Leon Trotsky colocava, já nos anos 30
do século XX, que as forças produtivas haviam parado de crescer e
que as condições para a derrubada do capitalismo estavam dadas.
Porém, segundo ele, o regime capitalista subsistia somente graças à
crise da direção revolucionária. Que dizer, hoje, no fim desta
primeira década do século XXI? Que dizer, hoje, neste começo de
2010?
Somente os permanentes conflitos no
Oriente Médio, a opressão militar que sofre a população
palestina, as guerras do Iraque e do Afeganistão, já seriam sinais
suficientes da crise que toma conta do modo de produção
capitalista, apenas sustentado pela indústria bélica, pela
destruição e reposição subseqüente de forças produtivas que são
constantemente dilaceradas de forma irracional. Cada guerra
localizada, assim como mesmo cada catástrofe natural são sempre
bem-vindas para propiciar a reconstrução. Exemplos recentes não
faltam: a destruição de Nova Orleans e o tsunami na Indonésia são
grandes negócios que, como as guerras —desde a II Guerra Mundial—,
exigem a reposição das forças produtivas destruídas por bombas ou
por acidentes naturais que poderiam ter sido, senão evitados
totalmente, ao menos minimizados com medidas preventivas. Agora foi a
vez do Haiti.
Cerca de 70% do país foi destruído
pelo recente terremoto e logo surge a “ajuda” internacional.
Ocorre então uma grande corrida, repleta de interesses econômicos,
para a reposição do processo de destruição que se deixou
acontecer e agravar de forma passiva. Diante da crise absoluta que se
deixou instaurar, exige-se, evidentemente, a ação militar. Fala-se
em 10 a 11 mil soldados americanos já deslocados para a região,
além das tropas da ONU já existentes que, comandadas pelo Brasil de
Lula, devem ser reforçadas com o aumento do contingente militar.
Enquanto boa parte da população
haitiana procura desesperadamente comida e água, outra parte tenta
sair do país. Diante disso, os EUA encontram um bom pretexto para
não desativar a sua base militar e prisão em Cuba. Guantánamo
—que, conforme Obama, iria ser fechada em começo de 2010—
continuará existindo para refugiar os haitianos. De acordo com o
vice-almirante da Marinha americana, Thomas Copeman, aproximadamente
cem barracas, cada uma para dez pessoas, foram montadas, e os
norte-americanos já dispõem de mais 1.000 barracas, preocupados em
impedir que haitianos migrem para os EUA.
Como se vê, no caso do Haiti, estamos
diante da ausência ou falência total do Estado local. No entanto,
apesar da miséria da população não ocorre uma situação
revolucionária. Evidentemente, as forças militares estrangeiras
garantem a segurança da reduzida classe dominante, porém, mesmo
assim, o principal fator que impede a insurreição é a ausência de
uma direção revolucionária no país e mesmo internacional que se
oponha às forças militares externas intervencionistas.
Se este caso do Haiti é uma situação
extrema, no entanto, conjunturas similares de fragilidade do Estado
capitalista-burguês se espalham pelo mundo sem que ocorram situações
propriamente revolucionárias. Múltiplos exemplos podem ser
lembrados nestes últimos anos, sobretudo, na África e mesmo na
América Latina. Ainda esta semana, a Nigéria, um país populoso,
com mais de 100 milhões de habitantes, e repleto de contradições,
apresentou um agravamento nos seus freqüentes conflitos étnicos,
com dezenas de mortos. Conforme recentes notícias, 17.000 pessoas
foram obrigadas a fugir de suas casas diante de choques entre
cristãos e muçulmanos. No entanto, como no ano 2000, quando
aconteceram centenas de mortes em conflitos similares, as
contradições não conduzem à construção de uma direção
revolucionária que possa apresentar alguma perspectiva histórica
para o país.
