamos enrolação!