“Com a destruição da Faculdade de Filosofia [em 1968], situada na
Rua Maria Antônia, o CRUSP passou a ser o local de grande importância para o
movimento estudantil pela segurança que oferecia às suas reuniões, assembléias
e congressos regionais.[...] O CRUSP transformou-se no Quartel General da
subversão em São Paulo.”
Encontramos esta definição do CRUSP [Conjunto Residencial dos
Estudantes da USP] entre as dezenas de páginas do Inquérito Policial Militar [IPM]
instaurado em 18 de dezembro de 1968, um dia depois que os tanques e militares
do exército cercaram o CRUSP, revistaram cada um dos apartamentos, apreenderam
livros, cadernos de anotações, jornais, e levaram centenas de estudantes
presos.
Os blocos do CRUSP, construídos para abrigar os atletas dos jogos
panamericanos, começaram a ser ocupados pelos estudantes a partir de 1963, e a
cada nova ocupação um passo adiante era dado na construção e organização
daquele território livre do movimento estudantil nacional.
Os moradores passaram por cima das resoluções que impunham uma
rígida divisão dos blocos entre homens e mulheres. Para se contrapor à
administração do conjunto feita pela reitoria, em 1967 os moradores criaram a
sua própria associação, que contava, segundo o IPM, com uma “seção de
mimeógrafos capazes de tirar 3 cópias por segundo”. A sede do DCE-Livre e da
UEE-Livre foram transferidas para lá. Peças de teatro com fortes criticas à
ditadura eram encenadas no centro de vivência. Inúmeros jornais e panfletos
circulavam pelos corredores.
O CRUSP fervia e os militares sabiam muito bem disso. Depois da
invasão pelo exército em 1968, cinco dias após o decreto do AI-5, aquele QG do
movimento estudantil foi enfraquecendo e, mesmo após novas ocupações nas
décadas seguintes, não voltou a ter a mesma forte organização.
Hoje, com 5 blocos a menos – dos 12 blocos originais, 3 foram
demolidos e 2 viraram reitoria – e a administração da COSEAS [Coordenadoria de
Assistência Social] a mais, o CRUSP foi transformado numa verdadeira prisão. O
térreo livre do projeto original foi fechado. A entrada e saída dos blocos é
controlada por vigilantes 24 horas por dia. Aqueles que não conseguem uma vaga
são encaminhados para alojamentos provisórios superlotados e mal iluminados
[como aqueles que ficam embaixo da arquibancada do centro esportivo da USP].
Aqueles que conseguem são questionados pelas assistentes sociais se estão
participando de greves e manifestações. Moradores ditos “irregulares” são
expulsos na calada da noite.
Diante dessa situação limite, o jornal TERRITÓRIO LIVRE entrevistou
alguns moradores do CRUSP na última semana de fevereiro. Publicamos em nessa
edição do site os depoimentos, que revelam o cotidiano do CRUSP que a reitoria
não divulga e que poucos conhecem.
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Publicado em 21.03.2010, por Conselho de Redação
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