Catástrofes de todo tipo se espalham
pelo mundo, e mesmo regiões relativamente desenvolvidas, como o
estado de São Paulo no Brasil, assistem passivamente à ocorrência
de situações absurdas. As recentes chuvas que vêm acontecendo
desde dezembro de 2009 já provocaram no estado de São Paulo cerca
de 60 mortos, 3.500 desabrigados e 17.300 desalojados. Acrescente-se
que 23 cidades do Estado foram afetadas por enchentes, sendo que 3
decretaram calamidade pública.
Tais catástrofes, de São Paulo ao
Haiti, passando pela Nigéria, Indonésia e Nova Orleans, no entanto,
não são propriamente naturais e sim, muito mais, expressão do
esgotamento total do modo de produção capitalista, cujas forças
produtivas imensas não podem ser mais contidas pelas atuais relações
de produção, que se apropriam de forma privada da imensa
potencialidade produtiva da humanidade. Por trás dessas catástrofes,
por trás da crise econômica mundial, por trás do desemprego em
massa, estão as contradições estruturais de um sistema produtivo
que não é capaz mais de desenvolver as forças produtivas sem
destruí-las.
Este processo fica claro na crescente
concentração cada vez maior de capital, que significa a
expropriação não só da classe trabalhadora, mas também dos
próprios expropriadores. Exemplos não faltam. Basta lembrar o
recente processo no Brasil da ThyssenKrupp, multinacional de origem
alemã, composta pelos grupos Thyssen e Krupp, ambos com longa
história, envolvidos com a indústria bélica e com financiamentos
obscuros, que promoveram a ascensão do partido nazista no período
que antecedeu a II Guerra Mundial. Hoje, com financiamentos que
envolvem o banco estatal brasileiro BNDES, a ThyssenKrupp CSA
praticamente está absorvendo parte da mão-de-obra da CSN
(Companhia Siderúrgica Nacional) situada em Minas Gerais, além de
trazer mão-de-obra da China, treinada na Alemanha. A nova companhia
está desenvolvendo no Rio de Janeiro um gigantesco pólo siderúrgico
jamais visto no país. A ThyssenKrupp CSA (Companhia Siderúrgica do
Atlântico) é composta pelo ThyssenKrupp (90%), pela Companhia Vale
do Rio Doce (10%), tendo colaboração ainda da empresa chinesa
Citic, da Alstom, que atua nas áreas de energia e transporte, assim
como da Andrade Gutierrez e da Carioca Engenharia que ficaram
encarregadas da construção do porto.
O mega empreendimento desempregará
8.000 pescadores e cerca de 48.000 pessoas que sobreviviam da pesca.
O líder da resistência dos pescadores, Oliveira, está sendo
ameaçado de morte e está sob tutela do programa de proteção aos
defensores dos direitos humanos do governo federal brasileiro. Outras
centenas de casos similares de concentração e expropriação podem
ser lembrados. Para ficarmos somente no Brasil, podemos citar o caso
da Braskem, que anunciou a incorporação da rival Quattor, em uma
operação que cria a maior petroquímica das Américas e oitava do
mundo. A empresa fará um aumento de capital de até R$ 5 bilhões,
com garantia de aporte de R$ 3,5 bilhões pelos dois principais
sócios, Odebrecht e Petrobras. Similarmente, o Bradesco informou
esta semana que fechou um memorando de entendimentos com o grupo
controlador do Ibi Services e da RFS Human Management para aquisição
dessas sociedades, implicando no controle da C&A México pelo
prazo de 20 anos.
Diante de todas essas catástrofes e
contradições do sistema capitalista, diante da constante destruição
de forças produtivas, diante do avanço do processo de expropriação
dos próprios expropriadores, no entanto, vemos a esquerda se
dissolvendo no mundo inteiro, cada vez mais afastada do marxismo e do
trotskismo, seduzida por projetos cada vez mais conciliadores,
centristas, oscilantes e contraditórios.
