Publicado originalmente em 7 de
abril de 2009, no WSWS
O relatório de desemprego dos EUA
apresentado na última sexta-feira, que mostrava um ganho líquido de
162 mil postos de trabalho em março, foi apropriado pela
administração Obama e por grande parte da mídia como uma
confirmação das afirmações oficiais de que a recessão acabou e
que a recuperação do mercado de trabalho começou.
Chamando o relatório do Departamento
do Trabalho de “a melhor notícia no front dos empregos em
mais de dois anos”, o presidente Obama disse: “estamos começando
a dobrar a esquina”. O New York Times começou seu relato
sobre os dados do mercado de trabalho com as seguintes palavras: “as
nuvens foram embora”.
Se olharmos mais de perto para as
estatísticas, porém, as conclusões são bem menos otimistas. O
ganho líquido de postos de trabalho não-agrícolas foi muito menor
do que os 200-300 mil antecipados pela maioria dos economistas. Além
do mais, 88 mil das novas contratações eram temporárias –
incluindo 48 mil realizadas para executar a pesquisa de censo dos
EUA.
A assim chamada taxa de subemprego,
que inclui aqueles que, contra a própria vontade, trabalham meio
período e os que desistiram de procurar emprego, subiu para 16,9%, o
terceiro aumento mensal consecutivo. As fileiras de trabalhadores
buscando empregos de tempo integral e forçados a trabalhar no regime
de meio período aumentaram para um nível assustador de 9,1 milhões
de pessoas.
Talvez mais ameaçador, o número de
desempregados de longo prazo – os demitidos há pelo menos 27
semanas – aumentou em 414 mil alcançando a marca de 6,5 milhões
de pessoas. Esta classificação abarca mais de 40% dos trabalhadores
desempregados, uma porcentagem bem mais alta do que a da profunda
recessão de 1981-82. A taxa média de duração do desemprego
aumentou para 31 semanas em março, o patamar mais elevado já
registrado em mais de seis décadas.
O salário médio por hora continua em
declínio acentuado.
No vigésimo sétimo mês de uma
recessão que eliminou mais de 8 milhões de empregos, a economia dos
EUA produziu menos empregos em período integral do que o necessário
para acompanhar o crescimento mensal normal da disponibilidade de
força de trabalho. Apesar de uma ligeira elevação nos setores de
manufatura e construção – após meses de contração – o
relatório mostra uma economia afundada na lama e sem qualquer
perspectiva de redução do desemprego aos níveis pré-crise.
Na medida em que um pequeno aumento na
produção ocorreu na economia real, ele esteve sempre ligado a um
ataque massivo contra os empregos, salários, benefícios e padrões
de vida da classe trabalhadora. A classe dominante, com a liderança
da administração Obama, está usando a crise econômica para
implementar uma redução permanente das condições de vida dos
trabalhadores.
Parâmetros novos e mais rebaixados
estão sendo estabelecidos para salários e condições de trabalho e
vêm para ficar. Não são temporários. Sobre tal base, os lucros
corporativos foram às alturas, apesar do desemprego de quase dois
dígitos e da redução do consumo.
A deterioração da posição social
da classe trabalhadora é evidenciada principalmente pelas
estatísticas de produtividade. No quarto trimestre de 2009, quando o
produto interno bruto dos EUA cresceu 5,6%, a produtividade –
quantidade de produção espremida de cada trabalhador – subiu a
uma taxa anual de 6,9%. Os custos da força de trabalho tiveram uma
queda acentuada de 5,9%. O salário por hora ajustado de acordo com a
inflação mostrou queda de 2,8% em relação ao trimestre anterior.
Os números documentam uma subida
brusca na intensidade da exploração da força de trabalho.
Outra indicação do caráter de
classe da assim chamada recuperação é a divergência entre o PIB e
a medida da renda nacional – conhecida como renda interna bruta. No
terceiro trimestre de 2009, a renda interna bruta ainda estava em
contração, mesmo enquanto o PIB aumentava em 2,2%. O atual rombo
entre o PIB e a renda interna bruta é o maior já registrado.
Essa divergência estatística aponta
que a atual recuperação é fundamentalmente arraigada nos lucros
corporativos e na riqueza da classe dominante, enquanto os padrões
de vida da vasta maioria dos americanos continuam a cair. É uma
recuperação na qual divisões de classe e desigualdade social estão
se ampliando.
