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A barbárie capitalista avança em 2010: avança a crise da direção revolucionária

Publicado em 24.01.2010
por Conselho Editorial

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Leon Trotsky colocava, já nos anos 30 do século XX, que as forças produtivas haviam parado de crescer e que as condições para a derrubada do capitalismo estavam dadas. Porém, segundo ele, o regime capitalista subsistia somente graças à crise da direção revolucionária. Que dizer, hoje, no fim desta primeira década do século XXI? Que dizer, hoje, neste começo de 2010?

Somente os permanentes conflitos no Oriente Médio, a opressão militar que sofre a população palestina, as guerras do Iraque e do Afeganistão, já seriam sinais suficientes da crise que toma conta do modo de produção capitalista, apenas sustentado pela indústria bélica, pela destruição e reposição subseqüente de forças produtivas que são constantemente dilaceradas de forma irracional. Cada guerra localizada, assim como mesmo cada catástrofe natural são sempre bem-vindas para propiciar a reconstrução. Exemplos recentes não faltam: a destruição de Nova Orleans e o tsunami na Indonésia são grandes negócios que, como as guerras —desde a II Guerra Mundial—, exigem a reposição das forças produtivas destruídas por bombas ou por acidentes naturais que poderiam ter sido, senão evitados totalmente, ao menos minimizados com medidas preventivas. Agora foi a vez do Haiti.

Cerca de 70% do país foi destruído pelo recente terremoto e logo surge a “ajuda” internacional. Ocorre então uma grande corrida, repleta de interesses econômicos, para a reposição do processo de destruição que se deixou acontecer e agravar de forma passiva. Diante da crise absoluta que se deixou instaurar, exige-se, evidentemente, a ação militar. Fala-se em 10 a 11 mil soldados americanos já deslocados para a região, além das tropas da ONU já existentes que, comandadas pelo Brasil de Lula, devem ser reforçadas com o aumento do contingente militar.

Enquanto boa parte da população haitiana procura desesperadamente comida e água, outra parte tenta sair do país. Diante disso, os EUA encontram um bom pretexto para não desativar a sua base militar e prisão em Cuba. Guantánamo —que, conforme Obama, iria ser fechada em começo de 2010— continuará existindo para refugiar os haitianos. De acordo com o vice-almirante da Marinha americana, Thomas Copeman, aproximadamente cem barracas, cada uma para dez pessoas, foram montadas, e os norte-americanos já dispõem de mais 1.000 barracas, preocupados em impedir que haitianos migrem para os EUA.

Como se vê, no caso do Haiti, estamos diante da ausência ou falência total do Estado local. No entanto, apesar da miséria da população não ocorre uma situação revolucionária. Evidentemente, as forças militares estrangeiras garantem a segurança da reduzida classe dominante, porém, mesmo assim, o principal fator que impede a insurreição é a ausência de uma direção revolucionária no país e mesmo internacional que se oponha às forças militares externas intervencionistas.

Se este caso do Haiti é uma situação extrema, no entanto, conjunturas similares de fragilidade do Estado capitalista-burguês se espalham pelo mundo sem que ocorram situações propriamente revolucionárias. Múltiplos exemplos podem ser lembrados nestes últimos anos, sobretudo, na África e mesmo na América Latina. Ainda esta semana, a Nigéria, um país populoso, com mais de 100 milhões de habitantes, e repleto de contradições, apresentou um agravamento nos seus freqüentes conflitos étnicos, com dezenas de mortos. Conforme recentes notícias, 17.000 pessoas foram obrigadas a fugir de suas casas diante de choques entre cristãos e muçulmanos. No entanto, como no ano 2000, quando aconteceram centenas de mortes em conflitos similares, as contradições não conduzem à construção de uma direção revolucionária que possa apresentar alguma perspectiva histórica para o país.

Catástrofes de todo tipo se espalham pelo mundo, e mesmo regiões relativamente desenvolvidas, como o estado de São Paulo no Brasil, assistem passivamente à ocorrência de situações absurdas. As recentes chuvas que vêm acontecendo desde dezembro de 2009 já provocaram no estado de São Paulo cerca de 60 mortos, 3.500 desabrigados e 17.300 desalojados. Acrescente-se que 23 cidades do Estado foram afetadas por enchentes, sendo que 3 decretaram calamidade pública.

Tais catástrofes, de São Paulo ao Haiti, passando pela Nigéria, Indonésia e Nova Orleans, no entanto, não são propriamente naturais e sim, muito mais, expressão do esgotamento total do modo de produção capitalista, cujas forças produtivas imensas não podem ser mais contidas pelas atuais relações de produção, que se apropriam de forma privada da imensa potencialidade produtiva da humanidade. Por trás dessas catástrofes, por trás da crise econômica mundial, por trás do desemprego em massa, estão as contradições estruturais de um sistema produtivo que não é capaz mais de desenvolver as forças produtivas sem destruí-las.

Este processo fica claro na crescente concentração cada vez maior de capital, que significa a expropriação não só da classe trabalhadora, mas também dos próprios expropriadores. Exemplos não faltam. Basta lembrar o recente processo no Brasil da ThyssenKrupp, multinacional de origem alemã, composta pelos grupos Thyssen e Krupp, ambos com longa história, envolvidos com a indústria bélica e com financiamentos obscuros, que promoveram a ascensão do partido nazista no período que antecedeu a II Guerra Mundial. Hoje, com financiamentos que envolvem o banco estatal brasileiro BNDES, a ThyssenKrupp CSA praticamente está absorvendo parte da mão-de-obra da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) situada em Minas Gerais, além de trazer mão-de-obra da China, treinada na Alemanha. A nova companhia está desenvolvendo no Rio de Janeiro um gigantesco pólo siderúrgico jamais visto no país. A ThyssenKrupp CSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico) é composta pelo ThyssenKrupp (90%), pela Companhia Vale do Rio Doce (10%), tendo colaboração ainda da empresa chinesa Citic, da Alstom, que atua nas áreas de energia e transporte, assim como da Andrade Gutierrez e da Carioca Engenharia que ficaram encarregadas da construção do porto.