Sobretudo, o setor “trotskista
pablista” (os herdeiros de Michel Pablo, E. Mandel e Bensaid, agora
falecido) conhecido como “Secretariado Unificado” que no Brasil é
representado principalmente pelo PSOL, realizará agora em fevereiro
de 2010 um congresso intitulado "Décimo Sexto Congresso da IV
Internacional”. No seu informe
(http://www.enlace.org.br/internacional/el-significado-del-xvi-congreso-de-la-iv-internacional)
escreve François Sabado:
“O Bloco de Esquerda em Portugal,
a Aliança Verde-Vermelha na Dinamarca, o PSOL no Brasil, as
correntes que estão na construção dum novo partido dos
trabalhadores na Coréia do Sul, o Labour Party no Paquistão, o
Partido do Trabalho (PPP) polaco, as correntes de esquerda do Die
Linke alemão ou o NPA em França constituem cada um à sua maneira
formas de organização da esquerda anticapitalista.”
E acrescenta o mesmo autor, apontando
de maneira clara as últimas inovações teóricas revisionistas:
“Nalguns países da América
Latina ou África esta questão pode ser colocada mediante o
estabelecimento de relações com as forças do nacionalismo radical
ou os revolucionários indígenas através do estabelecimento de
frentes antiimperialistas. Estes são espaços de
reagrupamento das forças revolucionárias.”
Particularmente, são significativas as
inclusões nessa chamada “IV Internacional” do NPA da França
(originado na antiga Liga Comunista Revolucionária) e do PSOL
brasileiro, junto a "nacionalismos radicais” e
"revolucionários indígenas". Para ficarmos somente com o
PSOL do Brasil, estamos agora, neste momento, vendo as vacilações
ideológicas privilegiadas que vive esse agrupamento diante das
próximas eleições presidenciais brasileiras.
Como se sabe, Heloísa Helena renunciou
à sua candidatura à presidência da república para concorrer a uma
vaga no Senado. Com isto, o PSOL decidiu apoiar a candidatura de
Marina Silva do PV, partido ao qual pertence o filho do famigerado
José Sarney! Nestes dias, no entanto, o PV do Rio de Janeiro,
através da articulação de Gabeira ao governo do estado, realizou
acordo com o PSDB. Diante disso, o PSOL, dizendo retornar aos seus
princípios, deu meia-volta e resolveu re-lançar uma candidatura
própria à presidência da república.
Ora, somente essas manobras arrojadas,
com PV e PSDB, falam por si mesmas, e nem sequer necessitam maiores
comentários... Tais manobras escancaram a crise absoluta da direção
do PSOL e da própria articulação internacional que ainda suja o
nome de Trotsky chamando-se a si própria de forma equívoca de “IV
Internacional”.
No caso do Brasil, curiosamente, diante
dessas manobras arrojadas do PSOL, resta saber para onde vai agora o
PSTU, partido da LIT, a Liga Internacional dos Trabalhadores
(herdeiros de Nahuel Moreno), também auto-denominada "trotskista”.
Quando o PSOL resolveu apoiar Marina Silva do PV, o PSTU lançou a
candidatura própria de José Maria à presidência da república. O
candidato realizou já uma série de comícios em diversos estados
brasileiros. Diante do recente recuo do PSOL, que fará agora o PSTU?
Jogará fora novamente a candidatura de José Maria e voltará a
apoiar a chamada "Frente de Esquerda” com o PSOL e PCB?
Como se vê, mais do que nunca,
sobretudo no Brasil, fica escancarada a absoluta crise da direção
revolucionária. Como dizia Trotsky, já nos anos 30, tal crise
consiste no problema maior da nossa época histórica. As condições
objetivas da revolução, já dizia ele então, começam a apodrecer.
Que podemos dizer hoje diante dos milhares de cadáveres que se
amontoam nas ruas do Haiti e de outras partes do mundo?
fale!
topo
volte