Publicado
originalmente em 9 de abril de 2010, no WSWS
Depois
de meses de especulação, o primeiro-ministro britânico Gordon
Brown finalmente anunciou na terça-feira que uma eleição geral
será realizada em 6 de maio. A votação tem sido descrita como uma
das mais imprevisíveis em muitos anos, sendo considerado como
resultado provável um parlamento dividido.
Brown
tentou jogar com o medo dos eleitores sobre o futuro econômico da
Grã-Bretanha, afirmando que ele tem firmeza para guiar o país
através de seus problemas financeiros. Ele alegou ser "um
dentro de uma equipe" de políticos experientes, acrescentando
que a recuperação econômica da Grã-Bretanha não deve ser
ameaçada por um voto para os conservadores.
As
diferenças entre os trabalhistas e os conservadores são apenas uma
questão de ritmo. Brown defende gastos contínuos do governo a curto
prazo para evitar um chamado “mergulho
duplo” recessivo (double
dip recession).
A Grã-Bretanha foi uma das últimas entre as grandes economias a
sair da recessão no ano passado, com crescimento no quarto trimestre
de 0,4%, marcando o primeiro período de expansão desde a crise
bancária de 2008.
Mas,
com um déficit orçamental de cerca de 12% do produto interno bruto
(PIB), os trabalhistas comprometeram-se a reduzir a lacuna em 50%
durante o mandato do próximo parlamento, o que exigirá cortes de
gastos profundos.
Embora
tenham procurado manter esses planos em segredo até depois da
eleição, as estimativas sugerem que uma redução de despesas dessa
magnitude exigirá cortes no orçamento departamental de entre 10% e
20% nos próximos quatro anos.
Tanto
os trabalhistas quanto os conservadores estão tentando camuflar o
inevitável programa de cortes com o qual ambos os partidos estão
comprometidos.
Brown
vem tentado enfatizar suas origens de "classe média" e sua
suposta preocupação com o cidadão britânico “comum” com
visitas arranjadas a vários locais de trabalho.
O
líder conservador David Cameron afirma ser o representante dos
“grandes esquecidos” da sociedade britânica, o contribuinte
cumpridor da lei. A tentativa de refazer a imagem do seu partido como
mais "compassivo" e "cuidadoso" tem sido um tema
constante da liderança de Cameron. Nos últimos dias ele tem se
concentrado em trabalhar a mensagem de um partido conservador
“moderno”, que poderia oferecer aos eleitores "esperança,
otimismo e mudança.”
Por
trás de tal retórica, a oposição tem insistido que os cortes de
gastos devem ser implementados mais rapidamente, começando logo que
ocuparem o cargo em 7 de maio. Eles criticaram os trabalhistas por
sua incapacidade de controlar a crescente dívida do Estado, que
atualmente é de mais de £160 bilhões.
George
Osborne, provável chanceler de um governo dos conservadores,
denunciou um plano dos trabalhistas para aumentar as contribuições
nacionais de seguridade em 1% para os empregadores, dizendo que os
cortes de gastos devem ser favorecidos em detrimento do aumento de
impostos.
Opiniões
semelhantes foram expressas em uma carta assinada por 38 líderes
empresariais, a Confederação da Indústria Britânica (CBI), e
diversas figuras anteriormente vistas como simpatizantes dos
trabalhistas.
A
Câmara de Comércio Britânica (BCC), em um relatório divulgado
para coincidir com o início da campanha eleitoral, pediu que
qualquer novo governo redirecione o peso da dívida do Estado dos
negócios para as costas dos trabalhadores com baixos salários,
aumentando os níveis dos impostos indiretos.
David
Frost, diretor geral da BCC, declarou: "Seja qual for o
resultado da eleição geral, um novo governo deve evitar os impostos
corporativos adicionais que poderiam sufocar a recuperação. Nos
primeiros 90 dias de uma nova administração, o aumento de 1% nas
contribuições patronais para a Seguridade Social, previsto para
2011, deve ser descartado e substituído por um aumento menos
prejudicial de 1% no IVA".
Esse
apoio da comunidade empresarial surge na seqüência de uma carta
assinada em fevereiro por 20 economistas em apoio à solicitação
dos conservadores por um corte mais rápido no déficit orçamental
da Grã-Bretanha. A carta advertia que, se o próximo governo não
indicasse a forma pela qual o déficit orçamental seria cortado e
fizesse disso a sua maior prioridade, os investidores internacionais
perderiam a confiança na capacidade de crédito da Grã-Bretanha. As
empresas de avaliações internacionais têm indicado que o status
AAA de Londres poderá ser prejudicado caso a dívida de Estado não
seja mantida sob controle depois da eleição de 6 de maio.
