Primeiro Caderno

O Corneta

Território Livre

busca


Primeiro Caderno > Editorial

A defesa das liberdades democráticas e a tortura: quem são os verdadeiros torturadores?

Publicado em 24.08.2008
por Conselho Editorial

multimídia

1

Edson Teles fez o seguinte relato:

"Fui preso, aos 4 anos de idade, em minha casa. Assistia ao Vila Sésamo, programa infantil de qualidade rara se comparado aos dias atuais. Fui interrompido pelos agentes do Sr. Ustra, diga-se do DOI-Codi, que à nossa casa invadiram com suas metralhadoras e palavras ofensivas. Estávamos eu, minha irmã de 5 anos e minha tia, grávida de 8 meses.

"Colocaram-nos no camburão e nos levaram ao "escritório" deste cidadão que hoje tem endereço, salário do Estado e dá-se ao ato provocativo de escrever livros versando sobre parte das mais horríveis na história do Brasil. Lembro-me, ainda no camburão, de ter brincado com uma daquelas armas que, por pura incompetência, haviam deixado ao meu lado e eles "caindo em cima" para tentar arrancá-la de mim, como se eu fosse O Terrorista.

"Nas dependências deste então órgão público/estatal pude ver minha mãe e meu pai em tortura. Após ser assim recebido pelo Ustra (ele em pessoa, não é uma entidade, uma alucinação, é este homem que hoje se diz vítima), fui levado a um lugar onde, através de uma janelinha, a voz materna, que meus ouvidos estavam acostumados a escutar, me chamava.

"Porém, quando eu olhava, não podia reconhecer aquele rosto verde/arroxeado/ensangüentado pelas torturas que o oficial do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra, havia infligido à minha mãe. Era ela, mas eu não a reconhecia. Esta cena eu não esqueço, não porque arquiteto uma vingança imaginária contra o Ustra.

"Ela não é uma informação da qual disponho, mas uma marca que talvez só por meio da terapia de meu depoimento público possa acalmar, deslocar para espaços periféricos de minha memória. Reitero meu desejo de vê-lo, o torturador Ustra, no banco dos réus respondendo por seus crimes. Se assim for permitido, serei a primeira testemunha de acusação."

Esse depoimento de Edson Teles mostra bem a brutalidade da ditadura militar no Brasil e a brutalidade pessoal de certos indivíduos como o coronel Ustra.

No entanto, como disse Marx no livro primeiro de O Capital, capítulo XXIV, o capital já chegou desde as suas origens manchado de sangue por todos os poros. Os holandeses, nas suas colônias, chegavam a cortar os pés daqueles que se mostrassem como rebeldes à dominação colonial.

Nesse sentido, acusações somente pessoais aos torturadores somente escondem e mascaram a verdadeira face do regime capitalista: a sua forma originária é a tortura diária de milhões e milhões de pessoas, essa é sua característica principal.

A maior parte da humanidade foi separada dos meios de produção, dos meios de sua subsistência, e é torturada diariamente por ser obrigada a vender sua força de trabalho no mercado, por jornadas extenuantes de trabalho, pelo tempo de vida que lhes é roubado, por 40, 50 e às vezes mais horas semanais que são extraídas das suas vidas de maneira forçada.

QUEM SÃO OS VERDADEIROS TORTURADORES?

Ustra e outros militares são ativados como torturadores nos processos de crise do capital, contra aqueles que se revoltam contra os verdadeiros torturadores: os proprietários dos meios de produção, as burguesias nacionais e internacionais, que representam, no máximo, cerca de 10% da humanidade.

Por isso mesmo, cabe perguntar: que significa a defesa abstrata dos chamados “direitos humanos”?

Trata-se de uma cortina de fumaça.

Quando se defendem os chamados “direitos humanos” quem está sendo defendido? Como declarou o próprio coronel Ustra, o senador Romeu Tuma, hoje senador do PTB e apoiador do governo Lula, sabia de tudo e foi cúmplice do processo de tortura que ocorreu naquele período da história do Brasil, participando inclusive diretamente do processo violento de repressão. Outros, como Fleury, foram “apagados”, por saberem demais. Como se sabe, Fleury teria morrido caindo de uma lancha.

Mas, que dizer de José Sarney, na época da ditadura presidente do partido Arena, o partido da ditadura? Hoje faz composição com o governo Lula. O ex-presidente da Arena não sabia das ações de tortura que ocorriam no DOI-CODI e na famigerada Operação OBAN, ou “Bandeirantes”? A OBAN, como se sabe, funcionava próxima ao II Exército, situado cerca do Ibirapuera em São Paulo. Ali ocorreram as maiores atrocidades aos direitos humanos durante o período da ditadura militar.

Ustra estava vinculado a esses crimes, mas, sobretudo, a questão é quem financiava tudo isso?

Quem financiava tudo isso e organizava tudo isso é uma série de políticos e empresários que estão ainda na ativa e aliados ao governo Lula. Foram eles que financiaram a Operação Bandeirantes e todo o processo de tortura, repressão e violência contra os mínimos direitos individuais.

Quem financiou e incentivou o DOI-CODI e a OBAN? A burguesia, a burguesia e a burguesia. Quem foram e quem são os verdadeiros e essenciais torturadores? Sem dúvida: a burguesia, a burguesia e a burguesia.

Ontem usaram Ustra e outros, hoje usam câmeras e nomes que ainda não foram revelados. A punição a Ustra pode ser feita, mas, a punição deve ser feita à burguesia nacional e internacional.

Quem são os torturadores? A burguesia, o capital, a burguesia e o capital!

fale!
topo
volte

OUTRAS NOTÍCIAS
DESTA EDIÇÃO

Bolívia: após referendo revogatório disputas políticas se intensificam

50 Anos do Teat(r)o Oficina: Merda se transforma em OURO

Brasil: as contradições da produção do etanol por trás do discurso ecologicamente correto

Comitês MNN


Publicado em 25.04.2010

CARTAS

Publicado em 25.04.2010

próximas reuniões

ASSINE A MAIS-VALIA

A cada 4 meses, um novo número da revista MAIS-VALIA. Assinando, você recebe a revista na sua casa, em qualquer lugar do Brasil.

Materiais

Capa revista MAISVALIA no. 8 Capa do TRANSIÇÃO no. 23 Cartaz MNN: FORA SARNEY!