Arrastava-se,
desde o final de 2008, a proposta de emenda à constituição colombiana que
possibilitaria a Álvaro Uribe, atual presidente, disputar o terceiro mandato.
Depois de muito tramitar – aprovada em dezembro de 2008 na Câmara e em abril de
2009 no Senado – foi derrubada na Corte Constitucional, em sessão do dia 26 de
fevereiro último, por 7 X 2. Assim, ao que parece, o assunto estaria encerrado.
A Corte
alegou irregularidades no processo de financiamento da campanha, bem como na
aprovação da proposta no Congresso. Todo o processo foi conturbado, sendo
denunciados casos de corrupção e compra de votos em praticamente todas as
intermediações burocráticas necessárias à tramitação. Para tanto, segundo o
líder do Partido Liberal, teriam sido gastos mais de US$ 110 milhões.
Na verdade,
todo o processo não se diferencia daquele de 2005, quando Uribe modificou a
constituição do país e reelegeu-se uma primeira vez. À época, centenas de
denúncias foram veiculadas, expondo financiamento de setores do narcotráfico e
paramilitares à campanha de Uribe. Desta vez, no entanto, a proposta não foi
vitoriosa.
Sem Uribe,
está na pauta do dia o problema da sucessão presidencial. Um grande vazio está
colocado. Depois de dois mandatos no poder, Uribe alcançou enormes índices de
popularidade, graças às dezenas de programas sociais mantidos pelo governo.
Entre eles consta o programa "Famílias em Ação", análogo ao
"Bolsa-família" de Lula, que estende-se por 99% do território
colombiano.
Com seus
programas e seu "combate ao terrorismo", Uribe elevou-se acima da
nação como um grande salvador, dando origem a um fenômeno que sociólogos do
país chamam de "uribismo", que aprofunda o problema da sucessão presidencial.
O uribismo enquanto fenômeno não é algo que desaparecerá do país tão
rapidamente e o vácuo deixado no governo abre enormes contradições.
Mas é de se
questionar: como pode Uribe, com tamanha influência no Congresso e no Senado,
com seus altos índices de popularidade, sofrer tamanha derrota na Corte
Constitucional, para a qual ele próprio apontou membros durante seus mandatos?
Ao que parece, na verdade, o terceiro mandato foi construído como
possibilidade, mas não está no plano oficial de Uribe e do enorme setor da
burguesia internacional que o colocou e o manteve no poder.
A verdade é
que o governo levado adiante por Uribe e os problemas que suscita estão além do
"uribismo" e encontram casos análogos na América Latina e em outros
países do mundo. Apresente roupagem de esquerda, como Lula, Chávez e outros;
apresente roupagem de direita, como Uribe, ainda assim trata-se de um único
fenômeno: o bonapartismo. Como afirma o revolucionário russo Leon Trotsky,
trata-se de uma forma de governo que "a decadência da sociedade
capitalista põe na ordem do dia", pois "eleva-se acima dos dois
campos beligerantes", ou seja, das classes sociais, "para proteger a
ordem e a propriedade privada, reprimir a guerra civil por meio do aparelho
militar-policial e impedir, assim, que esta reacenda".
fale!
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