Publicado
originalmente em 8 de abril de 2010, no WSWS
No
dia 5 de abril, a Grécia anunciou planos para pedir um empréstimo
de 5 a 10 bilhões de dólares aos EUA, apresentando-se como um
"mercado emergente", isto é, um país pobre que paga taxas
mais altas de juros em suas dívidas para compensar o risco de
inadimplência.
A
classificação da Grécia como um mercado emergente é outra
indicação, junto com seu apelo ao Fundo Monetário Internacional
(FMI) no mês passado, de que as medidas de cortes de emprego e de
redução de custos aplicadas pelo FMI na África e América Latina
desde a década de 1970 irão agora para a Europa.
Nikos
Mourkogiannis, um economista de Londres, comentou: "A Grécia é
um mercado emergente e um país dos Balcãs, e o fato de ser membro
da zona do euro não é uma contradição."
A
Grécia planeja levantar seus fundos através da emissão de títulos
nos leilões supervisionados pelos bancos de investimento de Wall
Street, como o Morgan Stanley. O Goldman Sachs foi inicialmente
designado para supervisionar o leilão grego, mas isso foi descartado
em meio a rumores de que investidores chineses haveriam dito que não
emprestariam para a Grécia.
Foi
anunciado que o Ministro das Finanças grego, George
Papaconstantinou, iria viajar para os EUA "depois de 20 de
abril", mas que descartou planos de viajar para a Ásia depois
de visitar os EUA.
A
decisão veio enquanto a Grécia enfrenta grandes dificuldades em
captar fundos nos mercados financeiros europeus. O custo do
empréstimo ao governo grego por títulos de 10 anos de validade
atingiu uma alta de 7,161% em 6 de abril, uma taxa de juros 4% mais
alta que a paga pela Alemanha. Em comparação, a taxa de juros do
Brasil por 10 anos é de 4,9%, do México, 4,8%, a Polônia está em
5,5% e da Hungria, em 6,6%. A taxa de juros de dois anos sobre a
dívida grego saltou 1,2%, atingindo 6,48%, uma mudança
excepcionalmente grande em um único dia, sugerindo temores
crescentes de que a Grécia não pagará suas dívidas.
A
Grécia foi capaz de cobrir suas necessidades financeiras em abril,
mas ainda precisa arrecadar 10 bilhões de euros em maio.
Parece
cada vez mais duvidoso que a Grécia será capaz de evitar a
moratória de sua dívida, visto que o recebimento de juros cresce
junto com a taxa de juros que paga sobre sua dívida, e os cortes de
empregos e salários reduzem a base de impostos do governo.
Os
gregos ricos estão cada vez mais levando seus fundos para fora do
país, debilitando ainda mais os bancos gregos. O Daily Telegraph
escreveu ontem que as famílias gregas depositaram 3 bilhões em
fevereiro e 5 bilhões de euros em janeiro em contas fora da Grécia,
em grandes bancos europeus, incluindo HSBC e Société Générale.
Suíça, Reino Unido e Chipre teriam sido os principais destinos para
os fundos dos gregos.
O
Telegraph citou o analista John Raymond da CreditSights: "Os
próprios bancos estão preocupados [com a fuga de capital] porque
eles não conseguem obter financiamentos em outro lugar no momento.
Os Bancos gregos não serão capazes de aumentar o volume de crédito
se os depósitos não aumentar, e uma deterioração continua em suas
bases de depósitos irá levá-los a cortar os empréstimos ainda
mais, sufocando o crescimento econômico real."
Além
disso, as dúvidas continuam a crescer sobre os planos conjuntos da
União Européia (UE) e FMI para um pacote de resgate a Grécia,
proposto na reunião da UE em Março, em Bruxelas. Foi acordado que
os governos da zona do euro iriam emprestar para Grécia a taxas de
juros não subsidiadas, mas a taxa de juros se tornou agora um
assunto de disputa. Enquanto a maioria dos países da zona do euro
estão dispostos a emprestar fundos a 4 para 4,5%, a Alemanha está
insistindo que a Grécia pague 6 para 6,5% de juros, alto o
suficiente para forçar a moratória.
Um
“alto funcionários da UE" disse ao Financial Times:
"Se você disser que todo o esforço de consolidação da Grécia
está em perigo" devido à grande diferença que separa as taxas
de juros pagas pela Grécia e Alemanha ", você tem que
assegurar que essa diferença acabe."
O
comentarista do Financial Times, Martin Wolf, notou a
possibilidade de que o FMI, no qual os EUA tem poder de veto, pode
entrar em conflito com a Alemanha se vir a política alemã de forma
tão punitiva que nem os cortes do FMI conseguiriam equilibrar o
orçamento: "O que acontece se o FMI discordar da Comissão
[Européia]? Essa discordância parece provável. O cerco fiscal
aceito pela Grécia, de 10% do PIB por três anos, parece impossível,
dada a ausência de política monetária ou a flexibilidade da taxa
de câmbio. Talvez nenhum programa teria sucesso devido às condições
iniciais desfavoráveis."
Comparando
a Grécia com a Argentina, que declarou moratória de sua dívida em
2001, Stephen Jen, do Bluegold Capital Management LLP, disse: "Os
problemas da Grécia e da Argentina podem não ser idênticos, mas há
muitas semelhanças em termos de inflexibilidade do câmbio, fuga de
capital e o risco de medidas de austeridade levando a uma contração
do crescimento".
