Originalmente
publicado em 25 de janeiro de 2010, no WSWS
Na pior
recessão da Espanha em mais de 50 anos, os números oficiais para o
final de 2009 mostram quase 4 milhões de pessoas desempregadas. O
número oficial de desemprego de 19,4 por cento representa um aumento
de quase 25% em um ano. A recessão atingiu mais os jovens
trabalhadores, com o aumento da taxa de desemprego de 17,5% há três
anos para mais de 40% hoje. Um economista da OCDE estima que 85% dos
empregos perdidos eram contratos temporários, afetando algumas das
seções mais mal pagas e mais vulneráveis dos trabalhadores.
Cerca de 800.000
pessoas perderam
seus empregos em 2009, além de quase um milhão em 2008. Segundo as
últimas estimativas, a economia espanhola diminuiu 3,6% no mesmo
período. As províncias de Valência, Castilla-La Mancha e as Ilhas
Canárias são as mais afetadas.
O Ministério do
Trabalho
informou que os números de procura de auxílio-desemprego aumentaram
para 55.000 em dezembro e os pedidos de seguro-desemprego subiram
para os níveis mais elevados desde 1997. O Fundo Monetário
Internacional previu que a taxa global de desemprego chegará a 20%
até ao final de 2010.
O governo
do Partido Socialista (PSOE) alegou que o pior já passou, mas tais
garantias farão pouco para acalmar os receios de que o país paira à
beira de um abismo da depressão. Uma pesquisa recente colocou o
desemprego como a principal preocupação entre os espanhóis,
ranking muito superior ao terrorismo e à imigração.
Em pouco mais de
dois anos a taxa de desemprego do país subiu
para quase o dobro da média dos 16 países da zona do euro. Cerca de
15,7 milhões de pessoas estão sem trabalho em toda a zona do euro,
que agora vê a sua taxa média de desemprego atingir o topo de 10%.
Isso
mal menciona os níveis de desemprego que estão sendo alcançados. A
Espanha tem a segunda pior taxa de desemprego na região, atrás dos
22,3% da
Letônia.
Todos os países da zona do euro viram o aumento do desemprego no ano
passado, com a Estônia, Letônia e Lituânia observando o nível de
desemprego mais que duplicar naquele período. O desemprego dos
menores de 25 anos é de 43,8% na Espanha. Esta
é a pior na região, e mais do dobro da média da zona euro.
As perspectivas
para
a Espanha em 2010 são, na melhor das hipóteses, piores do que no
ano passado. Muito do crescimento recente da Espanha antes da
recessão — comemorado até recentemente como um exemplo para as
chamadas economias emergentes da Europa Oriental — dependeu do
crédito barato e do boom imobiliário altamente especulativo. O
maior aumento do desemprego foi na indústria da construção, que
caiu bruscamente no último período, deixando muitos projetos de
habitação inacabados. Ao menos 1 milhão de casas permanecem à
venda, com preços caindo continuamente em uma taxa recorde. Os
economistas prevêem que o mercado imobiliário pode estar até 55%
sobrevalorizado.
Muitos trabalhos
de construção eram
temporários e mal pagos. Eles em grande parte atraíam trabalhadores
jovens e imigrantes, os chamados mileuristas,
empregados com salários de cerca de €1.000 por mês. O governo
espanhol tem endurecido sua posição sobre a imigração, reduzindo
o número de vistos de trabalho em mais de 90%, bem como tem
oferecido incentivos financeiros para encorajar os imigrantes
desempregados a regressarem aos seus países de origem. Com ganhos
tipicamente baixos neste grupo, e a oferta de crédito cortada pelos
credores relutantes, casas vazias provavelmente não encontrarão
compradores num futuro próximo.
O colapso do
setor de
construção por si só não pode explicar uma taxa tão elevada de
desemprego. Os setores de serviços e industriais não estão muito
atrás, e eles representam uma parte considerável da força de
trabalho global. O problema é agravado por um euro forte e preços
elevados de energia, que tornaram as exportações de bens
manufaturados menos competitivas.
