“O teatro é uma lente de aumento”
Vladimir Maiakóvski
Escrita por Vladimir Maiakóvski no final de 1928, portanto a
menos de um ano do suicídio do poeta, a peça O Percevejo é um ataque direto aos
rumos que a revolução vinha tomando desde a ascensão de Stálin. Ainda que
Maiakóvski não estivesse plenamente alinhado com a Oposição de Esquerda de
Trotsky, o poeta percebia a degeneração da revolução e a combatia com suas
armas.
Na trama de O Percevejo, um jovem boêmio, Prissípkin, é
congelado nos anos iniciais da revolução e, após 50 anos, quando descongelado –
acompanhado de um percevejo que pousara em seu casaco –, vê seus hábitos mais
prosaicos como tocar, cantar, beber e fumar serem um escândalo que choca uma sociedade
completamente vigiada, em que os seres humanos mais se assemelham a frios robôs
sem emoções, nem vontades próprias.
Enquanto o inseto percevejo é o parasita que vive do sangue
roubado do homem que o abriga, Prissípkin é um parasita que vive às custas da
sociedade que o cerca. Tidos como uma ameaça, Prissípkin e o percevejo são
presos e mantidos enjaulados no Zoológico para que “os corações e almas da
nossa juventude se fortaleçam vendo estes maus exemplos!” Excursões – descritas
como os quadros do realismo socialista stalinista – são, então, organizadas
para visitar os parasitas enjaulados. Ao ver a massa de expectadores, em vão
Prissípkin – como o poeta – pergunta:
“De onde vocês vieram? Vocês são tantos. Quando vocês foram
descongelados?”
Passados 82 anos, do outro lado do mundo, aqui no Brasil, o
texto permanece espantosamente atual. Se em 1928, Prissípkin era um ataque à
burocracia stalinista e ao que viria a se transformar a sociedade soviética,
hoje, Prissípkin causa horror nos burocratas das universidades e nos aparatos
repressores desta sociedade burguesa decadente. Foi por isso que decidi levar
para o grupo Coro de Carcarás a proposta da montagem de uma das cenas da peça,
a de número 9, para percorrermos as universidades de São Paulo neste início de
ano.
A escolha mostrou-se acertada. Algumas alterações foram
necessárias. A montagem de Maiakóvski / Meyerhold era uma montagem em um teatro
convencional, com grandes cenários desenhados por Rodtchenko. Em nossa montagem
transfiguramos a peça em um agit-prop de rua. A trama foi reduzida a seus
elementos essenciais. Sem cenários, a intervenção teatral apóia-se apenas em
uma pequena jaula para uma pessoa. Os atuadores entram em cena vestidos de
preto e vermelho, aos moldes do teatro-agitação. O conceito geral foi mantido e
amplificado para a rua: placas, estandartes, os atuadores em linha, repetições,
canções e percussão do coro de tambores.
O diretor do zoológico passa a ser o burocrata da
universidade que vem exibir um “bixo enjaulado”, para servir como anti-exemplo
para os demais calouros e estudantes. Não estamos na sala de aula, ou num
teatro fechado, mas estamos num pátio aberto, num estacionamento da
universidade ou então em uma praça do centro de São Paulo, por isso a massa que
nos assiste, reage à cena, reage e protesta, xinga, aplaude. Alguns interrogam:
“por que ele está na jaula?”.
Amplificado para a rua, Prissípkin sai da jaula três vezes,
representado por 3 atuadores distintos. A cada saída, um ato de “transgressão”,
fumar, beber e beijar, cantar. Tais atos, de tão triviais, fazem o público se
perguntar: “qual o mal nisso? Ele está preso por isso?”, mas logo o próprio
público responde, dirigindo-se ao senhor diretor, “fora burocrata!” e “abaixo a
jaula!”.
Um dos Prissípkins pergunta: “por que vocês estão presos
fora da jaula?”. E a pergunta parece ecoar, uma vez que, ao interagirem com o
público, oferecendo-lhes um gole de vinho, uma tragada de cigarro ou então
roubando um beijo, os Prissípkins põem a nu o conservadorismo em que essa
juventude ainda está presa. A jaula está fora, em cada um daqueles que assiste
a essa realidade absurda de escândalos de corrupção, desemprego, exploração e
repressão nesta Rússia tropical.
A jaula está fora, em cada um daqueles que ainda assiste a
tudo e se cala.
Ao final, o coro de tambores avança sobre a arena e a
desmancha, enquanto o público vira coro, o vinho é repartido e um
parangolé-estandarte é aberto com os versos do poeta:
Dai-nos, camaradas,
uma nova arte
nova
que arranque a república da escória!
***
Essa ida às ruas demonstrou que o Coro de Carcarás pode
desenvolver grandes experimentos que vão criando a base de algo novo e
contestador.
Mas o tempo é curto!
As portas estão
abertas a todos aqueles que queiram partilhar dessa aventura e dividir os
riscos, enfrentar os desafios para ascender das catacumbas líricas às
barricadas poéticas!
fale!
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