Diante da situação limite da precariedade e da repressão no CRUSP, o
jornal TERRITÓRIO LIVRE entrevistou alguns moradores do CRUSP na última semana
de fevereiro. Publicamos a seguir trechos dos depoimentos, que revelam o
cotidiano do CRUSP que a reitoria não divulga e que poucos conhecem. Os nomes
dos entrevistados não foram divulgados para evitar qualquer tipo de retaliação.
“Quando você entra aqui, pensa: “Oba! Vou ter uma casa por cinco
anos. Obrigada USP, você é minha mãe”, e no final você vê que as coisas não são
bem assim, é igual vender a alma pro capeta. Tem um preço, você não vai ter
liberdade de expressão, não vai ter liberdade política, você não vai ter
liberdade aqui, aqui não é a sua casa.”
A precariedade da moradia
“Fiquei no alojamento, onde entrouxam 9 pessoas dentro de cada
quarto, sem ventilação e iluminação, janelinha bem pequena, mofado, úmido,
passam canos em cima da cabeça que fazem barulho a noite inteira, até começar a
dormir tem que se acostumar. O banheiro é externo, você tem que dividir com
mais gente ainda. Enfiam um monte de gente em qualquer buraco.”
A COSEAS e a seleção dos novos moradores
“Por mais que queiram falar que a COSEAS seja pra cuidar desse
espaço, na verdade é um órgão repressor mesmo, pra domesticar os alunos.”
“Já fiz três entrevistas e até agora não tenho vaga. E elas
perguntam coisa do tipo “Aí, você tem namorado?”. E depois quando você retorna
lá elas perguntam: ‘ah. Mas como é que está a sua média? Você gosta do curso?
Você costuma freqüentar as festas?”
“Na época da ocupação da reitoria [2007] eu fui lá porque tava
rolando o processo [da vaga]. A assistente social perguntou: “Você tá
acompanhando o que tá acontecendo na reitoria?”
A vigilância constante e a repressão interna
“O CRUSP é uma prisão. [...] A todo momento a portaria controla o
nossos passos, se você entra, se você sai, o que você carrega quando entra e
quando sai. Por exemplo: se trago amigos o porteiro anota o nome dos meus
amigos, hora que sai e hora que entra.”
“A Rosa Godoy escreveu um artigo falando que a vida universitária é
promíscua, que o modo de a gente encarar a vida é promíscuo, a nossa
sexualidade é promiscua.”
“A gente tem que cumprir 12 créditos no semestre pra continuar aqui,
e todo ano quando vamos lá comprovar, se tem algum problema eles já falam: “Ah!
Mas porque você não está fazendo os créditos direito? Tá com problema? A gente
pode te encaminhar pra um tratamento.” E vai induzindo a coisa. Aliciando as
pessoas. É vai ficando um monte de Alex [referência ao filme Laranja Mecânica,
de Stanley Kubrick].”
“A COSEAS é mais escrota ainda com os hóspedes “irregulares”. Eles
expulsam pessoas de madrugada, porque durante o dia as pessoas podem se voltar
contra, agora de madrugada a maioria das pessoas está dormindo, algumas não
estão nem em casa; costuma acontecer em finais de semana as expulsões de
irregulares, finais de semana e de madrugada.”
“Um menino do bloco B quebrou o extintor pra fazer barulho porque
outro cara tava sendo expulso. Só que acabou que virou contra ele, o cara foi
expulso e ele acabou passando dois dias na delegacia. O cara ficou muito perturbado
e aí chegou a ponto do COSEAS começar aquela outra coisa que eles costumam
fazer de mandar o cara pra tomar uma... tipo: “Ah, você precisa passar num
psicólogo, num psiquiatra...”
“Na época da greve a minha assistente social me chamou pra conversar
e perguntou se eu tava gostando ou não que tivesse tendo greve e eu menti,
porque eu saquei que eu não ia falar dentro da COSEAS que eu tava adorando que
tava tendo greve pelo fato de os estudantes estarem mobilizados e lutando
contra aquilo que acho que deve ir contra. Você ir contra uma assistente social
é você estar assinando sua cabeça aqui porque você não vai ter onde morar; eles
jogam com isso.”
“Domesticar. Domesticar. Domesticar. Eu creio que é pra isso que
serve a COSEAS. Bem ou mal os caras não vão querer aqui um foco de gente
querendo
A resistência
“Acho que o que deveria ser feito imediatamente é destruir essa
COSEAS e construir outra coisa pra organizar e administrar isso daqui. É como
diz o Trotsky, não tem como o trabalhador tomar o poder diante das medidas
legais, a estrutura legal do Estado burguês. É a mesma coisa pros estudantes,
não tem como a gente querer fazer o que a gente realmente acha que se deve com
essa COSEAS que tá aí, não adianta querer buscar a solução com a COSEAS, com a
reitoria, com o caralho a quatro, porque não vão atender os nossos
interesses.
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Publicado em 21.03.2010, por Conselho de Redação
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