O
Primeiro-ministro grego, Giorgios Papandreou, sugeriu que o plano da
UE e FMI de injeção monetária e o restabelecimento dos empréstimos
do Banco Central Europeu (BCE) para a Grécia, junto com o fim da
greve nacional organizada pelos sindicatos gregos, significa o fim da
crise grega. Continuando estas linhas, ele disse ao Le Nouvel
Observateur: "Acho que o pior da crise que vivemos é
passado, o ponto alto da crise em algum sentido. Mas ainda há muito
trabalho a fazer, um trabalho difícil. A Grécia
tem restaurado a sua credibilidade".
Os
acontecimentos mais recentes, no entanto, destruíram tais
afirmações. Além disso, com os trabalhadores fora das ruas e de
volta ao trabalho, os estrategistas capitalistas agora se sentem
livres para planejarem novos ataques contra a população. Uma
moratória, em particular, prepararia o palco para os grandes bancos
ditarem cortes maciços nos salários e gastos sociais diretamente ao
governo grego.
Uma
pesquisa recente constatou que apenas 34,7% da população grega
apóia as políticas de Papandreou e seu partido social-democrata, o
PASOK. Mesmo este nível baixo de apoio surge em condições onde 60%
da população espera que a situação financeira da Grécia vá
melhorar. No entanto, Papandreou reiterou recentemente que suas
políticas são decorrentes do aprofundando das dificuldades,
afirmando que as condições "continuarão a ser dolorosa,
porque as restrições, cortes salariais e medidas econômicas
machucam, e toda a população vai sentir isso nos próximos anos."
Isto
realça o papel traidor dos sindicatos, principalmente da
Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos (GSEE) no sector
privado e da Confederação dos Servidores Públicos (ADEDY) no setor
público, ambas lideradas pelo PASOK. Enquanto organizavam greves
para desviar a indignação pública contra o governo, eles
incentivavam a opinião de que Papandreou poderia ser pressionado a
adotar políticas menos onerosas. O porta-voz da GSEE, Stathis
Anestis, disse ao World Socialist Web Site, "Estamos dispostos a
aceitar medidas duras com a condição de que eles sejam justos".
Ao
ir para Wall Street, o principal ponto de venda do governo grego na
tentativa de atrair os investidores é o alinhamento dos sindicatos
atrás de seu programa de austeridade e o papel dos sindicatos em
suprimir a oposição da classe trabalhadora.
Os
grandes bancos pretendem arruinar qualquer país cuja classe
trabalhadora continua a resistir aos cortes, como Jacques Delpla do
Conselho de Análise Econômica da França explicou no diário de
negócios Les Echos.
Ele
escreveu: "Para atingir o nível de competitividade da França,
a Espanha deve cortar os custos com trabalho em 20% e na Grécia em
25%, ou então credores privados internacionais podem cortar o
crédito. Na pior das hipóteses, a população desses países pode
se recusar a aceitar tal ajuste brutal nos seus padrões de vida e as
reformas radicais associadas. A moratória sobre a dívida pública e
privada seria então inevitável, junto com a saída desses países
da zona do euro. As conseqüências seriam dramáticas para as
populações, com uma grande recessão (causada pela redução
instantânea de seus orçamento e comércio) e falência generalizada
de seus bancos".
Enquanto
a perspectiva pró-governamental dos sindicatos deixou
temporariamente de lado a oposição da classe operária, as divisões
internacionais estão vindo à tona.
No
dia 5 de abril, o Vice-Primeiro Ministro grego, Theodoros Pangalos,
visitou Portugal, que também enfrenta grandes dívidas. Em uma
entrevista com o Jornal de Negócios, ele atacou a Alemanha
por uma "abordagem moral, racial" em culpar a Grécia pela
crise. Ele disse que os alemães pensam que gregos não trabalham
duro o bastante, o que era "ridículo", dados os "fortes
ganhos de produtividade na indústria e na agricultura grega."
Ele
disse ao Jornal de Negócios, "Vocês são as próximas
vítimas... Espero que isso não aconteça e prevaleça a
solidariedade, e que nós encontraremos uma saída desta escalada
[dos custos de empréstimos]. Mas se isso não acontecer, a próxima
provável vítima será Portugal. O que aconteceu conosco agora é
porque estamos em uma situação pior, mas poderia também acontecer
na Espanha e Portugal."
A
decisão de Atenas de pedir dinheiro para Wall Street representa uma
tentativa de contrabalançar a Alemanha com os EUA. Durante sua
viagem a Washington em março, ele elogiou o discurso de 12 de março
de 1947, onde o Presidente dos EUA, Harry Truman, pediu apóio dos
EUA ao governo de direita grego contra um movimento revolucionário
armado dos trabalhadores e camponeses gregos. O resultado da
intervenção dos EUA na guerra civil grega marcou o início da
Guerra Fria.
Essa
alusão à Grécia, como base de lançamento para a influência dos
EUA na Europa é altamente significativa no atual contexto financeiro
e político. Em meio ao acirramento das tensões internacionais e
discussão de uma possível moratória grega, que implicaria em uma
disputa política entre os credores da Grécia sobre quem seria
reembolsado, Atenas está tentando se proteger através do
involvimento de várias grandes potências. Isso só vai aumentar a
tensão internacional provocada pela crise grega.
[traduzido
por movimentonn.org]
fale!
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