Após a recente crise em Dubai, um dos Emirados Árabes, que chegou a
pedir moratória de sua dívida no fim de 2009, a hipótese de quebras não somente
de bancos, como ocorrera até agora, mas também de Estados nacionais, passou a
ser levantada como muito provável. De fato, tal hipótese ronda diversas
economias européias. A situação econômica de Portugal, Irlanda, Itália, Grécia
e Espanha preocupa os seus parceiros da comunidade européia. De maneira
claramente pejorativa, esses países são chamados de “PIIGS”, ou seja, palavra
próxima de "pigs”, que significa "porcos” em inglês. Somente essa
expressão mostra a arrogância e estupidez que caracterizam a burguesia e seus
aliados pequeno-burgueses vendidos ao capital.
Um dos casos econômicos mais graves é aquele da Grécia, que causa
temor desde a crise de Dubai. Existem suspeitas de que o governo grego venha
mascarando os dados reais da sua economia. Sabe-se hoje que o seu déficit
público chega a 13% em relação ao PIB do país. Mas, para que se tenha idéia do
risco, a dívida grega atual é avaliada em US$ 406 bilhões. No caso de uma
moratória ou calote grego isso significaria um abalo muito maior do que aquele
causado pelo banco norte-americano Lehman Brothers, que em setembro de 2008
desencadeou de maneira mais grave a crise que até hoje afeta a economia
mundial.
A dívida total do Lehman, segundo alguns analistas, foi calculada
aproximadamente em um total de US$ 140 bilhões, portanto, quase 30% da dívida
da Grécia. Ora, como se vê, uma moratória ou calote desse país abalaria toda a
economia européia e provavelmente afetaria de maneira imediata países europeus
que, como Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, já estão também em situação grave.
Sem dúvida, também, em cadeia, arrastaria outros países europeus que, apesar de
mais seguros, estão longe de uma real retomada de crescimento, tais como a
Alemanha, Reino Unido e França, onde os altíssimos índices de desemprego não
apresentam melhorias significativas.
Nesse sentido, sexta-feira, 05/02/2010, as bolsas européias operaram,
quase todas, em baixa, preocupadas com as tempestades possíveis que podem ocorrer com a dívida pública de
alguns países do continente. No início da tarde, a Bolsa de Londres registrava
baixa de 1,27%, a da Alemanha caía 0,92% e o Cac 40, da Bolsa de Paris,
apresentava queda de 2,36%. Além disso, houve queda do euro em relação ao
dólar, com investimentos fugindo para os EUA à procura de maior segurança.
No entanto, apesar das tentativas de passar otimismo, a situação dos
EUA e do restante da economia mundial
não são nada confortáveis e equivalem à de países europeus considerados em
risco menor. A previsão para os déficits fiscais em 2010 são altos não somente
na Grécia, basta lembrar a Grã-Bretanha com previsão de um déficit superior a
10% de seu PIB, enquanto os Estados Unidos, por outro lado, estão longe de ser
um porto seguro. Ao contrário, os EUA vivem uma situação similar, convivendo
com um déficit também de cerca de 10%. No país, continuam crescendo os pedidos
de auxílio desemprego e calculou-se para cima a avaliação dos americanos que
teriam perdido emprego desde o início da crise: hoje fala-se em 8 milhões de
trabalhadores que foram para a rua no último período, e isto na maior economia
do mundo!
A
Situação do Brasil
Quanto ao Brasil, apesar do falso otimismo que procura passar o
governo, os recentes abalos na economia européia repercutiram por aqui de
maneira significativa. Isso transpareceu nos
índices da poderosa BM&FBovespa, sigla que significa “Bolsa de
Valores, Mercadorias e Futuros”, recentemente criada em 2008, quando da
integração entre a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) e a Bolsa de
Valores de São Paulo (BOVESPA). A unificação dessas companhias forma uma das
maiores bolsas do mundo em valor de mercado. Seria a segunda das Américas e a
maior latino-americana. Porém, neste último período, a BM&FBovespa acabou
por ficar entre as bolsas que mais foram atingidas em escala mundial. No ano de
2010, a BM&FBovespa atinge a perda de 15,04% em dólares, atrás justamente
apenas de alguns dos países europeus que vivenciam a crise de forma mais aguda,
os chamados "PIIGS”: a Espanha (-19,52%), a Grécia (-18,63%) e Portugal
(-16,85%).
Nesse sentido, são significativos os dados do último dia 04/02, quando
a Petrobras e a Vale do Rio Doce tiveram a maior queda de valor de mercado
entre empresas da América Latina e dos EUA. Segundo a Economática, em 3 de
fevereiro o valor de mercado da Petrobras era de US$ 174,637 bilhões, e passou
no dia 04/02 para US$ 162,681 bilhões, sofrendo uma perda de US$ 11,956
bilhões. Já a Vale do Rio Doce, também de um dia para o outro, teve uma queda
de US$ 135,445 bilhões para US$ 125,622 bilhões, sofrendo uma redução de US$
9,823 bilhões.
