Bastaram 3 dias de chuvas para que a
região metropolitana do Rio de Janeiro entrasse em colapso. A cidade
do Rio contabilizou 13 bairros sem luz, avenidas e túneis
obstruídos pelas águas das enchentes, trens parados , comércio e
escolas fechados, deslizamentos nos morros, 3000 pessoas desalojadas
e centenas de mortes.
Em Niterói, o morro do Bumba, favela
erguida onde antes era um lixão, houve cerca de 30 mortes. No
Complexo do Alemão o conjunto habitacional do PAC foi inundado.
Inaugurado com a presença do presidente Lula e de sua pré-candidata
à Presidência, Dilma Rousseff, o conjunto habitacional foi entregue
em 22 de dezembro. Os prédios, de quatro andares, abrigam
aproximadamente 2.000 pessoas e foram erguidos em terreno antes
ocupado pelo Exército, próximo ao canal da Cunha, assoreado por
lixo e entulho.
Enquanto o presidente Lula dizia que só
restava pedir a Deus que fizesse cessar a chuva, governador e
prefeitos esquivavam-se da responsabilidade sobre a tragédia.
Fato é que o ocorrido na região
metropolitana do Rio de Janeiro é resultado de décadas de uma
política urbana equivocada que sempre mesclou o
populismo-assistencialista à submissão aos interesses da
especulação imobiliária.
Veja-se o caso da zona sul do Rio,
detentora de enorme beleza natural, desde os anos 40-50 foi dominada
pela especulação imobiliária, causando a expulsão da classe
trabalhadora para os morros e para o subúrbio da cidade. As favelas
nos morros da Zona Sul se consolidaram ao longo de décadas e tiveram
sua grande expansão nos anos de 1970.
Desde então, prefeitura, estado do Rio
e o governo Federal sempre optaram por programas de reurbanização
dos morros, procurando manter a estrutura extremamente precária das
favelas, apenas levando melhorias elementares de infra-estrutura.
Aceitava-se a favela como cidade. Essa posição encontrou sua
formulação acabada no urbanismo petista – desenvolvido ao longo
de duas décadas e aplicado em quase 8 anos de Ministério das
Cidades*.
Tal “urbanismo” tem
um caráter assistencialista, que vai desde a mera cessão de título
de propriedade do barraco, passando por incentivos à
auto-construção, até substituição muito tímida de partes da
favela por conjuntos habitacionais quase descartáveis – como o
favela-bairro ou PAC das Cidades.
A mera reurbanização de favelas
consolida o que há de mais rudimentar em termos de urbanização, é
uma espécie de anti-urbanismo, um conformismo diante da barbárie
que, além de tudo, não altera a enorme segregação de classe que
rege a ocupação do solo na cidade capitalista. Abre-se caminho para
a consolidação das cidades enquanto ruínas, coloca em risco a vida
da classe trabalhadora e faz avançar a destruição da paisagem
assim como dos recursos naturais.
*- cf. "A morte do urbanismo
petista", in Revista Contravento, no. 04.
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