O economista
Andrew Harker, comentou: "Os
dados do PMI (Índice de Produção e Manufaturados) de dezembro
completa um ano terrível para o setor de manufaturados espanhol. A
saída diminuiu a cada mês, fora um aumento marginal em julho, com a
procura mostrando pouquíssimos sinais de recuperação. A debilidade
da demanda, amplificada por terríveis condições do mercado de
trabalho na Espanha, significa que, enquanto os custos de produção
estão subindo, as empresas são obrigadas a continuar a oferecer
descontos, prejudicando ainda mais as margens."
Outros
indicadores econômicos
apontam na mesma direção. Segundo
as últimas informações do Banco da Espanha, a dívida externa
aumentou para € 955 bilhões, cerca de 90 por cento do PIB. O
empréstimo do governo também aumentou para cerca de 13% do PIB.
Levando todos esses relatórios em consideração, a Espanha está à
beira de uma depressão.
Existe o perigo
de
uma espiral deflacionária, onde os preços e os salários caem
juntos, levando a uma contração prolongada que poderá levar anos
para a recuperação. Essa perspectiva ameaçadora tem sido agravada
pela relutância dos bancos em emprestar com o intuito de revitalizar
as pequenas empresas que lutam após a crise financeira do ano
passado.
O governo do
PSOE de José Luis Rodriguez Zapatero, consciente de sua popularidade
em
queda e com uma eleição geral não muito longe, anunciou que está
colocando "a criação de emprego" no centro da sua
estratégia econômica. O direitista Partido Popular (PP)
concentrou-se nas falhas do PSOE em resolver o problema.
O
Secretário-Geral do Emprego,
Maravillas Rojo, assegurou ao público que "a principal
preocupação e objetivo do governo é reduzir o desemprego ao longo
de 2010." Lutando por algo mais positivo, acrescentou, "a
destruição dos empregos continua a tornar-se mais branda.”
Apesar dessas
afirmações vazias,
as tentativas de revitalização dos postos de trabalho através de
medidas de estímulo fiscal ao longo do ano passado tiveram pouco
efeito na contenção da maré. Um investimento de € 8 mil milhões
para obras de infra-estrutura pública já foi reduzido pela metade e
agora mais do que nunca é provável que não se concretize. Essas
medidas, que visavam à criação de 400.000 empregos pouco
qualificados até o final do ano passado, foram um completo fracasso.
Um plano mais
ambicioso, que
envolve grandes investimentos em habitação popular, educação e
novas indústrias — um pacote de estímulo keynesiano sendo exigido
por alguns economistas — tem sido rejeitado por toda a elite
política. Esse é o caso não só na Espanha, mas em toda a região
do euro. Há um consenso político de que o empobrecimento da maioria
da população é necessário para recuperar a rentabilidade para o
capitalismo espanhol. A retórica da "valorização" oculta
a realidade das maiores dificuldades para a maioria dos trabalhadores
espanhóis e europeus em 2010.
O governo do
PSOE está enfrentando
a crise, justamente quando Zapatero assume a presidência da UE. Sua
primeira ação foi a apresentação de um conjunto de medidas para
reduzir a dívida pública em toda a Europa. A chamada "Estratégia
2020” tentará modificar o atual Tratado de Lisboa. Atualmente, o
déficit orçamentário da Espanha atingiu 11%, mas o tratado
estabeleceu um déficit máximo de 3 por cento.
No
mês passado,
a Standard & Poor´s rebaixou a qualidade creditícia da Espanha
em um ponto, de AAA para AA-plus, expressando preocupação sobre o
estado das finanças públicas. Depois veio uma descida semelhante de
classificação da Grécia, em meio a alertas de medidas similares
contra a Irlanda e Portugal.
[traduzido
por movimentonn.org]
fale!
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