Mas
os trabalhistas também contam com o apoio de uma parte significativa
das instituições financeiras, que temem que impor cortes muito
rapidamente poderia precipitar um despencar econômico. Mais de 60
economistas assinaram uma carta solidarizando-se com o chanceler
Alistair Darling e a intenção dos trabalhistas de retardar cortes
iminentes no orçamento até 2011, quando a recuperação econômica
estará supostamente segura. Como a carta disse, "Para o bem do
público britânico —e
para a sustentabilidade fiscal—
a
prioridade deve ser a restauração do crescimento econômico".
Durante
os últimos 13 anos, os trabalhistas têm se mostrado totalmente
subservientes à elite financeira, tendo cortado qualquer relação
que tinham com a classe trabalhadora. Têm mantido muitas das
reformas introduzidas pelos governos de Thatcher e de outros
conservadores nos anos 1980 e 1990, expandiram a privatização dos
serviços públicos e a desregulamentação da indústria, e criaram
o que tem sido descrito como um paraíso fiscal interior para
operações bancárias na Cidade de Londres. A desigualdade social
está agora em níveis jamais vistos desde a Grande Depressão dos
anos 30.
Recentemente
o Financial
Times
observou: "A sombra ameaçadora dos cortes de gastos públicos
dá aos eleitores poucos motivos para pensar que sua sorte vai
melhorar. O déficit fiscal do Reino Unido é de 11,1% da produção
nacional. Mesmo os planos vagos dos trabalhistas para corrigir esse
desequilíbrio implicam em cortes nos orçamentos departamentais de
11,9% ao longo de um parlamento ".
Estudos
recentes indicam que a posição econômica da Grã-Bretanha é cada
vez mais precária, com comparações já feitas com a Grécia. O
déficit orçamentário desta é comparável ao do Reino Unido, e as
notícias de que o ágio da dívida grega subiu provocou a
preocupação de que a Grã-Bretanha esteja indo na mesma direção.
Jonathan
Loynes, do Capital
Economics
advertiu: "As pessoas não estão colocando o Reino Unido
exatamente na mesma posição da Grécia, mas ainda há muita
incerteza sobre que tipo de ação vai ser tomada e quando tentar
obter o controle sobre as finanças do Reino Unido”.
O
Banco de Compensações Internacionais (BIS) previu esta semana que
os pagamentos de juros sobre a dívida pública da Grã-Bretanha
dobrariam de 5% para 10% em uma década, um cenário que é pior do
que o da Grécia. O Banco reclamou que a proposta dos trabalhistas
para reduzir o déficit orçamental em 1,3% nos próximos três anos
seria insuficiente para resolver este problema. A Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), enquanto isso,
revisou para baixo as previsões de crescimento econômico no
primeiro trimestre, projetando uma taxa de crescimento de 0,5%.
O
mercado reagiu negativamente ao início da campanha eleitoral e à
notícia de que uma vitória dos conservadores já não era tão
certa como parecia há alguns meses. Uma pesquisa publicada no
Guardian
deu aos conservadores apenas quatro pontos de vantagem sobre os
trabalhistas, que, segundo o sistema eleitoral britânico, não
seriam suficientes para garantir-lhes uma maioria parlamentar. A
libra caiu frente ao dólar em mais de 0,2% na terça-feira, e esta
tendência deve continuar.
Como
o Wall
Street Journal
observou: "Os investidores tiveram poucos motivos para
discriminar entre o euro e a libra esterlina até agora neste ano:
ambas cairam em torno de 6,3% em relação ao dólar. Mas a eleição
do Reino Unido, anunciada há tempos, e agora finalmente confirmada
para 6 de maio, pode mudar o quadro —
embora talvez não à favor da libra esterlina".
Em
qualquer parlamento dividido, os democratas liberais poderão ser
convocados a entrar em uma coligação com um dos principais partidos
para garantir a maioria. Apesar das várias pequenas reformas no
Parlamento e o convite para abandonar o sistema eleitoral majoritário
no Reino Unido, os liberais são praticamente indistinguíveis dos
trabalhistas e dos conservadores, com o líder do partido, Nick
Clegg, pedindo "cortes brutais".
[traduzido
por movimentonn.org]
fale!
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