Durante os últimos dois meses, enquanto o movimento estudantil chileno se organizava em grandes assembléias, parava as aulas, ocupava escolas e universidades e saia às ruas contra a destruição da educação, o que vimos no Brasil foi muito mais o contrário.
Apesar de terem ocorrido algumas movimentações isoladas no início do ano (sobretudo a forte ocupação da UnB), o movimento estudantil da USP, na contramão das manifestações chilenas e do movimento em torno da ocupação no ano passado, foi durante todo esse primeiro semestre só paralisia, burocratização, voltas e voltas sem sair do lugar, culminando em maio e junho com a vergonhosa farsa do V Congresso, que no fim das contas nem saiu do papel.
Juventude chilena em guerra contra o governo
A juventude chilena não parou de se manifestar e tomar as ruas desde o primeiro levante, em 2006, contra a LOCE, uma lei privatista da educação herdada da ditadura de Pinochet. Em 2007 também aconteceram grandes movimentações cobrando mudanças, e este ano os estudantes estão em luta contra o "novo" projeto de lei da presidente Bachelet, a LGE, que, na verdade, não muda nada em relação à lei do ditador Pinochet.
Ainda no fim de abril começaram os protestos, e quando se aproximava a data de votação da lei de Bachelet, estudantes universitários e secundaristas começaram a realizar protestos quase diários contra a lei. Na última semana de maio, milhares de estudantes saíam às ruas todos os dias, e Bachelet mandava os carabineros (polícia repressora da época de Pinochet) impedirem as manifestações, que acabavam em confrontos violentos, com centenas de jovens presos a cada dia.
Apoiando os estudantes, os professores começaram a participar das manifestações, e organizaram uma paralisação nacional no dia 4 de junho. O protesto contou—segundo os dados oficiais—, com a participação de 90% da categoria!
No dia 12 de junho, pedindo apoio internacional contra a LGE, um grupo de estudantes chegou a ocupar a embaixada brasileira em Santiago! Evidentemente, o governo Lula não deu nenhum apoio à reivindicação dos estudantes.
No meio de junho havia pelo menos 60 escolas ocupadas pelos estudantes e outras 45 fechadas por causa da greve, várias das principais universidades também estavam ocupadas, as universidades particulares começaram a entrar no movimento, e os professores fizeram mais uma paralisação nacional do dia 16 ao dia 19, dia da votação da LGE na câmara dos deputados.
Ainda assim, apesar dos milhares de manifestantes nas ruas e do amplo repúdio da grande maioria da população à LGE, a lei foi aprovada pela esmagadora maioria dos deputados; 96 votos a favor e apenas 12 contra. Todos os principais partidos chilenos se uniram contra os estudantes, contra os professores e contra os interesses da maioria da sociedade.
No mesmo sentido, a Igreja Católica, a burocracia universitária, a associação de colegios particulares, o governo e os carabineros atacam a cada semana a luta dos estudantes e professores, mas os chilenos não desistem e seguem combatendo a destruição da educação. Em várias declarações, estudantes e professores disseram que continuarão a mobilização pela derrubada da LGE.
USP: o fracasso da farsa do V Congresso
Enquanto os estudantes chilenos se organizam e vão às ruas, às ruas e às ruas, enfrentando a polícia e combatendo o projeto do capital para a educação, os burocratas do movimento estudantil da USP, os mesmos que traíram a ocupação do ano passado em trocas de migalhas da reitoria, promoveram mais uma farsa fracassada, o V Congresso.
Depois de um ano propagandeando a mentira de que o V Congresso era "a maior vitória da ocupação da reitoria", e seria um oportunidade de transformar a estrutura burocrática da universidade, para conquistar a democracia dentro da universidade, os partidos que traíram a ocupação viram-se obrigados a cancelar o Congresso sem justificativa.
A alegação desses grupos, de que o Congresso não aconteceu porque a reitoria da USP não liberou os funcionários do trabalho para participar, é totalmente falsa, já que eles mesmos defenderam no ano passado o acordo do fim da ocupação, que não garantia a liberação dos funcionários para o Congresso (com o agravante de que nas reuniões de negociação a reitoria já sinalizava abertamente que não os liberaria).
A perspectiva do Congresso, na verdade, nunca representou possibilidade nenhuma de transformação da USP, sempre foi uma concessão de fachada da reitoria para acabar com a ocupação. A maior prova disso é que o Congresso não teria poder deliberativo, ou seja, mesmo se acontecesse, ele não valeria nada!
Porém, só durante o processo de construção do Congresso, nas poucas discussões em que foram determinadas sua pauta e seu funcionamento, a maioria dos estudantes que participou do movimento do ano passado já repudiou totalmente a condução burocrática do DCE e da associação dos professores, e virou as costas para a farsa do Congresso.
A ilegitimidade era tamanha que os funcionários acabaram se retirando do processo, que em seguida foi simplesmente cancelado.
Às ruas! Às ruas! Às ruas!
Como mostra a juventude chilena nas ruas, como mostraram os estudantes da UnB e como mostrou a massa dos estudantes da USP e de todo o Brasil no ano passado, o combate à burocracia acadêmica e aos projetos do capital de destruir a escola e a universidade, assim como a derrubada dessa minoria e a construção do verdadeiro poder da maioria, não acontecerão em congressinhos de salão, nem em nenhum "fórum" de tipo parlamentar-burguês, que só servem para calar os estudantes e trabalhadores, sufocar o movimento, e devolver o controle da situação à burocracia e ao governo. A derrubada do atual estado de coisas e a construção do NOVO só podem vir da organização direta em assembléias, conselhos e comitês, da tomada das escolas, universidades, fábricas e principalmente das ruas!
Aos estudantes chilenos que ocuparam a embaixada brasileira, assim como a todos os estudantes brasileiros, dizemos:
– o governo corrupto de Lula, aliado do grande capital como Bachelet, não pode se juntar à luta dos estudantes chilenos, mas nós, os estudantes brasileiros, podemos!
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Publicado em 15.06.2008, por Carlos Prado
Publicado em 01.06.2008, por Conselho Editorial
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