O mega empreendimento desempregará 8.000 pescadores e cerca de 48.000 pessoas que sobreviviam da pesca. O líder da resistência dos pescadores, Oliveira, está sendo ameaçado de morte e está sob tutela do programa de proteção aos defensores dos direitos humanos do governo federal brasileiro. Outras centenas de casos similares de concentração e expropriação podem ser lembrados. Para ficarmos somente no Brasil, podemos citar o caso da Braskem, que anunciou a incorporação da rival Quattor, em uma operação que cria a maior petroquímica das Américas e oitava do mundo. A empresa fará um aumento de capital de até R$ 5 bilhões, com garantia de aporte de R$ 3,5 bilhões pelos dois principais sócios, Odebrecht e Petrobras. Similarmente, o Bradesco informou esta semana que fechou um memorando de entendimentos com o grupo controlador do Ibi Services e da RFS Human Management para aquisição dessas sociedades, implicando no controle da C&A México pelo prazo de 20 anos.

Diante de todas essas catástrofes e contradições do sistema capitalista, diante da constante destruição de forças produtivas, diante do avanço do processo de expropriação dos próprios expropriadores, no entanto, vemos a esquerda se dissolvendo no mundo inteiro, cada vez mais afastada do marxismo e do trotskismo, seduzida por projetos cada vez mais conciliadores, centristas, oscilantes e contraditórios.

Sobretudo, o setor “trotskista pablista” (os herdeiros de Michel Pablo, E. Mandel e Bensaid, agora falecido) conhecido como “Secretariado Unificado” que no Brasil é representado principalmente pelo PSOL, realizará agora em fevereiro de 2010 um congresso intitulado "Décimo Sexto Congresso da IV Internacional”. No seu informe (http://www.enlace.org.br/internacional/el-significado-del-xvi-congreso-de-la-iv-internacional) escreve François Sabado:

O Bloco de Esquerda em Portugal, a Aliança Verde-Vermelha na Dinamarca, o PSOL no Brasil, as correntes que estão na construção dum novo partido dos trabalhadores na Coréia do Sul, o Labour Party no Paquistão, o Partido do Trabalho (PPP) polaco, as correntes de esquerda do Die Linke alemão ou o NPA em França constituem cada um à sua maneira formas de organização da esquerda anticapitalista.”

E acrescenta o mesmo autor, apontando de maneira clara as últimas inovações teóricas revisionistas:

Nalguns países da América Latina ou África esta questão pode ser colocada mediante o estabelecimento de relações com as forças do nacionalismo radical ou os revolucionários indígenas através do estabelecimento de frentes antiimperialistas. Estes são espaços de reagrupamento das forças revolucionárias.”

Particularmente, são significativas as inclusões nessa chamada “IV Internacional” do NPA da França (originado na antiga Liga Comunista Revolucionária) e do PSOL brasileiro, junto a "nacionalismos radicais” e "revolucionários indígenas". Para ficarmos somente com o PSOL do Brasil, estamos agora, neste momento, vendo as vacilações ideológicas privilegiadas que vive esse agrupamento diante das próximas eleições presidenciais brasileiras.

Como se sabe, Heloísa Helena renunciou à sua candidatura à presidência da república para concorrer a uma vaga no Senado. Com isto, o PSOL decidiu apoiar a candidatura de Marina Silva do PV, partido ao qual pertence o filho do famigerado José Sarney! Nestes dias, no entanto, o PV do Rio de Janeiro, através da articulação de Gabeira ao governo do estado, realizou acordo com o PSDB. Diante disso, o PSOL, dizendo retornar aos seus princípios, deu meia-volta e resolveu re-lançar uma candidatura própria à presidência da república.

Ora, somente essas manobras arrojadas, com PV e PSDB, falam por si mesmas, e nem sequer necessitam maiores comentários... Tais manobras escancaram a crise absoluta da direção do PSOL e da própria articulação internacional que ainda suja o nome de Trotsky chamando-se a si própria de forma equívoca de “IV Internacional”.

No caso do Brasil, curiosamente, diante dessas manobras arrojadas do PSOL, resta saber para onde vai agora o PSTU, partido da LIT, a Liga Internacional dos Trabalhadores (herdeiros de Nahuel Moreno), também auto-denominada "trotskista”. Quando o PSOL resolveu apoiar Marina Silva do PV, o PSTU lançou a candidatura própria de José Maria à presidência da república. O candidato realizou já uma série de comícios em diversos estados brasileiros. Diante do recente recuo do PSOL, que fará agora o PSTU? Jogará fora novamente a candidatura de José Maria e voltará a apoiar a chamada "Frente de Esquerda” com o PSOL e PCB?

Como se vê, mais do que nunca, sobretudo no Brasil, fica escancarada a absoluta crise da direção revolucionária. Como dizia Trotsky, já nos anos 30, tal crise consiste no problema maior da nossa época histórica. As condições objetivas da revolução, já dizia ele então, começam a apodrecer. Que podemos dizer hoje diante dos milhares de cadáveres que se amontoam nas ruas do Haiti e de outras partes do mundo?

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Publicado em 25.04.2010

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