Isso também é sugerido pela lista
dos 30 presidentes corporativos mais bem pagos publicada no domingo
pelo New York Times. Dez deles presidem empresas que
registraram declínios de rendimento e renda líquida em 2009, mas
ainda assim obtiveram ganhos de “retorno total” – uma medida
ligada às variações dos preços das ações de uma companhia.
Quase todos os presidentes tiveram um aumento de seus pagamentos com
relação a 2008.
O “sucesso” dessas corporações,
e de seus chefes executivos, deu-se principalmente com base em
medidas de corte de custos que, mesmo em face da redução dos ganhos
e renda, impulsionaram os preços das ações das firmas. Isso
fornece uma imagem do grau em que a “recuperação” se baseou em
enxugamentos implacáveis, cortes salariais e aumento da intensidade
do trabalho.
Alguns exemplos:
* O terceiro presidente corporativo
mais bem pago, Ray R. Irani da Occidental Petroleum, recebeu $31,4
milhões, um aumento de 39%. Sua firma sofreu uma queda de 37% no
rendimento, um declínio de 57% na renda líquida, mas um aumento de
38% no retorno total.
* Susan M. Ivey, número 27 da lista,
conseguiu um aumento de 84% em seu pagamento, que atingiu $16,2
milhões. Sua empresa, Reynolds American, registrou declínios de
rendimento e renda líquida de 5% e 28%, respectivamente, enquanto o
retorno total da companhia subiu 40%.
* Andrew N. Liveris da Dow Chemical,
número 28 da lista, recebeu $15,7 milhões, um aumento de 23%. A
renda de sua companhia caiu 22%, e a renda líquida caiu 61%, mas o
retorno total deu um salto de 87%.
Ao lado dos cortes nos custos e
aumento da exploração da força de trabalho, a recuperação foi
sustentada por resgates governamentais aos bancos e um suprimento
virtualmente ilimitado de crédito barato pelos bancos centrais dos
EUA e do resto do mundo. Isso elevou os preços das ações de
maneira desconectada com relação ao estado da economia real e
catalisou excessos especulativos ainda maiores que os que
precipitaram o crash financeiro de 2008. Nas semanas recentes,
por exemplo, vimos um crescimento explosivo do mercado de títulos de
alto risco.
Longe de resolver as contradições
subjacentes do capitalismo mundial, essa pilhagem dos recursos
públicos intensificou-as. Desequilíbrios massivos e estruturais no
cenário da economia global – particularmente entre países
deficitários, liderados pelos EUA, e países exportadores,
superavitários, liderados pela China e Alemanha – foram ampliados
e intensificados.
Enfrentando níveis recordes de
endividamento público e déficits orçamentários, os EUA procuram
elevar suas exportações à custa de seus rivais. Mas todos os
outros grandes países deficitários fazem o mesmo, enquanto nações
superavitárias como China e Alemanha defendem com unhas e dentes
seus mercados de exportação. Simultaneamente, a pilhagem dos
recursos estatais em prol do resgate à elite financeira aumentou a
pressão por medidas de austeridade draconianas que reduzam os gastos
governamentais. Isso, por sua vez, pode apenas aprofundar a queda no
consumo, tornando a competição entre países por mercados de
exportação cada vez mais feroz e aumentando a probabilidade de
guerras comerciais e monetárias abertas.
A administração Obama, que jurou
dobrar as exportações dos EUA em 5 anos, parece basear sua
estratégia econômica em puxar para baixo os custos da força de
trabalho, de modo que a manufatura dos EUA possa ser ao menos
parcialmente revivida enquanto um centro de mão-de-obra barata para
produtos de exportação.
Sob condições de desemprego em massa
de longo prazo, salários em queda, miséria crescente, número
recorde de falências individuais e escalada na execução de
hipotecas, toda a economia cada vez mais lembra um castelo de cartas.
O ressuscitar do mercado imobiliário, que é chave para qualquer
recuperação verdadeira, parece altamente problemático com a
expectativa de que as execuções de hipotecas aumentem de 1,7
milhões em 2009 para 2,2 milhões neste ano.
Para a classe trabalhadora, não
existe qualquer possibilidade de recuperação real dentro dos
quadros do sistema capitalista. Para reverter as condições sociais
cada vez mais brutais de exploração e pobreza, ela precisa
organizar sua resistência sobre a base de uma perspectiva
socialista, revolucionária e internacionalista.
[traduzido por movimentonn.org]
fale!
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