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Bolívia: após referendo revogatório disputas políticas se intensificam

Publicado em 24.08.2008
por Orestes Zuffa

O presidente boliviano, Evo Morales, foi o grande vencedor no referendo revogatório que aconteceu dia 10 de agosto. Morales obteve 62,4% dos votos, que corresponde a maior votação da história das eleições presidenciais da Bolívia. Morales havia sido eleito em dezembro de 2005 com 53,7% dos votos.

A consulta do dia 10 reafirmou a cisão existente na Bolívia, tanto o governo como seus opositores obtiveram mais votos do que em 2005. Em Potosí, Mario Virreira 75,9% dos votos. Em Santa Cruz Rubén Costas fez 66,6%. Em Tarija Mario Cossío obteve 64,5%. Ernesto Suárez de Beni fez 61,2%. E Leopoldo Fernádez de Pando obtuve 56,3%. Os governadores que tiveram seus mandatos revogados foram: Alberto Aguilar de Oruro com 45,6% dos votos “sim”, José Luis Paredes de La Paz com 42,3% e Manfred Reyes Villa, de Cochabamba com apenas 39,3%.

De acordo com os resultados, Morales venceu em cinco dos nove estados do país: La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí e Pando, e perdeu em Santa Cruz, Beni, Tarija e Chuquisaca. Os governadores derrotados foram José Luis Paredes de La Paz e Manfred Reyes Villa de Cochabamda, ambos opositores, assim como Alberto Aguilar de Oruro. Morales se mostrou muito forte nas regiões pobres, no norte e nordeste do país, enquanto que seu apoio foi fraco nas regiões ricas da Bolívia, no sul.

Ao tempo em que dedicava sua vitória “a todos os revolucionários do mundo”, Morales convocou aos prefeitos que se opõe a ele “a trabalharem juntos para juntar” o projeto da nova Constituição com os estudos de autonomia que impulsionam quatro regiões a luta contra o governo central.

Além de Morales, também se declararam eleitos os governadores de quatro regiões que lutam pela autonomia. Rubén Costas de Santa Cruz, líder da oposição, disse que a vitória que o ratificou no cargo “é uma derrota ao centralismo” e anunciou que sua região criará sua própria polícia e chamará eleições para construir um parlamento regional. Uma grande crise se levantou em torno desses dois projetos que postulam visões distintas do restante do país.

Morales, em relação a essas declarações de Costas, findou seu discurso no Palácio Presidencial dizendo: “Pátria ou morte, venceremos”. E seus partidários gritavam “mãos duras” em relação às regiões dominadas pela oposição.

Com a ratificação dos governadores de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, os mais duros adversários de Morales, ganharam impulso para avançar na consolidação de governos autônomos, os quais o governo qualifica de ilegais. Sobre isso, o governador de Tarija, Mario Cossio, disse que a sua continuação no cargo lhe dará impulso para avançar na luta pela autonomia de sua região e anunciou que a próxima medida será construir um “parlamento regional”. Os resultados obtidos nos estados considerados autônomos, elevou os ânimos e promoveu uma grande festa que reforçou o compromisso de continuar a batalha pela recuperação do recurso do Imposto Direto aos Hidrocarbonetos e pela consolidação de suas autonomias.

Nessa semana o caos se consolidou na Bolívia, uma série de movimentos se levantaram contra o governo de Morales. Em Chaco, cidade onde se produz gás, desde segunda-feira estradas estão bloqueadas. E Santa Cruz manifestou sua intenção de deixar de enviar alimentos para o Ocidente, sobre isso Morales respondeu que “a agonia é à direita”, referindo-se ao Oriente, ou a media luna. O presidente do Conselho Municipal de Chuquisaca, Fidel Herrera, que partilha da idéia de deixar de mandar alimentos para o Ocidente, afirmou que “pode ser o começo do fim da unidade do país”. O presidente Morales, em Cochabamda, juntamente com os movimentos sociais afirmou que o novo texto constitucional “já foi aprovado” por dois terços do país, e se prepara para legalizar sua validade, num novo referendo ou “mesmo que por decreto”.

Depois de greves de fomes, paralisações e bloqueio de estradas, nessa semana, a situação no país se torna cada vez mais tensa. “Estamos em pé de guerra contra o governo”, afirmou Reynaldo Bayard em Tarija. Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca exigem o reembolso do Imposto Direto dos Hidrocarbonetos e também rejeitam a nova Constituição, aprovada em Oruro. Morales, depois de obter a aprovação de 62,4%, disse que a nova Constituição já tinha sido testada e aprovada, juntamente aos seus movimentos sociais, e que a forma de avançar no seu projeto de país inclui a sua reeleição para a presidência. Morales, referindo-se aos seus opositores afirmou que “eles falharam nas suas paralisações, greves e agora pretendem bloquear estradas e fechar válvulas”.

O governo reagiu às ameaças do Partido Democrático Nacional (Conalde), tendo os poços de petróleo do país, se não repõe os recursos dos impostos diretos aos hidrocarbonetos das prefeituras, e o vice-presidente Álvaro Garcia Linera anunciou que vai tomar ações pertinentes para garantir as instalações petrolíferas. Garcia Línera afirmou que, “os hidrocarbonetos são o alimento do nosso país, atacá-los é colocar em perigo a vida dos bolivianos, por isso, é preocupante, e nós vamos tomar as medidas que forem necessárias para assegurar que a nossa espinha dorsal seja mantida sem bloqueios”.

A grande crise boliviana, cuja tentativa de solução não teve efeito na realização do referendo revogatório, toma contornos dramáticos a cada dia. A oposição, que saiu fortalecida da consulta popular, busca pressionar e tenta de todas as formas derrubar o presidente Morales, chegando até a exigir uma intervenção dos militares. Nessa semana vimos à oposição se organizar em torno de bloqueios e numa greve alimentícia, ao deixar de enviar alimentos ao Ocidente. Por outro lado, o governo também saiu fortalecido da consulta, pois conseguiu se manter no poder, e retorna desejando instalar a nova Constituição. E a classe trabalhadora boliviana? O povo boliviano encontra-se à mercê desses grupos, que se mostram incapazes de solucionar a situação de um dos países mais pobres da América Latina, ao não conseguirem romper com a lógica do trabalho e do capital. Mais do que nunca, é necessário a construção de uma nova liderança internacionalista, latino-americana e mundial, capaz de responder aos anseios do povo boliviano e da classe trabalhadora de todos os países do mundo.

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Publicado em 25.04.2010

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