Observe-se também que, nos mesmos dias, segundo ainda a Economática, entre
as 30 maiores perdas de valor de mercado ocorridas em empresas dos Estados
Unidos e da América Latina, aparecem
outras quatro empresas brasileiras. Destacam-se o banco Santander, com
perda de US$ 4,074 bilhões, o banco Itaú Unibanco, com queda de US$ 3,644
bilhões, a fabricante de bebidas Ambev, com uma redução em valor de US$ 3,233
bilhões, e a OGX Petróleo, com uma queda de US$ 3,008 bilhões.
Para se ter uma idéia do montante de valor perdido em um dia por essas
seis empresas brasileiras juntas, que soma US$ 35,737 bilhões, esse capital
equivale quase ao valor total da empresa de investimentos norte-americana
Morgan Stanley, que estaria no dia 04/02 valendo US$ 36,202 bilhões.
Apesar desses dados que falam por si mesmos, os membros do governo
brasileiro, como sempre, minimizam os riscos e fazem discursos otimistas que
enganam a população desinformada. Nessa direção, de acordo com a agência
Reuters, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, afirmou neste dia
05/02 que estávamos diante de uma turbulência normal nos mercados, seria uma
"instabilidade natural".
E acrescentou ele: "É exatamente resultado das preocupações que
se tem hoje em função da questão de alguns países europeus, da dívida pública
que cresceu muito (...) além de uma instabilidade natural de um processo de
recuperação que existe, é real, nas economias dos países maduros, mas é um
processo sujeito a incertezas". Desprezando os riscos evidentes, ainda
disse Meirelles: "Portanto, algumas correções são naturais. É um processo
normal de uma saída de crise, com dificuldade maior ou menor de alguns países.
O importante é que no Brasil não temos esse tipo de dificuldade. O Brasil está
saindo forte."
Ora, já estamos novamente com as maiores taxas de juros do mundo e
agora com a inflação retornando. O IPC-Fipe (Índice de Preços para o consumidor
na cidade de São Paulo), calculado a partir de quem ganha entre 1 e 20 salários
mínimos apresentou em janeiro alta significativa. Passou de 0,18% em dezembro
de 2009 para 1,34% em janeiro de 2010. Ressalte-se que os aumentos caíram
principalmente sobre os alimentos e transportes, o que afeta diretamente o
poder de compra dos trabalhadores. Subiu a carne, o alho (3,21%), o açúcar cristal
(10,23%), o açúcar refinado 6,25%, o álcool combustível (11%), o ônibus
(17,40%) e em fevereiro virá o aumento do metrô e do trem em São Paulo.
Fora o ataque inflacionário aos salários, fora a permanente ameaça de
desemprego, fora o desemprego massivo já existente, fora as horas extras não
pagas, fora o emprego sem registro em carteira, a população trabalhadora é
massacrada por congestionamentos gigantescos, enchentes diárias, leptospirose,
falta de atendimento médico adequado, repressão policial nas fábricas, nas
favelas e periferias, sindicatos vendidos aos patrões e aos governos, falsas
escolas ou escolas-prisões. Mais do que nunca os trabalhadores e a juventude
revolucionária precisam se organizar nacional e internacionalmente por uma nova
sociedade.
Por um
Programa Único de Defesa dos Trabalhadores e da Juventude
Diante da crise econômica mundial que continua e se aprofunda, diante
da barbárie que avança de forma avassaladora, os trabalhadores e a juventude
não podem confiar mais na maioria dos seus sindicatos e entidades, em geral
atrelados a setores patronais ou do governo. Mais do que nunca, os
trabalhadores e a juventude devem se organizar nos seus locais de trabalho e
estudo. Devem desconfiar das suas falsas lideranças que negociam acordos e
parcerias com o capital. Devem lutar contra o desemprego, contra a rotatividade
de mão-de-obra, contra a redução dos salários. Devem lutar contra a burocracia
e todo tipo de repressão. Devem unificar a sua luta nacionalmente e
internacionalmente em torno de um programa único contra a barbárie capitalista.
Contra a inflação: escala móvel de salários! (reajuste mensal de
acordo com o aumento dos preços).
Contra o desemprego massivo: exigir frentes públicas de trabalho!
Contra as demissões e rotatividade de mão-de-obra: escala móvel das
horas de trabalho! (nenhuma demissão; exigir a divisão das horas de trabalho disponíveis
pelos trabalhadores existentes na fábrica).
Contra a repressão: liberdade total de organização e manifestação nas
fábricas, nos locais de trabalho, nas escolas e universidades!
fale!
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